jpcharleaux@braziloffice.org ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏ ͏

01 Mai 2026| Nº. 203

Editorial

Esta semana trouxe um revés histórico para o governo Lula, com repercussões que vão muito além da contagem imediata dos votos no Congresso Nacional. Na noite de quarta-feira, o governo não conseguiu a aprovação do Senado para a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), expondo a fragilidade de sua coalizão parlamentar e, mais especificamente, os limites de sua influência entre os senadores. Nenhum presidente havia visto um indicado ao STF ser rejeitado pelo Senado em mais de um século. O que havia sido apresentado por aliados como uma confirmação administrável transformou-se em uma batalha indireta sobre alinhamento institucional, com senadores da oposição e centristas indecisos sinalizando resistência não apenas ao indicado em si, mas também às ambições mais amplas do Executivo de reformular o Supremo. As consequências foram imediatas: na manhã de quinta-feira, os líderes partidários já estavam reavaliando suas estratégias, interpretando a derrota como uma vitória tática para a oposição e um sinal de alerta para o governo, que entra em uma fase eleitoral mais tensa. Resta saber se Lula apresentará outro nome para o Senado considerar ou se adiará a indicação para evitar outra possível derrota para o governo.

Se a derrota de Messias ressaltou os limites da influência do Executivo, o Congresso também se afirmou de forma incisiva, em aberta afronta ao presidente. Na quinta-feira, os parlamentares votaram pela derrubada do veto presidencial à chamada Lei da Dosimetria, beneficiando diretamente figuras envolvidas na revolta de 8 de janeiro de 2023 em Brasília — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso. A margem da votação, que contou com o apoio de uma ampla e ideologicamente heterogênea coalizão, sugeriu que o Poder Legislativo está cada vez mais disposto a desafiar o governo em questões com claras implicações judiciais e eleitorais. Além dos efeitos jurídicos imediatos, a medida aprofunda uma dinâmica já conhecida: o Congresso atuando não apenas como parceiro de negociação, mas como um polo de poder autônomo, capaz de remodelar o terreno em que tanto o Executivo quanto o Judiciário devem operar.

Nesse contexto, um desdobramento mais simbólico, embora não menos relevante politicamente, surgiu no final da semana. Um relatório divulgado na manhã de quinta pela organização Repórteres Sem Fronteiras colocou o Brasil à frente dos Estados Unidos no ranking global de liberdade de imprensa pela primeira vez na história, marcando uma ascensão expressiva desde 2022 e atribuindo a mudança às transformações no clima político sob o governo Lula. A melhora — que levou o país da classificação “difícil” para “sensível” e para a 52ª posição — já foi incorporada a diferentes narrativas internas. Para os aliados do governo, isso oferece uma validação externa da normalização institucional e de uma relação menos conflituosa com a imprensa. Ainda assim, em uma semana marcada por confrontos entre os poderes do Estado, o ranking ressalta que a trajetória democrática do Brasil está sendo avaliada não apenas por meio de suas disputas internas, mas também pelas percepções em constante evolução dos observadores internacionais.

 

Destaques

Apostas. A Polícia Federal do Brasil investiga a entrada no país de cinco malas que foram trazidas a bordo de um jato particular que pertence a Fernando Oliveira Lima, dono de uma poderosa empresa de apostas on line, investigado na Comissão Parlamentare de Inquérito das bets. No voo, estavam também o presidente das Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira, além de deputados Doutor Luisinho e Iznaldo Bulhões. As malas passaram por fora dos sistemas de detectação de metal e de raio-x, em clara violação às normas. Foi aberta investigação sobre facilitação de contrabando, descaminho e prevaricação. Mas o caso enseja suspeitas de repasse de valores indevidos a políticos, por parte de empresários do ramo de apostas.


Juros. O Banco Central cortou em 0,25 pontos percentuais a taxa básica de juros no Brasil. Com isso, o país passou a ter 14,5% de juros ao ano, em vez dos 14,75% anteriores. Apesar da redução, o Brasil ainda tem uma das maiores taxas de juros do mundo. Ela é 10,75 pontos percentuais mais alta que a taxa pratica nos Estados Unidos. No mundo, apenas os russos têm juros mais altos que os brasileiros. O presidente Lula vem pressionando o Banco Central a reduzir os juros para fomentar o consumo e o crescimento, mas eventos internacionais, como a guerra no Oriente Médio, continuam justificando uma taxa alta, como forma de conter a inflação.  

