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07 Ago 2026| Nº. 216

Editorial

A política externa deixou de ocupar uma posição periférica no debate público brasileiro. Nesta semana, a sucessão de acontecimentos envolvendo os Estados Unidos e a Argentina confirmou que as relações internacionais passaram a integrar o núcleo da disputa presidencial de 2026.

A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, a manutenção do impasse em torno da indicação do novo embaixador norte-americano para Brasília e as acusações recíprocas de interferência política elevaram as tensões entre Brasil e Estados Unidos a um nível raramente observado desde a redemocratização. Paralelamente, o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com a Argentina após novos ataques do presidente Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embora motivados por circunstâncias distintas, ambos os episódios revelam o aprofundamento de um ambiente de crescente fricção diplomática.

O significado dessas decisões vai além de seus efeitos imediatos. Do ponto de vista formal, a revogação de um visto diplomático, a demora na concessão de agrément, a redução do nível de representação diplomática e as restrições ao funcionamento regular das missões constituem instrumentos previstos na prática internacional. Do ponto de vista político, porém, carregam forte simbolismo. Sinalizam perda de confiança, deterioração do diálogo e maior dificuldade para administrar divergências por meio dos canais diplomáticos tradicionais.

Os impactos práticos dessas medidas ainda permanecem relativamente limitados. O comércio bilateral continua em funcionamento, os mecanismos de cooperação seguem ativos e os canais diplomáticos permanecem abertos. Entretanto, a continuidade dessa escalada poderá produzir consequências mais amplas para investimentos, coordenação regional, negociações comerciais e cooperação em temas estratégicos, como segurança, migração, meio ambiente e combate ao crime organizado. Mais do que isso, a crise começa a ser interpretada internacionalmente como um teste da capacidade de duas das maiores democracias do continente administrarem divergências políticas sem comprometer uma relação estratégica construída ao longo de décadas.

Essa percepção já ultrapassou o círculo diplomático. Veículos internacionais como The Wall Street Journal, Financial Times, The Guardian e El País passaram a tratar a evolução das relações entre Brasil e Estados Unidos não apenas como um episódio bilateral, mas como parte de um debate mais amplo sobre democracia, soberania, influência internacional e a redefinição das relações hemisféricas. A atenção dedicada ao caso demonstra que a eleição brasileira passou a ser observada como um evento de relevância internacional, cujos desdobramentos podem influenciar o equilíbrio político da América Latina e a forma como democracias lidam com pressões externas em um cenário global cada vez mais polarizado.

A poucos meses da eleição presidencial, a política externa passa a desempenhar um papel que raramente ocupou na história recente do Brasil. Mais do que um tema de governo, tornou-se objeto de disputa eleitoral, instrumento de mobilização política e elemento central das narrativas construídas tanto pelo governo quanto pela oposição. A evolução das relações do Brasil com seus principais parceiros internacionais poderá influenciar não apenas a agenda diplomática do próximo governo, mas também o ambiente político em que a própria eleição será realizada.

 

Destaques

  • Vice de Flávio. Alfredo Gaspar, do PL (Partido Liberal) de Alagoas, foi anunciado como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. A escolha revela duas incapacidades: a de atrair uma candidata mulher e a de agregar alguém que pertencesse a outro partido, de maneira a ampliar as alianças. Com isso, Flávio segue com uma aliança estreita e afastado do eleitorado feminino, onde seu desempenho é pior. Gaspar presidiu no passado uma Comissão Parlamentar de Inquérito que buscava investigar fraudes na Previdência Social. O relatório final produzido por ele foi rejeitado e, no curso do processo, descobriu-se que ele era acusado de ter estuprado uma menor de 14 anos, que teria engravidado. Há um pedido de abertura de inquérito contra ele sendo analisado pelo Supremo Tribunal Federal.

  • Alinhamento. O presidente Lula participou esta semana de um encontro informal com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Lula e Alcolumbre ficaram com as relações estremecidas depois que o presidente do Senado agiu para barrar a indicação de Jorge Messias para uma vaga aberta no Supremo Tribunal Federal. No encontro, o presidente teria dito que não pretende submeter de novo a indicação antes das eleições de outubro. A reunião mrca uma busca de realinhamento institucional em um ano eleitoral no qual as instituições brasileiras voltarão a ser testadas. 

