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17 Out 2025| Nº. 178

Editorial

Esta semana, o ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira liderou uma delegação de alto nível a Washington com o objetivo de apaziguar as tensões comerciais com os Estados Unidos. Uma janela diplomática se abriu desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou brevemente com Donald Trump na Assembleia-Geral da ONU. Vieira e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, foram incumbidos por seus respectivos superiores de continuar a conversa. A missão brasileira se reuniu na tarde de quinta-feira com Rubio na Casa Branca – e não no Departamento de Estado – para argumentar contra as tarifas de 40% aplicadas às exportações brasileiras por razões políticas, além das tarifas de 10% aplicadas a muitos outros países. Vieira também pressionou o governo dos EUA a desfazer a aplicação punitiva de sanções contra autoridades brasileiras, principalmente contra o ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes, que supervisionou o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ainda não se sabe se essa última iniciativa diplomática produzirá resultados tangíveis, mas reflete o esforço contínuo de Lula para estabilizar o relacionamento com Washington, à medida que seu governo entra em uma fase politicamente sensível.

Essa sensibilidade é cada vez mais visível no Brasil, onde a equipe de Lula busca alinhar a máquina governamental em prol de sua candidatura à reeleição em 2026. O mesmo impulso de cerrar fileiras no exterior — para evitar tropeços que possam enfraquecer a posição do Brasil — agora molda a política em Brasília também, onde a coesão interna tornou-se uma prioridade estratégica. Em entrevista esta semana ao jornal O Globo, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, deixou claro que a continuidade dos empregos nos cargos da burocracia federal, cuja composição é definida pelo presidente, dependerá do apoio à agenda de Lula. De acordo com ela, o caminho natural é demitir aqueles que não estão comprometidos com a reeleição, o que sinaliza um endurecimento da disciplina política em ministérios e agências estatais.

Enquanto isso, com a intensificação dos preparativos para a COP30 em Belém no próximo mês, o Brasil se viu inesperadamente isolado na reunião pré-COP desta semana. O encontro deveria mostrar a liderança ambiental do país, mas foi marcado pelo silêncio dos parceiros europeus e pela ausência dos Estados Unidos. Com a atenção global dividida por crises em outros lugares, poucas grandes economias chegaram preparadas para assumir novos compromissos climáticos. Para Lula, que apostou parte de sua reputação global na revitalização da diplomacia verde do Brasil, o evento serviu como um lembrete de que a liderança simbólica agora precisa lidar com o caos geopolítico. A mudança de tom da Pré-COP ressaltou o desafio de sustentar o engajamento internacional, mesmo enquanto o Brasil busca se afirmar como a principal voz do Sul Global em questões de justiça climática e desenvolvimento sustentável.

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Destaques

  • Ameaça militar. O jornal americano The New York Times publicou reportagem na quarta-feira na qual afirma que o presidente dos EUA, Donald Trump, pediu à CIA que elabore um plano para remover do poder à força o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. No Brasil, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, disse que duvidar das ameaças de intervenção seria uma ingenuidade, mas que é preciso manter o otimismo e acreditar que essa pressão tenha por real objetivo forçar uma saída negociada.

  • Vaga aberta. Luís Roberto Barroso, um dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, apresentou seu pedido de aposentadoria nesta quarta-feira, dando ao presidente Lula a chance de indicar um substituto para a vaga aberta na mais alta instância judicial do país. O mais cotado até agora é o atual chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias. Além dele, outro nome citado é o do senador Rodrigo Pacheco, cuja eventual indicação seria bem recebida por um Congresso Nacional que vem vivendo diversos atritos com o Supremo. Por fora, movimentos sociais pressionam Lula a indicar uma ministra mulher, mas não há nenhuma sinalização do presidente nesse sentido até agora.

  • Evangélico conciliador. Messias é evangélico, o que abre possibilidade de interlocução com um setor da sociedade brasileira cada vez mais representativo, politizado e atuante na política brasileira. Ele mesmo se apresenta como um conciliador entre extremos – um atributo valorizado em momento de grande polarização, como a que o Brasil está vivendo. Se de fato for nomeado, Messias será o terceiro evangélico entre 172 indicados na história do Supremo. Além dele, haverá apenas mais um ministro em exercício, André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, também pertence a esse setor. 

  • Crise nos correios. Os Correios tiveram prejuízo de US$ 2,64 bilhões no segundo trimestre de 2025 e precisam de um socorro de US$ 20 bilhões em dois anos. A empresa é estatal, mas não depende de recursos do Tesouro Nacional. Portanto, seu prejuízo não se reflete nas contas públicas, em princípio. Ainda assim, o socorro dado pelo governo representa uma sobrecarga inesperada. Entre os fatores que ameaçam a vida financeira dos Correios está o fim do monopólio das remessas postais no Brasil e o déficit no sistema de aposentadoria de seus funcionários.

 

Notícias da ABO, das organizações e dos movimentos sociais

Curso LGBTQIA+. O Brazil Office e a AbGLt participam, nos dias 20 e 21 de outubro, no Insituto Rio Branco, em Brasília, o Seminário Internacional “Diálogos Internacionais LGBTQIA+”. Entre os temas abordados estarão os avanços e desafios das políticas LGBTQIA+ e o papel dos organismos internacionais na promoção de direitos LGBTQIA+, entre outros. Mais informações e inscrições no link.

Nomeação para o Supremo. A Iniciativa Nós — formada pelo Fórum Justiça, JUSTA e Themis — elaborou uma lista com sete mulheres que podem ser indicadas ao cargo de ministra do Supremo Tribunal Federal. “Não é por falta de excelentes nomes de mulheres que Lula deixará de indicar uma ministra para a Suprema Corte”, diz a campanha, que pode ser vista no link.

