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21 Nov 2025| Nº. 183

Editorial

O Brasil iniciou a semana no centro do debate global sobre mudanças climáticas, como anfitrião da COP30, em Belém, onde negociadores avançam rumo a uma primeira versão da declaração final do encontro. O desafio é formular propostas para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C. Segundo autoridades brasileiras, o texto preliminar apresentado na quinta-feira inclui compromissos sobre financiamento climático e financiamento para adaptação ambiental, além de um roteiro para a substituição progressiva dos combustíveis fósseis — todas áreas indicadas como prioritárias para a cúpula pelo Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado usar a COP30 para posicionar seu país como uma ponte entre as nações ricas e o Sul Global, enquadrando os danos das mudanças climáticas como uma questão mais ampla de justiça social. Delegados alertaram que, sem compromissos mais firmes dos principais emissores, o progresso poderia estagnar, mas os negociadores encerraram a primeira semana cautelosamente otimistas de que Belém poderia produzir um dos resultados mais ambiciosos da COP em anos.

Esse otimismo foi um tanto abalado por um inesperado desentendimento diplomático envolvendo o chanceler alemão Friedrich Merz, cujas declarações improvisadas sobre Belém provocaram reações negativas em todo o Brasil. Em declarações amplamente divulgadas pela mídia alemã e brasileira, Merz sugeriu que as condições na cidade anfitriã da Amazônia eram “difíceis” e que futuras cúpulas globais poderiam ser melhor realizadas em outros locais, uma afirmação que autoridades brasileiras criticaram como desrespeitosa e baseada em estereótipos sobre a região. Merz posteriormente afirmou lamentar a impressão causada por seus comentários, ressaltando que a Alemanha acolhia a liderança do Brasil em questões climáticas. De fato, na quinta-feira, o governo alemão destinou um bilhão de euros ao principal fundo de investimento florestal defendido por Lula na COP. Ainda assim, o episódio reacendeu antigas sensibilidades sobre a imagem da Amazônia no exterior. Para os diplomatas brasileiros que trabalham para apresentar Belém como uma sede competente para a COP — especialmente em meio a negociações contenciosas — a controvérsia representou uma distração.

Outro acontecimento indesejável foi o escândalo envolvendo o Banco Master, uma instituição financeira de médio porte conhecida por suas operações de crédito agressivas e um portfólio de fintechs em rápido crescimento. O Banco Central ordenou a liquidação do Master após uma grave crise de liquidez e crescentes dúvidas sobre sua exposição ao risco, o que desencadeou uma corrida de saques aos depósitos. As contas seguradas estão sendo transferidas para outros bancos, e as autoridades enfatizam que a falência não representa um risco sistêmico. Mesmo assim, a rapidez com que o Banco Master entrou em colapso abalou os mercados e reacendeu o debate sobre a supervisão de instituições menores que operam na zona cinzenta entre o sistema bancário tradicional e o crédito de alto rendimento.

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Destaques

  • Novo ministro. O presidente Lula confirmou nesta quinta-feira a indicação de Jorge Messias para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal. Messias vai substituir Luís Roberto Barroso, que se aposentou. O novo indicado tem 45 anos e é doutor em direito. Ele foi indicado por Lula em 2023 para chefiar a Advocacia-Geral da União. Uma das singularidades de Messias é o fato de ele ser evangélico e fazer comentários bíblicos em redes sociais – um comportamento mais frequentemente associado à base bolsonarista. A indicação de Messias contraria pressão de organizações e movimentos sociais que cobravam de Lula a indicação de uma mulher negra para a vaga. 

  • Racismo1. Pesquisa do Instituto Sou da Paz revelou que homens negros no Brasil têm 211% mais chances de serem mortos por armas de fogo que os homens brancos. O estudo, publicado nesta quinta-feira (20), Dia da Consciência Negra, revela que 80% das vítimas de homicídio no país são negras, com idades entre 20 e 29 anos, mortos em vias públicas. Essa disparidade é registrada em todo o território nacional, mas é ainda mais expressiva nos estados do Nordeste.

  • Racismo2. Outra pesquisa publicada no Dia da Consciência Negra revela que 80% dos brasileiros percebem diferenças de tratamento entre brancos e negros, em shoppings, supermercados, lojas, bares e restaurantes. Além disso, a maioria dos entrevistados também acha que negros são preteridos em ambientes de trabalho e em escolas. Para 75% das pessoas o racismo é um problema central nas cidades onde moram. 