  • Lulinha1. Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, tornou-se alvo de três pedidos de abertura de inquérito feitos pela Polícia Federal no intervalo de menos de uma semana. O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, que foi indicado ao cargo pelo presidente Lula, autorizou a abertura de um desses inquéritos. Os outros dois foram abertos com autorização de André Mendonça, ministro que foi indicado por Jair Bolsonaro.

  • Lulinha2. Um dos casos diz respeito a suspeita de tráfico de influência para favorecer um lobista conhecido como “Careca do INSS” em negociações ligadas ao uso de cannabis medicinal. O outro, trata de supostos privilégios dados a uma empresa que lida com processamento de dados da Previdência Social, enquanto último é ligado à suspeita de tráfico de influência em favor de uma lobista, Roberta Luchsinger, que emprestou dinheiro a um assessor do presidente Lula, chamado Marco Aurélio Santana Ribeiro, apelidado “Marcola”.

  • Marcola. O caso de Marcola é o que mais se aproxima de Lula, porque ele, como assessor, tinha acesso direto ao presidente da República. Mensagens interceptadas pela polícia durante a investigação do caso que envolve Lulinha e Roberta Luchsinger reveleram repasses de valores a Marcola ao longo de 2024. Ele alega que o dinheiro diz respeito a um empréstimo pessoal que foi quitado, mas a polícia suspeita que sejam pagamentos feitos em troca de acesso e influência à Presidência da República.

 

Notícias da Aliança e das organizações parceiras

Nova coluna. O secretário executivo do WBO, Paulo Abrão, passa a escrever duas vezes por semana uma coluna de análise e opinião no site Amado Mundo. A proposta da coluna, chamada Brazil Watch é tratar de política, democracia, direitos humanos, relações internacionais, desenvolvimento, meio ambiente e os grandes desafios institucionais do nosso tempo, sempre procurando conectar os acontecimentos do cotidiano às tendências mais profundas que moldam o país e o mundo. Saiba mais.

Mais análise. Além da coluna de Paulo Abrão no Amado Mundo, também a Agência Pública traz colunas escritas pelo presidente do Conselho Diretivo do WBO, James N. Green. Em seus textos, Green analisa sobretudo o panorama da política americana, com atenção especial às implicações para o Brasil. Saiba mais.

Interferência. A minoria democrata da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano publicou duas mensagens em redes sociais nas últimas semanas criticando a postura intervencionista de Donald Trump no Brasil. Na primeira delas, reproduziu reportagem do Washington Post na qual é dito que Trump buscava enviar dois funcionários para disseminar suspeitas infundadas sobre as urnas eletrônicas. Na segunda, foi feito um protesto contra a decisão americana de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luisa Viotti. Em julho, uma comitiva organizada pelo WBO esteve justamente conversando, em Washington, com congressistas americanos a respeito dessas interferências. Saiba mais. 

Desmatamento. O Instituto Escolhas publicou um relatório chamado “Muita soja e pouca mandioca: a alimentação nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal”, no qual mostra que “entre 2017 e 2024, a área plantada com soja cresceu 71%. Com isso, o grão passou a ocupar 62% da área plantada nessas regiões, enquanto a mandioca ficou com apenas 3%. Em sete anos, área de soja passou de 10 para 23 vezes a área destinada à mandioca”. Saiba mais.

 

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Artigo

Tarifas e urnas: a nova fase da pressão americana sobre o Brasil

Por Filipe Mendonça*

Na terça-feira, 4 de agosto, o governo Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. Duas semanas antes, entraram em vigor tarifas que, somadas, chegam a 37,5% sobre parte das exportações brasileiras. Na mesma semana, o Brasil negou visto a dois funcionários do Departamento de Estado que viriam ao país questionar as urnas eletrônicas. Tudo indica que a relação bilateral entrou numa fase sem precedentes, em que Washington intervém de forma direta e simultânea no comércio e na eleição brasileira.


