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28 Ago 2026| Nº. 219

Editorial

O Datafolha mostra Lula com 39% das intenções de voto contra 33% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e, em uma eventual segunda rodada, 47% a 43%. Já o BTG/Nexus registra uma diferença ainda menor no segundo turno, com 46% para Lula e 45% para Flávio, configurando empate técnico. Apesar das diferenças entre os levantamentos, ambos revelam uma disputa polarizada e com pouca margem para erros.

É nesse contexto que ganha relevância a reunião realizada nesta semana entre Lula e os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. O encontro resultou em um entendimento para fazer avançar no Congresso uma agenda que inclui o fim da chamada taxa das blusinhas, a redução da escala de trabalho 6x1 e a PEC da Segurança Pública. Também foram incluídos o marco legal dos minerais críticos e o regime especial para datacenters. São propostas distintas, mas algumas delas dialogam diretamente com preocupações cotidianas do eleitorado: custo de vida, condições de trabalho e segurança pública.

Mais do que o conteúdo das propostas, o encontro revela uma dimensão importante da estratégia política de Lula nesta reta final. Depois de períodos de tensão entre o Executivo e o Congresso, o presidente conseguiu reconstruir canais de diálogo com os dirigentes das duas Casas e estabelecer uma agenda comum justamente quando deputados e senadores começam a voltar suas atenções para suas próprias campanhas. O esforço concentrado previsto para a próxima semana será também um teste da capacidade de transformar essa articulação política em decisões concretas.

Em uma eleição tão equilibrada, a capacidade de produzir resultados pode adquirir peso eleitoral. Lula chega aos dois últimos meses da campanha sem a vantagem confortável que seu campo político gostaria de ter, mas procura compensar essa fragilidade recorrendo a uma característica histórica de sua trajetória: negociação, construção de acordos e capacidade de reunir atores com interesses distintos.

 

Destaques

  • Sabatinas e debates. Com o começo oficial das campanhas eleitorais deste ano, tiveram início também os debates e sabatinas com os candidatos. Os dois principais concorrentes à Presidência da República – Lula e Flávio Bolsonaro – optaram por não comparecer aos debates, deixando o palco restrito apenas a candidatos de menor expressão – todos eles pertencentes a diversos matizes da direita. Já as sabatinas, têm ocorrido com todos, de maneira individual. As entrevistas feitas por jornalistas tiveram início esta semana nas principais emissoras, com os candidatos de menor expressão, e têm sido especialmente duras, no sentido de cobrar detalhes sobre os programas de governo apresentados.

  • Medo de votar. Reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo mostra que eleitores brasileiros nos EUA estão com medo de ir aos locais de votação para exercer o direito de escolher seu presidente, em outubro. A comunidade brasileira receia que agentes do ICE capturem e deportem os eleitores nas filas de votação. De acodo com o jornal, a prefeitura de Nova York teria ajudado o Consulado do Brasil a encontrar lugares nos quais possam ser colocadas as urnas, sem que haja filas do lado de fora, o que minimizaria a chance de capturas.

  • Economia. A taxa de desemprego no Brasil chegou a seu menor patamar desde 2012, na medição que leva em conta o período transcorrido entre maio e julho deste ano. O recuo no trimestre foi 0,3 ponto percentual, e ficando em 5,3%. A boa notícia sobre o mercado de trabalho contrasta com as más notícias que a economia tem trazido no que diz respeito à manutenção das altas taxas de juros, o alto endividamento das famílias e a explosão no número de pedidos de recuperação judicial de empresas. Do ponto de vista eleitoral, a economia tem sido um dos pontos fortes do discurso de oposição do candidato Flávio Bolsonaro contra o presidente Lula.

  • Dark Horse. O Supremo Tribunal Federal determinou esta semana que a Polícia Civil de São Paulo repasse para a Polícia Federal dados de uma investigação sobre a forma de financiamento de um filme americano chamado Dark Horse, que pretende contar a história de Jair Bolsonaro. A investigação, em São Paulo, trata da suspeita de que a empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up, tenha desviado para o financiamento do filme fundos captados por uma outra empresa dela, o Instituto Conhecer Brasil, que possuía contratos de fornecimento de sinal de wifi para a prefeitura. A investigação federal, por sua vez, busca apurar se três deputados do partido de Flávio Bolsonaro desviaram recursos de emendas orçamentárias para financiar o filme. Além disso, Flávio foi gravado pedindo recursos para o mesmo fim ao empresário Daniel Vorcaro, pivô do caso Master. Existe a suspeita ainda de que fundos do filme tenham sido usados para financiar o lobby político da família Bolsonaro em Washington.    

