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22 Mai 2026| Nº. 206

Editorial

As eleições presidenciais de 2026 parecem entrar em uma nova fase no Brasil: a da disputa pelo controle do jogo. Mais do que a disputa tradicional entre governo e oposição, o cenário político começa a ser marcado por uma batalha simultânea pelo controle dos recursos financeiros, do ambiente digital e das regras institucionais que organizarão a próxima corrida eleitoral.

A continuidade do Caso Master aprofunda o desgaste da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e amplia a percepção de vulnerabilidade política no principal campo da oposição. A revelação do encontro pessoal entre o senador e o banqueiro preso Daniel Vorcaro, somada à recusa da Polícia Federal ao acordo de delação premiada e à saída do marqueteiro da campanha de Flávio Bolsonaro, sugere que a crise deixou de ser apenas reputacional para se transformar em um problema estratégico de sustentação política e eleitoral.

Ao mesmo tempo, o governo Lula decidiu avançar sobre outro terreno central da disputa contemporânea: o poder das plataformas digitais. A medida provisória voltada à regulação das big techs sinaliza que o Planalto pretende enfrentar preventivamente um dos principais fatores de instabilidade democrática observados nas eleições recentes no Brasil e no exterior: a circulação massiva de desinformação, campanhas digitais opacas e o crescente poder político das plataformas privadas.

Enquanto isso, o Congresso Nacional reforça sua própria autonomia como centro decisivo de poder ao derrubar vetos presidenciais e ampliar a liberação de verbas municipais em período eleitoral. O movimento fortalece estruturas locais de influência política e evidencia que a governabilidade futura dependerá cada vez mais da relação entre Presidência, Congresso e máquinas territoriais. A derrubada do veto indica que vai ser ainda mais difícil qualquer esforço por renovação política inclusiva.

 

Destaques

  • Convite à Casa Branca. Membros do PL (Partido Liberal) circularam na imprensa brasileira a informação de que Flávio Bolsonaro teria recebido um convite de Donald Trump para ir à Casa Branca. As negociações estariam sendo feitas através de Darren Beatie, conselheiro do Departamento de Estado. No dia 7 de maio, Trump recebeu Lula na Casa Branca. Se o presidente americano estender esse convite a Flávio agora, estará dando alento a uma campanha eleitoral que entrou em declínio após as revelações do Caso Master. Além disso, emprestará prestígio e visibilidade para o principal adversário de Lula na disputa pela Presidência.  

  • Articulação internacional. Flavio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal, pediu que a Câmara dos Deputados dê explicações sobre a visita que o deputado federal Mario Frias está fazendo ao Bahrein. Frias foi ministro da Cultura de Jair Bolsonaro e hoje é um dos idealizadores e promotores do filme “Dark Horse”. A produção cinematográfica busca promover a biografia de Bolsonaro, tratando-o como um herói nacional injustiçado. O pedido de explicações feito por Dino sinaliza a suspeita de que políticos do entorno da família Bolsonaro estejam usando seus mandatos políticos para arrecadar fundos para a superprodução cinematográfica no exterior.

  • Extradição. Outro ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ordenou que o Poder Executivo tome as providências necessárias para obter a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli, presa na Itália em maio do ano passado. Ela foi condenada no Brasil há dez anos de prisão por ter contratado um hacker para invadir os sistemas do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e a cinco anos e três meses por perseguir um militante político de esquerda pelas ruas de São Paulo, com uma arma na mão. Zambelli foi um dos grandes expoentes da extrema direita bolsonarista, e sua prisão representa um revés exemplar para o setor.

  • Caso Marielle. O Supremo Tribunal Federal tornou réus três policiais civis acusados de associação criminosa e obstrução da Justiça no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes, em março de 2018. Os delegados Rivaldo Barbosa de Araújo e Ginito Lages; além do comissário Marco Antônio de Barros Pinto, fazem parte do que a Justiça classificou como uma organização criminosa dentro da Polícia Civil do Rio de Janeiro.  

  • Inflação. As pessoas de baixa renda no Brasil sentiram uma aceleração de 0,92% na inflação no mês de abril, enquanto as famílias de renda mais alta sentiram aumento de apenas 0,24% no mesmo período. A diferença se dá porque a alta dos preços foi maior nos alimentos, medicamentos e energia elétrica – itens que têm peso maior da média do consumo das famílias de baixa renda. À medida que a faixa de renda vai aumentando, a parcela da renda familiar usada para a compra de alimentos, por exemplo, vai sendo menor.

 

Notícias da Aliança e das organizações parceiras

Europa. O Europe Brazil Office, membro da Aliança Brazil Office, deu posse ao seu Conselho Diretor na Europa, consolidando essa presença regional estratégica. A EBO, que tem à frente Paulo Lugon Arantes, baseado em Genebra, tece redes brasileiras e europeias para a consolidação da democracia, do Estado de direito, da igualdade, e da defesa do clima e do meio-ambiente. O Conselho é formado por Paulo Abrão, Maud Chirio, Monica Raisa Schpun, Antoine Acker, Clara Ramirez Barat, Juliana Santos Wahlgren, Gustavo Gayger Müller, Markus Kroeger, Priscila Fischer, e Ernesto Bohoslavsky.