As tarifas

Na questão do comércio, vale uma rápida contextualização. Em abril de 2025, o chamado Liberation Day consolidou o unilateralismo agressivo do trumpismo 2.0, com a IEEPA, a lei de poderes econômicos de emergência, como via principal e o Brasil entre os alvos preferenciais, taxado bem acima da média global. A aposta funcionou até chegar aos tribunais. Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte tornou ilegal o uso de poderes de emergência para impor tarifas discricionárias. A partir daí, o governo passou a se apoiar em instrumentos com autorização explícita do Congresso, como a Seção 122 (tarifas temporárias de até 15% para corrigir desequilíbrios no balanço de pagamentos), a Seção 232 (segurança nacional) e a Seção 301 (práticas comerciais desleais).

Diferentemente da IEEPA, esses mecanismos têm blindagem jurídica muito maior porque decorrem de delegação legislativa expressa, não de poderes de emergência discricionários. Blindagem maior, porém, não significa imunidade. Em 3 de agosto, 25 estados americanos, quase todos governados por democratas, entraram com ação no Tribunal de Comércio Internacional contra a rodada tarifária de 10% e 12,5% aplicada a 60 parceiros comerciais, sustentando que o combate ao trabalho forçado virou "pretexto" para um esquema tarifário ilegal. A reversão judicial das tarifas contra o Brasil segue improvável, mas o processo confirma que o custo político doméstico da estratégia cresce. 

O Brasil é um dos casos mais emblemáticos dessa reconfiguração. A investigação de Seção 301 aberta em julho de 2025 já nasceu mais política do que comercial. A determinação final fixou tarifa de 25%, em vigor desde 22 de julho. Dois dias depois, entrou em vigor uma segunda tarifa, de 12,5%, resultado da investigação sobre trabalho forçado que alcançou 60 economias. Para a maior parte dos produtos atingidos, as duas cobranças se acumulam. Na prática, os produtos brasileiros agora se dividem em cinco situações: isentos, taxados em 12,5%, em 25%, em 37,5% ou, no caso do aço e do alumínio, em 50% pela Seção 232.

A Seção 301 sempre funcionou como canal para transformar queixas empresariais americanas em pressão unilateral, como o Brasil aprendeu nos contenciosos da informática (1985), das patentes farmacêuticas (1987) e do imposto sobre serviços digitais (2021). Desta vez, os papéis se inverteram. Foram os lobbies americanos que atuaram como força moderadora, arrancando isenções que alcançaram cerca de 44% das exportações brasileiras, incluindo ferro-gusa, café, petróleo e minério de ferro. Foram poupados justamente os produtos de que a economia americana não pode abrir mão sem pressionar sua própria inflação. 

O impacto já é mensurável. A Amcham Brasil estimou em US$ 11 bilhões as vendas afetadas pela tarifa de 25% e em US$ 12,5 bilhões as alcançadas pela segunda rodada, das quais 85% acumulam as duas cobranças. Desde o primeiro tarifaço, em agosto de 2025, o Brasil deixou de exportar cerca de US$ 5 bilhões aos Estados Unidos. Por outro lado, mesmo com esta retração, o superávit comercial brasileiro chegou a US$ 50,8 bilhões entre janeiro e julho, alta de 9,4% sobre 2025, sinal de que a diversificação de mercados iniciada no ano passado amortece o golpe.

As urnas

A Seção 301 se tornou variável interna da eleição brasileira. Nas audiências públicas de julho, Flávio Bolsonaro abandonou o tom de sua carta original, que sugeria apenas a suspensão das taxas, para pedir o fim do tarifaço e defender inclusive o Pix. Dias depois, o secretário de Estado Marco Rubio culpou Lula pelo desfecho, afirmando que o presidente "colocou seu ego à frente" dos interesses do país. Lula respondeu sugerindo que Rubio montasse um comitê para apoiar a campanha de Flávio Bolsonaro.