  • Visita da OEA. O secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Albert Ramdin, realizou visita oficial ao Brasil, nos dias 17 e 18 de novembro. Essa foi a primeira visita oficial de um Secretário-Geral da OEA a Brasília em 9 anos. Ramdin esteve com ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Palácio Itamaraty. Os dois discutiram o atual momento da OEA, as iniciativas de cooperação entre o Brasil e a Organização, a situação no Haiti e a conjuntura política nas Américas, entre outros temas.

  • PL Antifacção. A Câmara dos Deputados aprovou esta semana um Projeto de Lei que altera a política de segurança pública no Brasil para o combate a facções criminosas. O texto, de autoria do deputado de extrema direita Capitão Derrite, condiciona as ações da Polícia Federal à aprovação dos governos estaduais e dificulta o congelamento de ativos dos grupos criminosos. Na prática, as medidas enfraquecem o combate ao crime, mas os setores bolsonaristas saudaram as medidas como um endurecimento da legislação. Confira o artigo que o WBO publica nesta edição do boletim, sobre esta questão.

  • Prisão de Bolsonaro. O Supremo Tribunal Federal poder vir a decretar já na semana que vem o início do cumprimento da pena de 27 anos e 3 meses imposta ao ex-presidente Jair Bolsonaro por envolvimento num golpe de Estado frustrado. Essa possibilidade foi aberta pela publicação do acórdão do caso, no qual são negados os argumentos da defesa.

 

Notícias da ABO, das organizações e dos movimentos sociais

Nova newsletter. O WBO e o Instituto Lavoro lançaram esta semana uma nova newsletter mensal e gratuita, em português, para internacionalizar o debate a respeito dos direitos trabalhistas e sociais. A publicação é parte de um trabalho conjunto que, ao longo de 12 meses, pretende ampliar o alcance internacional de questões como a crescente informalidade e a precariedade do mercado laboral, o trabalho em plataformas digitais, a duração das jornadas, a igualdade salarial, a organização sindical e o respeito aos parâmetros de direitos humanos no mundo do trabalho. Assine a newsletter para receber gratuitamente, por email.

PL da Devastação. O Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), em parceria com o WBO, o Observatório do Clima e a Conectas Direitos Humanos emitiram nesta sexta-feira (14) um alerta à Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Redesca) da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) sobre o que classificam como um “grave risco de desmonte institucional do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama)” no Brasil, provocado pelo chamado PL da Devastação. Leia mais.

COP30. A Aliança Brasil Office realizou na COP30, em Belém, em parceria do Instituto Vladimir Herzog e a Rede Cerrado, um painel essencial sobre o futuro da Amazônia e do Cerrado — bioma estratégico e profundamente ameaçado. O objetivo foi ampliar as vozes e as soluções que nascem nos territórios e que precisam orientar as decisões globais sobre clima e biodiversidade. Leia mais. 

Atingidos por barragens. No domingo (16)l, no encerramento da Cúpula dos Povos, mais de mil organizações de todos os países presentes em Belém saudaram a criação do Movimento Internacional de Atingidos por Barragens e pela Crise Climática, em um gesto de reconhecimento à importância que esta organização tem em vários países e terá no caráter internacional. Leia mais.

 

Artigo

Por que a direita brasileira quer enfraquecer a Polícia Federal?

Por Lindbergh Farias*

Os pareceres do secretário de Segurança licenciado de São Paulo, deputado bolsonarista Guilherme Derrite (PP), ao Projeto de Lei 5.582/2025, conhecido como PL Antifacção, configuram um verdadeiro ataque à ordem constitucional no Brasil e um prêmio ao crime organizado. 

A sexta versão do substitutivo “Frankenstein” do PL Antifacção, aprovada em 18/11 pela Câmara dos Deputados, aprofunda a desorganização normativa e mantém vícios estruturais graves, especialmente ao retirar recursos da Polícia Federal, enfraquecendo o órgão de coordenação nacional e contrariando o espírito da Proposta de Emenda Constitucional da Segurança Pública enviada pelo Governo Lula ao Congresso Nacional.

Em vez de fortalecer a Polícia Federal, o texto promoveu uma fragmentação orçamentária em relação aos fundos que compromete a eficiência no enfrentamento às organizações criminosas de atuação interestadual. Uma afronta ao PL Antifacção enviado pelo Governo Lula ao Congresso.

O substitutivo também desmontou a política de descapitalização das facções ao eliminar as medidas cautelares especiais previstas no projeto original, substituindo-as por instrumentos já existentes e criando a ficção de uma “ação civil autônoma”, que só acrescenta morosidade, insegurança jurídica e pulverização dos procedimentos de recuperação de bens. 