Educação. Pesquisa recente, realizada pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), mostra que mais de 300 mil crianças brasileiras estão sem acesso à pré-escola, o que equivale a 6% da população com faixa etária entre 4 e 5 anos. O acesso a esse primeiro nível da educação escolar não é garantido em 876 cidades brasileiras, o que equivale a 16% do total de municípios do país. A obrigatoriedade do ensino a partir dos 4 anos é uma obrigação desde 2009, com prazo de implementação até 2016. Piauí, Sergipe e Bahia, no nordeste, são os três estados que mais garantem esse direito, enquanto Amapá, Acre e Amazonas, no norte, têm os piores desempenhos.    

Guerra. Um bombardeio israelense matou no domingo (26) uma família brasileira que vivia em Bint Jbeil, no sul do Líbano. A mãe, o marido e um filho de 11 anos foram alvejados por um bombardeio executado por foças de Israel quando visitavam a casa da família, durante a vigência de um cessar-fogo que havia sido estabelecido entre as partes. Um dos filhos do casal sobreviveu. A família havia se mudado para o estado do Paraná, no sul do Brasil na década de 1990, onde fez o processo de naturalização, antes de regressar ao Líbano, em 2010. O Brasil protestou, classificando a ação de “inaceitável”, e de uma clara violação às normas internacionais.

 

Notícias das organizações da Aliança Brazil Office

Viodecast. Está no ar a mais nova edição do videocast Brazil Unfiltered – Temporada Eleitoral, produzido em parceria entre o WBO e o The Brazilian Report. Nesta edição, o jornalista Gustavo Ribeiro conversa com o historiador James N. Green, presidente do Conselho Diretivo do WBO, sobre os riscos de uma interferência dos Estados Unidos na corrida presidencial brasileira de outubro deste ano. Clique aqui para ver e ouvir o episódio.

Novas filiadas. Duas novas organizações brasileiras se filiaram esta semana à Aliança Brazil Office. A primeira delas é a Rede Intersexo Brasil, que luta para promover, defender e proteger os direitos das pessoas com variações das características sexuais no Brasil. A segunda, o Alafaia Lab, que produz conhecimento, impacto social e uso da tecnologia para a promoção da justiça e da democracia no país. Essas alianças ajudam a projetar e a potencializar a incidência internacional das organizações da sociedade civil brasileira.

Cerrado e Caatinga. O aumento da violência rural no Brasil reflete uma crise territorial que impacta o Cerrado e a Caatinga por meio da expansão do agronegócio e da intensificação dos conflitos por terra. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, os assassinatos no campo dobraram em 2025, mesmo com queda de 28% nos conflitos totais, que somaram 1.593 ocorrências. Essa dinâmica avança sobre regiões como MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde povos e comunidades tradicionais (PCTs) enfrentam deslocamento e pressão sobre a água. Povos indígenas, quilombolas e camponeses seguem entre os mais afetados, evidenciando maior concentração e letalidade da violência. Leia o informe completo aqui.

Cerrado e Caatinga 2. A Universidade Federal de Uberlândia sedia, nos dias 21 e 23 de maio, um evento especialmente dedicado ao debate sobre a preservação dos biomas da Caatinga e do Cerrado. Com “O Cerrado no Mundo – Territórios, Direitos e Incidência Global”, espera-se aumentar a articulação estratégica internacional, explorando novas narrativas e formas de comunicação política que contribuam para a defesa dos direitos territoriais e a conservação desses importantes biomas. A atividade é organizada pela Rede Cerrado, em parceria com Amedi, Brazil Office Alliance e Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática. Mais informações podem ser obtidas pelo email adalberto@redecerrado.org.br.

 

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Artigo

Xadrez das eleições, geopolítica e o jogo real por trás da disputa

Por Luís Nassif*

Este artigo foi publicado originalmente no Jornal GGN, no dia 17 de março de 2026, e gentilmente cedido para reprodução no boletim semanal da Aliança Brazil Office. 