A aposta de Washington, porém, vem produzindo o efeito contrário. Análises de redes sociais apontam influência direta dos Estados Unidos na disputa, majoritariamente em prejuízo de Flávio. Trump aparece em 40% das menções ao pré-candidato, que perdeu 2,3 pontos percentuais em menções positivas. Na Quaest de julho, 51% dos eleitores concordam com a versão de Lula de que Flávio pediu o tarifaço. Nada disso decide a eleição, mas o padrão é claro: quanto mais Trump intervém, pior para o candidato que se apresenta como seu aliado.

A segunda frente é mais grave. Em 21 de julho, Flávio reuniu diplomatas de cerca de 40 países e repetiu acusações feitas pelo seu pai contra as urnas eletrônicas já desmentidas pelo TSE. Na mesma semana, o Washington Post revelou que o Departamento de Estado planejava enviar dois funcionários ao Brasil para questionar a lisura do sistema eleitoral. O governo brasileiro negou os vistos. A revogação do visto da embaixadora Viotti, dias depois, foi lida no Planalto como resposta em tom eleitoral. Vale lembrar que em março, na CPAC, Flávio havia apresentado a eleição brasileira como batalha existencial da direita americana, com os minerais críticos brasileiros, sobretudo as terras raras, como prêmio.

O resultado é uma profecia que se auto cumpre. Quanto mais Washington intervém, por tarifas ou por dúvidas plantadas sobre as urnas, pior o desempenho do candidato que Washington gostaria de eleger. E quanto pior o desempenho de Flávio, maior o incentivo para contestar antecipadamente a legitimidade do processo, preparando a narrativa de fraude para o dia seguinte de uma derrota. É o roteiro de 8 de janeiro reescrito com sotaque americano.

O que o Brasil pode (e não pode) fazer


A resposta brasileira até aqui repete, com atualizações, o repertório que funcionou em 2025.  No plano doméstico, a Medida Provisória 1379 destinou R$ 18,5 bilhões em crédito subsidiado à terceira rodada do Plano Brasil Soberano, cobrindo capital de giro, investimento, adaptação de produtos e, ponto decisivo, prospecção de novos mercados. No plano multilateral, o Brasil formalizou pedido de consultas na OMC contra as duas tarifas. Com o Órgão de Apelação paralisado, o recurso é visto como simbólico, mas cumpre função dupla, marcando posição jurídica e construindo o dossiê de ilegalidade que pode ser mobilizado em outros foros.

Note-se o que o Brasil não fez: não acionou a Lei de Reciprocidade econômica. A prudência não é fraqueza neste caso. Os próprios setores atingidos pediram ao governo que não retaliasse, argumentando que a reciprocidade tarifária apenas tiraria o Brasil da mesa de negociação. A experiência recente ensina que retaliar não convence Trump de nada. Nessa arquitetura, a lei cumpre seu papel justamente enquanto não é usada. Seu valor está na credibilidade de barganha que empresta à diplomacia.

O espaço mais promissor de autonomia está mesmo na diversificação. Desde 2025, as empresas brasileiras aprenderam a buscar novos mercados, e o superávit recorde deste ano mostra que a lição foi absorvida. A diversificação pode deixar um legado positivo para o Brasil, desde que feita de forma ampla para evitar novas dependências, que passe pelo acordo Mercosul-União Europeia, pela integração regional possível e pela exigência de contrapartidas tecnológicas a qualquer parceiro, inclusive a China.

Tarifas e urnas seguirão entrelaçadas até outubro, com novas rodadas de pressão a cada gesto de desalinhamento de Brasília. Para o campo democrático brasileiro, a lição agora é tripla. É preciso negociar sem ilusões sobre a natureza política da pressão, sustentar a diversificação que já amortece o golpe comercial e blindar a eleição de outubro contra a profecia autocumprida da fraude. O Brasil já sobreviveu à Seção 301 três vezes. A diferença é que agora o alvo não é um setor da economia. É a posição do país na ordem internacional e a integridade da sua democracia.

 

*Filipe Mendonça é professor da Universidade Federal de Uberlândia (IERI/UFU), Fellow Researcher na Academy of International Affairs NRW (Bonn) e Honorary Research Fellow na City St George's, University of London. É também pesquisador associado do INCT-INEU.

 

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