Desinformação política. O InternetLab e a Rede de Conhecimento Social (ReCos) publicaram este mês os resultados de uma pesquisa realizada em 19 países latino-americanos sobre a “desordem informacional” e seus impactos na política. De acordo com o estudo, cerca de 8 em cada 10 latino-americanos desconfiam de quase tudo devido à grande circulação de notícias falsas ou manipuladas. Leia mais.

Vladimir Herzog. Um grande grupo de organizações da sociedade civil promove no próximo dia 24 de outubro, em São Paulo, um grande ato em memória de Vladimir Herzog, assassinado há 50 anos pela ditadura militar. Um dia antes, no Rio de Janeiro, haverá um ato para homenagear todas as vítimas da repressão do regime que vigorou no país de 1964 a 1985. Saiba mais.

Reconhecimento. O Projeto Saúde e Alegria recebeu este o prêmio “Hors-Concours” do PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), dado a iniciativas de destaque nacional e trajetória consolidada. O Saúde e Alegria foi fundado por Caetano e Eugenio Scannavino, e, desde 1987, atua na Amazônia promovendo desenvolvimento comunitário integrado e sustentável. Saiba mais.

 

Artigo

Observatório sobre Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais – ODTI

Por Silvia Portela* e Antonio Megale**

Nas últimas cinco décadas, o mundo do trabalho vem enfrentando seguidas transformações em meio a um cenário global de profundas desigualdades e de destruição do meio ambiente, cujas consequências atingem principalmente os mais pobres. 

Nos anos 1970, a adoção do neoliberalismo como modelo de governo pelos países centrais afetou de forma significativa a regulação das relações de emprego em diferentes partes do mundo, começando pela Inglaterra e, depois, o restante da Europa. Na América Latina, o neoliberalismo se expandiu por meio dos regimes militares, a iniciar pelo Chile e Argentina. 

No Brasil, foi um pouco diferente e, tendo em vista a força do modelo econômico-industrial, o Estado foi fortalecido e a industrialização e a agroindústria se expandiram, gerando uma nova classe trabalhadora que teve força para criar um movimento sindical vigoroso e o Partido dos Trabalhadores (PT), que depois de 20 anos de existência, tinha força suficiente para disputar eleições nacionais. Essa foi, inclusive, a base de uma Constituinte democrática e social, que não só manteve o antigo modelo sindical corporativo, como ampliou a força da estrutura sindical.

Nos anos 1980 e 1990, o modelo neoliberal foi se expandindo no Brasil, facilitando a onda de privatizações e a redução do aparelho estatal. Esse processo conviveu com crises econômicas internacionais, tais como a da dívida externa, levando a períodos de aumento do desemprego. Também nesse período se intensificou a automação dos processos de trabalho, o que contribuiu para maior precarização das relações de trabalho.  

Esse quadro se agravou depois da “Reforma Trabalhista” promovida pelo Congresso em 2017, que promoveu um amplo recorte na CLT, fragilizando a proteção às trabalhadoras e aos trabalhadores e gerando grandes dificuldades para a negociação coletiva e a representação sindical.

Ao mesmo tempo, instrumentos normativos internacionais, como as convenções da Organização Internacional do Trabalho e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, vêm sendo reiteradamente desrespeitados ou apenas parcialmente internalizados nos marcos jurídicos nacionais.

No Brasil, temas como o trabalho para plataformas digitais, o trabalho doméstico – apesar da ratificação da Convenção nº 189 da OIT –, os limites da jornada de trabalho 6x1, direitos humanos e empresas seguem sendo exemplos de assimetrias entre os padrões internacionais e as práticas institucionais.

Para acompanhar esse processo e auxiliar os movimentos sociais, principalmente os sindicatos, o Instituto Lavoro e a Aliança Brazil Office decidiram criar um espaço de informação sobre avanços, retrocessos e denúncias relativos aos Direitos Fundamentais do Trabalho, chamado Observatório sobre Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais – ODTI.   

O ODTI tem como objetivo denunciar toda e qualquer violação dos direitos humanos e de qualquer forma de exploração social, além de contribuir para o fortalecimento de propostas e iniciativas que enfoquem temas como erradicação da pobreza, garantia da igualdade de oportunidades e redução de desigualdades, seja por meio de leis, políticas e ações adequadas para promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião e condição econômica.

O ODTI pretende divulgar e intercambiar leis e novas formas de contratação coletiva, bem como decisões judiciais e legislações que ajudem o desenvolvimento do direito do trabalho no Brasil e internacionalmente.

Seu principal instrumento será a divulgação sistemática, na sua página web, de informações, notícias e documentos, recolhidos em fontes nacionais e internacionais. 

O ODTI também pretende realizar seminários e reuniões com entidades sindicais e acadêmicas, visando ampliar o conhecimento de avanços e recuos obtidos no Brasil e internacionalmente, com foco principal nas Américas e Europa, além de incidir nos mecanismos internacionais, sobre o tema.

O Observatório é desenvolvido e atualizado pelo Instituto Lavoro e, assim como ocorre com os demais convênios existentes na Aliança Brazil Office, está à disposição de todas as entidades e organizações interessadas nos temas e poderá divulgar as denúncias, informes e anúncios das entidades integrantes relacionadas aos assuntos mencionados.

*Silvia Portela é socióloga, assessora sindical, vice-presidente do Conselho Superior da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e integrante do Instituto Lavoro

**Antonio Megale é advogado trabalhista e sindical, assessor sindical e integrante do Instituto Lavoro

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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