A eleição presidencial de 2026 será o confronto mais polarizado desde a redemocratização. O embate é plebiscitário, sem terceira via competitiva no horizonte: de um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; do outro, o senador Flávio Bolsonaro. 

Mas o jogo é bem mais complexo. O cenário real envolve economia, geopolítica, guerra de narrativas, plataformas digitais e uma série de variáveis externas que podem redesenhar o tabuleiro.

O que segue é uma análise estruturada dos seis centros de poder que organizam a disputa, dos três cenários mais prováveis, dos riscos específicos de cada candidatura e — no limite — da pergunta que pode decidir tudo.

A eleição presidencial de 2026 será o confronto mais polarizado desde a redemocratização. O embate é plebiscitário, sem terceira via competitiva no horizonte: de um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; do outro, o senador Flávio Bolsonaro. 

Mas o jogo é bem mais complexo. O cenário real envolve economia, geopolítica, guerra de narrativas, plataformas digitais e uma série de variáveis externas que podem redesenhar o tabuleiro.

O que segue é uma análise estruturada dos seis centros de poder que organizam a disputa, dos três cenários mais prováveis, dos riscos específicos de cada candidatura e — no limite — da pergunta que pode decidir tudo.

O Paradoxo Que Define o Cenário

O Brasil que chega a 2026 vive uma contradição: os indicadores macroeconômicos são razoáveis, mas a sensação cotidiana é de aperto. O crescimento projetado gira em torno de 2,3%, o desemprego está em patamares historicamente baixos e a inflação opera dentro da meta — mas a taxa Selic na casa dos 15% age como um freio de mão puxado sobre a economia real.

O custo do crédito corrói o orçamento das famílias, especialmente da classe média, que sente trabalhar apenas para pagar juros. Financiamento da casa, juro do cartão, crédito do pequeno negócio: tudo isso pesa muito mais no humor do elevador do que qualquer variação no PIB. O mercado projeta a Selic recuando para algo próximo de 12% ao final de 2026 — mas se esse alívio não for sentido na prática antes das urnas, os bons números não reduzirão a sensação de mal-estar das famílias.

Esse paradoxo. Uma eleição que vence nos índices, mas perde na percepção, é uma eleição perdida. E o governo que não conseguir transformar desempenho econômico em expectativa de futuro estará em terreno movediço — mesmo com os dados a seu favor.

PIB cresce. Humor do elevador despenca.
Esse é o dilema central do incumbente em 2026.

  1. Os Dois Lados do Tabuleiro


Lula: os ativos e o risco narrativo

Lula entra na disputa com três vantagens estruturais: a máquina federal, a memória social acumulada em quatro mandatos e o antibolsonarismo como força de coesão. A seu favor pesa também a legitimidade democrática — o presidente que sobreviveu à tentativa de golpe de 2023 carrega um ativo simbólico que nenhum indicador consegue produzir artificialmente.

Mas seu risco maior é narrativo. Um governo que entrega bons números sem traduzir isso em experiência cotidiana corre o risco de se tornar gestor do presente — e, na prática política, gestor do presente é alvo fácil para quem vende mudança. A fadiga de um quarto mandato, a ausência de um projeto de futuro em linguagem simples e a tendência de reagir em vez de pautar são suas maiores vulnerabilidades.

Há ainda o risco de subestimar o ecossistema digital da direita. A eleição de 2026 terá inteligência artificial, vídeo curto, rede religiosa, indignação moral e campanhas de contágio emocional em escala inédita. O TSE já aprovou regras específicas para o ciclo eleitoral — inclusive restrições ao uso de IA — justamente porque reconhece esse risco. Ignorá-lo seria um erro estratégico grave.

Flávio Bolsonaro: a herança e o desafio da moderação

Flávio Bolsonaro herda marca, base e ecossistema. O sobrenome mobiliza três redes bem organizadas e com alta capacidade de engajamento: o conservadorismo religioso, o bolsonarismo digital e a direita ligada ao agronegócio e às forças de segurança. É uma base sólida, leal e altamente motivada — o que garante piso alto em qualquer cenário.