O projeto aprovado trouxe armadilhas graves: retirou da União o controle sobre a alienação e destruição de bens apreendidos, golpeando o coração da política de descapitalização das facções. Em vez de fortalecer o Estado, descapitalizou a Polícia Federal e dificultou o perdimento de bens do crime organizado. A criação de uma ação civil autônoma para o perdimento de bens é uma farsa jurídica que atrasará o confisco e reduzirá os recursos da Polícia Federal no combate ao crime.

O deputado bolsonarista atacou a espinha dorsal do PL Antifacção – justamente a capacidade de bloquear rapidamente recursos ilícitos e atingir o coração financeiro dos grupos criminosos. 

Além disso, o deputado de extrema-direita inventou categorias sem fundamento jurídico, como a tal “organização ultraviolenta”, numa tentativa de apagar a terminologia rigorosa de “facção criminosa” introduzida no texto original do governo federal. 

Esse tipo de improvisação conceitual enfraquece a política criminal, confunde operadores do direito e mascara o objetivo real: desfigurar a proposta técnica e consistente do Executivo, substituindo-a por um amontoado de conceitos vazios e dispositivos contraditórios. Na prática, essa confusão cria um caos jurídico que só favorecerá os advogados dos bandos criminosos.

Por que Derrite não propôs mudanças à Lei das Organizações Criminosas, ao Código Penal e ao Código de Processo Penal, criando uma quarta norma legal, que denominou de “Marco Legal de Combate ao Crime Organizado”? 

Há muita coisa no ar. Os governadores da extrema-direita voltaram a agir contra a lógica da PEC da Segurança, que defende integração e fortalecimento das forças policiais. Defenderam a votação do PL Antifacção restabelecendo a lógica da blindagem, ferindo a autonomia da Polícia Federal e impedindo que ela atue de forma plena contra o crime organizado. 

Para entender o cenário, é bom lembrar que a ofensiva não é casual: a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que atingiu redes de lavagem e adulteração de combustíveis ligadas a grandes grupos econômicos e políticos, acendeu o sinal de alerta entre governadores e empresários investigados. Se estivesse em vigor a proposta de Derrite, mais de R$ 1 bilhão do crime organizado não teriam sido confiscados, tampouco o combustível de quatro navios retidos pela Receita Federal no Rio de Janeiro. 

O exemplo mais emblemático é o do governador Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, que, temeroso com os desdobramentos da Operação Carbono Oculto, revelou possíveis conexões entre o seu governo, a empresa Refit e esquemas de adulteração de combustíveis associados a facções criminosas. 

Há também inquérito aberto pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que busca apurar as relações entre o crime organizado e agentes públicos, o que explica o desconforto e a pressa em desidratar o PL Antifacção na Câmara, como ocorreu de fato. A atuação firme e autônoma da Polícia Federal incomoda quem teme que a verdade venha à tona.

A tentativa de subordinar a Polícia Federal aos governadores, prática que ocorria há 100 anos, foi derrotada pela mobilização popular. Mas o novo movimento mostra que há setores poderosos tentando retaliar a atuação firme da Polícia Federal, especialmente em investigações que tocam nos elos entre poder político, facções e milícias.

O Governo Federal não aceitou negociar nenhuma medida que descapitalize e enfraqueça a atuação da Polícia Federal – que é o principal instrumento de combate às organizações criminosas e à corrupção –, nem que dificulte o perdimento de bens do crime organizado. Mas a Câmara aprovou o retrocesso. Não há segurança pública possível sem uma Polícia Federal forte, autônoma e livre de amarras políticas.

Os números recentes mostram a eficácia da estratégia do Governo Lula. Desde 2023, as ações integradas de segurança, com a Polícia Federal na vanguarda, retiraram R$ 19,8 bilhões das mãos de criminosos – o maior prejuízo financeiro já imposto ao crime no país. O número de operações da Polícia Federal cresceu 80% desde 2022. É justamente esse sucesso que incomoda. 

O PL Antifacção com o texto original (mais a PEC da Segurança Pública), buscou sustentar e ampliar esses avanços, asfixiando financeiramente as facções e modernizando a integração das forças de segurança. O substitutivo de Derrite aprovado pela Câmara, no entanto, vai na direção oposta. É dever de todos rechaçar veementemente este retrocesso para restabelecer no Senado Federal o texto original do governo Lula.

*Lindbergh Farias é deputado federal (RJ) e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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