  • Lulinha. Fábio Luis Lula da Silva, filho do presidente Lula, segue sendo pivô do caso de maior desgaste político para a campanha presidencial do pai até aqui. A Polícia Federal vem soltando a conta-gotas o teor de mensagens enviadas pela lobista Roberta Luchsinger a interlocutores, nas quais cita o nome do filho do presidente, insinuando que ele estaria envolvido em tráfico de influência junto a empresas que buscam obter contratos vultuosos com o Governo Federal. Há três casos envolvendo menções a Lulinha que estão nas mãos do Supremo Tribunal Federal. A defesa refuta as acusações, dizendo que elas visam apenas causar desgaste a Lula. O presidente, por sua vez, diz que cabe apenas ao filho se explicar.

 

Notícias da Aliança e das organizações parceiras

Democracia. O Pacto pela Democracia publicou uma nota em defesa da participação de todos os candidatos à Presidência da República nos debates eleitorais. A carta diz respeito à ausência dos dois principais envolvidos na disputa, Flávio Bolsonaro e Lula. “A realização de debates eleitorais é fundamental para fortalecer a democracia e garantir que eleitoras e eleitores tenham acesso a diferentes propostas e projetos para o país”, diz a organização. Leia a nota completa.

Big tech. A regulação da atuação das chamas big tech no ambiente eleitoral brasileiro foi tema de um importante artigo de opinião publicado esta semana no jornal O Estado de S. Paulo por um conjunto de organizações da sociedade civil que monitoram o setor. As autoras e autores defendem a criação de espaços permanentes de diálogo técnico entre TSE, plataformas, academia e sociedade civil, além de mecanismos que permitam maior acompanhamento externo da implementação dos planos. Leia o texto escrito por representates da Internet Lab, Conectas Direitos Humanos, Aláfia Lab e Instituto Democracia em Xeque, entre outras organizações.

Cerrado e babaçuais. Uma recente reportagem da Amazônia Real documenta o aumento da pressão territorial sobre quebradeiras de coco babaçu e comunidades quilombolas em Penalva, no Maranhão. Cerca de 180 comunidades aguardam há 26 anos pela criação da Reserva Extrativista Enseada da Mata, uma área de aproximadamente 8.500 hectares na Baixada Maranhense, zona de transição entre Amazônia, Cerrado e Mata dos Cocais. Enquanto isso, as comunidades denunciam cercas elétricas e porteiras com cadeados que restringem o acesso a áreas produtivas de babaçu, além de desmatamento, uso de agrotóxicos e criação de búfalos que afetam a vegetação, o solo e a água. O conflito ameaça não apenas o acesso à terra, mas também práticas extrativistas tradicionais das quais dependem a alimentação, a renda e a continuidade cultural das famílias. O caso mostra como a demora na proteção territorial pode aprofundar a degradação ambiental e os conflitos que atingem povos e comunidades tradicionais. 

Cerrado e Caatinga. A COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação acontece de 17 a 28 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, reunindo representantes dos 197 países que integram a Convenção, entre eles o Brasil. A conferência coloca novamente no centro da agenda internacional a degradação da terra, as secas e seus vínculos com a crise climática. Para o Brasil, essa discussão encontra dois biomas que já convivem com sinais claros desse processo, o Cerrado e a Caatinga. Como mostra uma campanha da AMEDI, a crise já se mede nos territórios, perda de vegetação e umidade, mudanças no regime de chuvas e menor disponibilidade de água. São transformações que afetam o plantio, o trabalho e a permanência das comunidades. Os povos e comunidades tradicionais conhecem de perto essas mudanças e precisam estar no centro das respostas à desertificação.

 

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Artigo

Pressão Comercial e Intervenção Política Convergem nas Relações EUA-Brasil

*Por Gimena Sánchez-Garzoli* e Lucas de Souza Martins**

Este artigo foi originalmente publicado no site da WOLA e gentilmente cedido pelos autores para reprodução no boletim informativo da Brazil Office Alliance.

A apenas 47 dias do primeiro turno das eleições brasileiras, as relações EUA-Brasil entraram em um período particularmente delicado. O que era inicialmente apresentado como uma disputa comercial tem convergido cada vez mais com a campanha presidencial brasileira de 2026, aumentando as preocupações sobre o envolvimento dos EUA na política interna. Desde que o governo Trump confirmou, em meados de julho, uma tarifa de 25% com base na Seção 301 sobre produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais, e uma tarifa adicional de 12,5% no final de julho, também com base na Seção 301, alegando trabalho forçado em muitas economias do mundo, o comércio, a diplomacia e a política eleitoral têm se tornado cada vez mais interligados.

Em 20 de julho, os EUA concederam residência permanente a Eduardo Bolsonaro após sua condenação por tentar persuadir autoridades americanas a sancionar o juiz Alexandre de Moraes, já que este foi o magistrado que condenou seu pai por conspiração para um golpe de Estado, visando se manter no poder após a derrota nas eleições de 2022. Embora a residência não impeça a extradição, a medida ressalta o envolvimento contínuo do governo Trump nas disputas legais e políticas da família Bolsonaro.