Mas o problema estrutural é claro: para vencer, não basta segurar a base. É preciso reduzir rejeição fora dela. É por isso que a chamada ‘operação Flávio moderado’ faz tanto sentido estratégico — a tentativa de reembalar a candidatura com estética de direita responsável, palatável ao mercado financeiro e ao eleitor urbano de centro que rejeita o radicalismo, mas também rejeita o PT.

O obstáculo é que essa moderação é cenográfica — e a campanha adversária certamente tentará deixar isso evidente. O histórico do clã Bolsonaro, incluindo o caso das rachadinhas e as relações com milicianos amplamente documentadas, pesa menos sobre a base dura e mais sobre o eleitor de centro que a oposição precisa conquistar. Trocar o tom de voz sem trocar o conteúdo é uma operação arriscada quando o adversário tem interesse direto em desmontá-la.

  1. Os Seis Centros Reais de Poder

A eleição não será decidida apenas nas urnas. Há seis forças que organizam o jogo e que operam simultaneamente — às vezes em direções opostas.

  1. O Voto Popular

Permanece o eixo central, mas está fraturado em dois blocos emocionais distintos. Lula tende a largar melhor onde pesam renda, memória social e medo do retorno bolsonarista. Flávio cresce onde pesam antipetismo, conservadorismo moral, segurança pública e rejeição ao ‘sistema político tradicional’. A eleição será decidida por qual dessas emoções conseguir mobilizar mais eleitores indecisos: alívio ou ressentimento.

  1. O Poder do Dinheiro

O mercado não elege sozinho, mas define o que os analistas chamam de ‘clima de viabilidade’ de uma candidatura — aquela percepção difusa de que um nome é ou não é uma opção séria. Se os juros cederem e a renda melhorar antes das eleições, Lula ganha oxigênio. Se o custo do crédito continuar esmagando empresas e famílias, a oposição ganha narrativa. O Copom e o calendário eleitoral estão, portanto, profundamente entrelaçados.

  1. A Mídia Tradicional

Perdeu o monopólio do voto, mas mantém enorme influência sobre três coisas: definir o assunto do dia, estabilizar ou destruir reputações e conceder — ou retirar — o selo de ‘moderado’, ‘radical’, ‘responsável’ ou ‘perigoso’. É exatamente esse mecanismo que sustenta a tentativa de reembalar Flávio como uma opção conservadora legítima. Numa eleição decidida na margem, o velho ‘não é bem aquele Bolsonaro’ pode fazer diferença — se a mídia corporativa decidir colaborar com essa operação simbólica.

  1. As Plataformas Digitais

Este é o motor oculto de 2026. Quem dominar WhatsApp, Telegram, os cortes virais no YouTube, os influenciadores políticos e a microsegmentação religiosa terá uma máquina de persuasão mais poderosa do que qualquer palanque físico. A TV ainda pesa; o celular, hoje, pesa por dentro da cabeça. O TSE reconhece isso — e a resposta das plataformas, sob proteção política de Washington em nome da ‘liberdade de expressão’, pode criar o que alguns analistas já chamam de ‘faroeste digital’: um ambiente de desinformação sem moderação efetiva, que historicamente favorece a direita em sua capacidade de produção de conteúdo emocional em escala.

  1. O Sistema Político

Congresso, governadores, Centrão, bancadas temáticas, aparato federativo — essa engrenagem decide financiamento, coligações, tempo de TV e capilaridade territorial. Flávio tem potencial de reunir com mais facilidade os setores da direita parlamentar, do agro e do conservadorismo religioso. Lula tem a vantagem da máquina federal e de uma coalizão historicamente mais ampla — mas paga o preço de governar com alianças que desgastam sua identidade e dificultam a clareza narrativa.

  1. O Poder Externo

A variável mais subestimada e, potencialmente, mais decisiva. Os Estados Unidos, sob o que analistas chamam de ‘Corolário Trump’, deixaram de ser observadores passivos na América Latina para operar como jogadores ativos. A reclassificação de facções brasileiras — PCC e CV — como ameaças regionais e potenciais organizações terroristas cria um instrumento retórico poderoso para a oposição, que pode acusar Lula de condescendência com o crime organizado. A pressão geoeconômica, os acordos de defesa regionais e a proteção às big techs criam um ambiente que complica a postura de não-alinhamento do governo federal.