Cerrado e Caatinga. Cerca de 50 lideranças indígenas, quilombolas, povos de matriz africana e comunidades tradicionais se reuniram na UFU, em Uberlândia (MG). O encontro busca fortalecer a presença do Cerrado nos debates internacionais sobre clima, direitos humanos e justiça socioambiental, a partir das vozes dos próprios territórios. Entre os convidados estiveram Javier Palummo, Relator Especial de Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DESCA) da CIDH/OEA, Rodrigo Deodato, responsável (desk) por Povos Indígenas no ACNUDH, e a deputada federal Dandara Tonantzin. Leia mais.

Apostas. O NOSSAS e o IEPS lançaram a campanha nacional Brasil Contra Bets para pressionar o Congresso Nacional por medidas que restrinjam a publicidade, propaganda e patrocínio das apostas online. A iniciativa surge diante do impacto crescente das bets na saúde mental, no endividamento e na vida de milhões de brasileiras e brasileiros. A campanha busca reunir organizações, coletivos e movimentos sociais de todo o país em uma mobilização conjunta por mais responsabilidade e proteção social diante da expansão das apostas online.

 

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Artigo

Eleições Presidenciais no Brasil: Características, Perspectivas e Implicações


Por Rafael R. Ioris*

O Brasil realizará dentro de poucos meses o que poderá se revelar uma das eleições mais importantes de sua história recente. Até a primeira semana de maio, as pesquisas indicavam um empate técnico entre o presidente em exercício, Luís Inácio Lula da Silva, e Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro e figura central no que pode se tornar um dos maiores escândalos de corrupção financeira do país. 

Revelações recentes de que Flávio manteve relações íntimas contínuas com o agora desacreditado e recentemente preso dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, parece ter, pelo menos por ora, inclinado a balança a favor de Lula. Mas, como os ventos turbulentos que atualmente impulsionam as forças democráticas no poder no país podem eventualmente soprar na direção oposta, é importante compreender os elementos da polarização estrutural que ajudaram a definir a política brasileira durante grande parte da última década.

Primeiramente, uma das características mais marcantes do cenário político brasileiro atual é a persistência da extrema direita, em grande parte sob a bandeira do bolsonarismo, o amplo, frequentemente fragmentado, mas não menos eficaz movimento político fomentado e liderado por Jair Bolsonaro desde 2016. De fato, os bolsonaristas, apoiadores de Bolsonaro, detêm a maior base nas duas casas do parlamento brasileiro, com influência e apoio consistentes em diversos segmentos das esferas política, econômica e ideológica do país. Isso inclui amplos setores do Judiciário federal e regional, além do Ministérios Público; das assembleias estaduais e câmaras municipais, bem como a maioria dos poderosos conglomerados de mídia e uma vasta gama de associações profissionais e empresariais.

Lula tem lutado para manter índices de aprovação acima de 50%, desde seu retorno à presidência, em janeiro de 2023, que se deu após uma disputa acirrada contra Jair Bolsonaro – que provavelmente só foi vencida por Lula devido à sua gestão caótica de Bolsonaro da crise da Covid-19. 

Para agravar os desafios do atual presidente, o Tribunal Superior Eleitoral, responsável pelas eleições no Brasil, será presidido por dois ministros do Supremo Tribunal Federal que foram indicados por Bolsonaro. O histórico de votações desses dois ministros demonstra uma clara disposição para apoiar a agenda política do bolsonarismo. 

Tentando manter o otimismo em meio a sinais cada vez mais preocupantes, a campanha de Lula acredita que os índices de aprovação de Flávio irão piorar quando ele se tornar o principal alvo de uma campanha focada em expor os múltiplos casos de corrupção envolvendo a família Bolsonaro. Essa possibilidade, no entanto, parece um tanto otimista, visto que a maioria dos apoiadores de Flávio, pelo menos até as revelações sobre o Caso Master, tinha conhecimento de tudo isso, mas, mesmo assim, preferia a volta de Bolsonaro ao poder a conceder a Lula mais um mandato presidencial.

Por outro lado, muitos brasileiros têm buscado um candidato sem os sobrenomes Silva ou Bolsonaro. Isso é particularmente verdadeiro entre os eleitores de direita, que preferem alguém alinhado com as posições defendidas pelo bolsonarismo, mas sem as ligações da família com diversos casos de corrupção, como propinas e vínculos com milícias no estado do Rio de Janeiro e, agora, o escândalo revelado do Banco Master. 

Alguns eleitores mencionam o atual governador do poderoso estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que acaba de declarar sua candidatura à reeleição ao governo do estado. A decisão dele foi anunciada depois que Jair Bolsonaro deixou claro que preferia tentar manter o controle do país dentro da família Bolsonaro. Houve até especulações de que Jair poderia apoiar a própria esposa, Michelle, mas, no fim, sua misoginia, ou pelo menos seus instintos paternos, provaram ser mais fortes.