A dimensão eleitoral se acirrou no dia seguinte, quando o então candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, declarou a embaixadores estrangeiros que o sistema de votação eletrônica do Brasil era falho. Alguns diplomatas interpretaram as declarações como uma preparação para contestar os resultados das eleições de outubro, caso Lula seja reeleito. Observadores também traçaram paralelos com o encontro similar de Jair Bolsonaro com embaixadores em 2022, que contribuiu para sua destituição do cargo. Flávio defendeu as ações de seu pai como preocupações legítimas sobre a transparência eleitoral, o que levou diversas partes a cogitarem ações judiciais contra ele.

Flávio defendeu as ações de seu pai como preocupações legítimas sobre a transparência eleitoral, levando diversos partidos a considerarem medidas legais contra ele. As preocupações com o envolvimento direto dos EUA também se intensificaram após relatos de que os funcionários do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, solicitaram vistos para visitar Brasília de 27 a 30 de julho, com o objetivo de se encontrar com autoridades, líderes religiosos e Flávio Bolsonaro para discutir a integridade eleitoral e a liberdade de expressão.

Embora o Departamento de Estado tenha classificado a visita como rotineira, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil negou os vistos, alegando preocupações com o envolvimento dos EUA no processo eleitoral.

A visita frustrada também gerou críticas em Washington. Em 28 de julho, senadores democratas da Comissão de Relações Exteriores acusaram o governo Trump de promover teorias da conspiração sobre as eleições brasileiras, evidenciando preocupações com as ações do governo Trump.

A mídia brasileira também noticiou que o Consulado dos EUA em São Paulo realizou reuniões a portas fechadas com influenciadores digitais conservadores sobre liberdade de expressão e o ambiente digital. A falta de esclarecimentos sobre o propósito dessas reuniões e o papel dos participantes alimentou ainda mais o escrutínio do envolvimento político dos EUA no processo eleitoral brasileiro.

Em 29 de julho, o governo Trump renovou o estado de emergência nacional no Brasil por meio da Ordem Executiva 14323, reiterando as acusações contra o Supremo Tribunal Federal e seu tratamento a Jair Bolsonaro. Embora não tenha imposto novas medidas, a renovação preservou o arcabouço legal para futuras ações dos EUA.

A crise se intensificou em 4 de agosto, quando o Departamento de Estado revogou o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti — a primeira ação desse tipo em mais de dois séculos de relações entre EUA e Brasil. Um porta-voz do Departamento de Estado classificou a medida como uma ação recíproca relacionada à demora do Brasil em aprovar Daniel Perez como embaixador dos EUA no Brasil e afirmou que Viotti recuperaria seu visto assim que Brasília aprovasse Perez. O Brasil repudiou a decisão, considerando-a uma escalada deliberada, incompatível com uma relação historicamente baseada no respeito mútuo.

A opinião pública brasileira também pode estar se afastando de Washington. Uma pesquisa da PoderData de 24 de julho revelou que a maioria dos brasileiros é favorável a laços comerciais mais fortes com a China, atualmente o maior parceiro comercial do Brasil, enquanto 42% afirmaram que o apoio de Trump prejudicaria um candidato à presidência.

Argentina e China reagem aos acontecimentos. Na mesma semana, as tensões geopolíticas no Brasil se intensificaram. Em 25 de julho, Javier Milei participou da convenção do Partido Liberal em São Paulo, indicando Flávio Bolsonaro, e criticou Lula e o ministro Alexandre de Moraes, o que levou o Brasil a convocar seu embaixador em Buenos Aires.

Dias depois, Lula conversou com o presidente chinês Xi Jinping, que manifestou apoio público à soberania brasileira e se opôs à interferência estrangeira. Somada às mudanças no comércio e na opinião pública, a pressão dos EUA pode estar acelerando a inclinação econômica e diplomática do Brasil em direção à China.

Em conjunto, esses acontecimentos apontam para uma campanha eleitoral brasileira cada vez mais influenciada por atores estrangeiros, com os EUA se tornando um dos protagonistas das eleições de outubro. Isso ajuda a explicar a postura diplomática mais assertiva do Brasil e a forma como Pequim enquadra seus laços com o país, enfatizando a soberania e a oposição à interferência externa.

 

*Lucas de Souza Martins é professor de Política dos EUA e Assuntos Globais. Possui mestrado em História dos EUA pela Georgia State University e é doutorando na Temple University, especializando-se nas relações entre os EUA e a América Latina. Jornalista formado pela Universidade Mackenzie, atuou anteriormente como assessor de imprensa no Senado Federal e no Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), em Brasília. Ex-pesquisador visitante (research fellow) do Wilson Center e do Carter Center, ele atua como consultor sobre o Brasil na Washington Office on Latin America (WOLA).

*Gimena Sanchez-Garzoli é diretora para a Região Andina na Washington Office on Latin America (WOLA), onde lidera as iniciativas relacionadas à Colômbia, ao Brasil e à Argentina. Há mais de 25 anos, ela trabalha em prol dos direitos humanos, da justiça social e da paz nas Américas. Possui mestrado pela Johns Hopkins SAIS e bacharelado pela Columbia University. Atualmente, é doutoranda na Bircham University.

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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