  1. O Efeito Trump e a Nova Geopolítica

O cenário doméstico será fortemente influenciado pelo reposicionamento estratégico dos Estados Unidos na América Latina. Washington não intervirá de forma clássica — sem bigode e sem pasta 007. O que está em curso é algo mais moderno e mais difuso: pressão geoeconômica, influência sobre elites regionais, guerra de narrativas, alinhamentos securitários e uso político do tema do crime organizado.

O ‘tarifaço’ de 2025 já demonstrou que os EUA estão dispostos a usar barreiras comerciais como instrumento de coerção política — condicionando o acesso ao mercado ao alinhamento ideológico. Isso fragiliza a economia brasileira às vésperas de um ciclo eleitoral e cria um dilema para Lula: qualquer aproximação com Pequim ou Moscou será usada pela oposição como prova de ‘isolamento do Ocidente’.

Há também o cenário venezuelano. Uma eventual intervenção americana cercaria o Brasil de governos fortemente alinhados a Washington — Equador, Paraguai, Venezuela pós-Maduro. A oposição capitalizaria o medo, afirmando que ‘o próximo pode ser aqui’, e isolaria ainda mais a posição de Lula no tabuleiro regional. Não é necessário que isso aconteça para que o argumento seja usado — basta que pareça plausível.

  1. Os Cisnes Negros

O termo descreve eventos extremamente raros, imprevisíveis e com impacto gigantesco, que depois de ocorrer parecem óbvios — como se todo mundo dissesse: “era claro que isso ia acontecer”.

O Brasil tem histórico documentado de eleger o improvável como protagonista. No contexto de 2026, três choques externos poderiam redesenhar completamente a disputa — e a lógica de cada campanha passaria de estratégia para sobrevivência.


Choque do Petróleo

Um conflito no Estreito de Ormuz ou escalada da tensão EUA-Irã poderia disparar o preço do barril e recolocar a inflação no centro do debate. Lula se veria diante de um dilema sem saída: intervir na Petrobras para segurar os preços e afugentar o mercado financeiro, ou deixar os combustíveis subirem e perder a periferia — o eleitorado que mais sente o peso do diesel caro no orçamento mensal.


O Precedente Regional

Uma intervenção americana na Venezuela que derrubasse o que resta do chavismo reposicionaria o Brasil como o único governo independente em um entorno cada vez mais alinhado a Washington. A oposição transformaria o isolamento regional em ameaça doméstica — e Flávio se apresentaria como o candidato que garante ‘proteção americana’ ao Brasil em um momento de tempestade geopolítica.

Pânico Bancário Doméstico

A liquidação de instituições financeiras de médio porte — como o risco sistêmico envolvendo o Banco Master — poderia gerar desconfiança sistêmica, fuga de capitais e pressão cambial severa. Com o dólar em trajetória de alta e a Selic travada para conter a inflação importada, o crédito desapareceria de vez. Nesse ambiente, o debate eleitoral deixaria de ser sobre projetos e passaria a ser sobre uma única pergunta: quem o brasileiro quer no comando durante uma tempestade? Mas é uma hipótese menos provável.

Com o Cisne Negro, a eleição deixa de ser sobre projetos de país e passa a ser decidida pelo medo — e pelo nome que parece mais seguro para atravessar a crise.

  1. Os Três Cenários Mais Prováveis


Cenário A — Lula vence apertado

Condição: Cenário-base. Probabilidade média-alta.

Os juros começam a ceder no segundo semestre de 2026, e a melhora da renda real chega a tempo de ser sentida antes das urnas. A candidatura adversária mantém rejeição alta fora do núcleo bolsonarista — a operação de moderação não convence o eleitor de centro. Lula consegue transformar indicadores em narrativa de estabilidade e apresenta um projeto de futuro minimamente coerente. A eleição vai para o segundo turno com vantagem estreita, decidida nos grandes centros urbanos.

Cenário B — Flávio vira o jogo

Condição: Probabilidade média. Depende de acumulação de fatores adversos.

O mal-estar econômico persiste — os juros não caem o suficiente, o crédito permanece inacessível e a sensação de estagnação domina o cotidiano. Lula chega à campanha sem narrativa de futuro, em modo reativo. A mídia corporativa e o sistema político normalizam Flávio como ‘conservador elegível’. A direita vence a guerra das plataformas com pautas de segurança pública e moral. O eleitorado de centro, cansado e ansioso, migra para a promessa de mudança.

Cenário C — Turbulência institucional

Condição: Cenário menos provável — mas recorrente na história recente do Brasil.

Um grande escândalo, uma crise de segurança grave, um choque entre Poderes ou um evento externo inesperado redesenha a agenda antes das eleições. O debate sobre projetos é substituído pela lógica de sobrevivência. Nesse ambiente, a eleição pode ser decidida por fatores que não estavam no radar de nenhuma campanha — e o eleitor, desorientado, tende a buscar o nome que oferece mais sensação de controle.

  1. O Que Lula Precisaria Fazer para Consolidar a Vitória

Indicadores não são suficientes. Programas não são suficientes. O que está em jogo é a capacidade de construir um eixo histórico — uma narrativa que dê sentido ao presente e projete um futuro desejável. Isso exige pelo menos cinco movimentos simultâneos.

  • Transformar indicadores em experiência vivida. O governo precisa falar menos de macro e mais do juro do cartão, do financiamento da casa, do custo da comida, do crédito para o pequeno negócio e da renda do trabalho. Eleição não é prova de econometria — é prova de sensação térmica.

  • Apresentar um projeto de futuro em linguagem simples. Algo como um tripé entre reindustrialização e tecnologia, soberania energética e infraestrutura, e proteção social com mobilidade real. Sem isso, a campanha vira ‘vote em mim porque o outro é pior’ — o que ganha uma eleição, mas não reconstrói legitimidade.

  • Disputar a narrativa de segurança pública. Este talvez seja o ponto mais negligenciado. Se Lula deixar segurança como monopólio retórico da direita, Flávio cresce em redutos onde o governo deveria ser competitivo. É preciso uma proposta que una inteligência policial, combate ao crime financeiro, controle de armas e proteção territorial — sem abrir mão da linguagem dos direitos.

  • Desmontar preventivamente a moderação cenográfica de Flávio. Em termos políticos, não panfletários: mostrar que não se troca o conteúdo apenas trocando o tom de voz. O sobrenome carrega história — e história tem registros.

  • Construir maioria moral, não apenas eleitoral. Recolocar 2026 como disputa entre dois projetos: Estado nacional com desenvolvimento e democracia versus coalizão conservadora com dependência externa, radicalização social e economia financeirizada. Só assim Lula sai do papel de incumbente cansado e volta ao de fiador de um ciclo histórico.

  1. Síntese Final: A Pergunta que Decide Tudo

O jogo real de 2026 não é sobre quem tem mais apoio hoje. É sobre quem consegue organizar melhor a percepção do país nos doze meses que antecedem as urnas.

Lula tem mais Estado, mais memória social, mais legitimidade democrática e melhores condições objetivas de defender seu governo. Flávio tem uma direita mobilizada, um ecossistema digital agressivo e uma chance real de ser ‘reembalado’ como opção aceitável para um eleitorado de centro que rejeita o radicalismo — mas que também está cansado.

O centro da disputa não estará nos extremos. Estará nos eleitores que ainda não decidiram, que sentem o aperto do crédito caro, que desconfiam do passado bolsonarista mas não estão convencidos de que o presente governo os representa. Esses eleitores serão disputados com emoção, narrativa e sensação de futuro — não com planilhas.

Se 2026 for lida como eleição sobre futuro, Lula tem caminho. Se for lida como eleição sobre mal-estar, Flávio entra no jogo para valer.

A equação final é simples de enunciar e difícil de resolver: o incumbente precisa transformar o presente em promessa. E o desafiante precisa convencer que a herança do passado ficou para trás. Quem conseguir isso primeiro — e de forma mais crível — define a eleição mais importante do Brasil desde 2022.

 

*Luís Nassif é jornalista, editor do Jornal GGN.

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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