Outros nomes propostos para uma terceira via incluíam Romeu Zema, governador do importante estado de Minas Gerais, e até mesmo Ronaldo Caiado, um latifundiário de direita e ex-governador do estado de Goiás, o coração pulsante do poderoso setor do agronegócio. Caiado foi recentemente anunciado como candidato também pela direita, na chapa do PSD, partido político cada vez mais influente; e certamente apoiará Flávio em um segundo turno, caso nem Lula nem Bolsonaro alcancem os 50% dos votos necessários para evitar um segundo turno. 

O apoio a uma alternativa a Lula também é forte entre os partidos do chamado Centro, que na verdade é um grupo de partidos de direita e forças políticas afiliadas. É nesse grupo que Caiado espera encontrar apoio significativo, principalmente entre as elites empresariais, em especial as ligadas ao agronegócio, cada vez mais influente e hoje o verdadeiro motor da economia brasileira.

Para entender a força persistente das correntes de direita no Brasil, é importante lembrar que a história política do país é marcada muito mais por líderes e por posições conservadoras do que progressistas. De fato, embora Lula tenha conseguido se eleger três vezes, isso só aconteceu após três tentativas frustradas e em circunstâncias muito específicas: em 2002, quando o país enfrentava uma grave crise econômica; em sua reeleição em 2006, quando o país vivenciava um claro boom econômico; e em 2022, após a crise da Covid-19. Além disso, parece cada vez mais evidente que a atual composição socioideológica e religiosa da sociedade brasileira cria um cenário preocupante para a tentativa de reeleição de Lula, bem como para a política progressista em geral.

O Brasil, de fato, possui uma população mais velha e com maior nível de escolaridade, mas também mais religiosa e conservadora, e que tem se mostrado mais atraída pela narrativa neoliberal do empreendedorismo e das políticas de mercado, o que tende a favorecer a direita, inclusive sua vertente extremista liderada pelo clã Bolsonaro. Além disso, o problema da violência, particularmente nos grandes centros urbanos do país, historicamente e ainda hoje prejudica a esquerda, e a narrativa anticorrupção tende a ser especialmente problemática para a esquerda, mesmo que a família Bolsonaro e seus associados estejam envolvidos em diversos escândalos de corrupção ao longo dos anos. Assim, embora os resultados da eleição brasileira de 2026 permaneçam incertos, ainda existe a possibilidade de que o próximo presidente do Brasil volte a ter o sobrenome Bolsonaro. Embora isso represente uma grande mudança em relação ao que o país vem tentando alcançar em termos de inclusão social e independência econômica nos últimos três anos e meio, as implicações desse resultado claramente ultrapassam as fronteiras nacionais.

A dimensão internacional da eleição está se tornando cada vez mais evidente não apenas por sua relevância regional, mas também pelo potencial impacto global de suas escolhas em questões estratégicas como minerais críticos, mudanças climáticas, regulamentação de plataformas digitais, modelos de desenvolvimento de inteligência artificial e infraestrutura para o comércio global. 

Para as relações Brasil-Estados Unidos, especificamente, a perspectiva de curto prazo é de grande complexidade e incerteza. E dependendo de quem for o próximo presidente do Brasil, o rumo das relações bilaterais poderá ser bem diferente. Alguns acreditam que o retorno do clã Bolsonaro ao poder facilitaria as relações com os EUA sob a presidência de Trump.

Essa percepção se baseia nos laços ideológicos estreitos entre as famílias Trump e Bolsonaro. Mas é preciso dizer que pouco foi conquistado em termos de novas parcerias e programas entre os dois países durante os anos em que Trump e Jair coincidiram como presidentes de seus respectivos países. Por outro lado, embora muitos apostassem que Lula e Trump não conseguiriam trabalhar juntos, a boa interação entre eles surpreendeu a maioria, e as tarifas prometidas contra as exportações brasileiras para os EUA praticamente não surtiram efeito.

Persistem, no entanto, preocupações, principalmente em relação a questões sensíveis como as ações prometidas pelos EUA contra a plataforma de pagamentos independente brasileira Pix, as reservas de terras raras e a legislação regulatória sobre as grandes empresas de tecnologia americanas. Além disso, manter boas relações com os EUA nos turbulentos cenários doméstico e internacional atuais provavelmente implicará que o Brasil assuma um perfil mais discreto na arena global, particularmente como representante do Sul Global e, mais importante, como ator-chave no BRICS+. Da mesma forma, para apaziguar Trump, os fortes laços econômicos do Brasil com a China provavelmente precisarão ser reestruturados.

Em suma, o Brasil provavelmente vivenciará uma eleição histórica. Seu resultado ajudará a remodelar o rumo das políticas internas e externas do país nos próximos anos. Dado o papel cada vez mais relevante que o Brasil desempenha no mundo, isso torna esta uma das eleições mais importantes do ano em todo o mundo.

 

*Rafael R. Ioris é professor da Universidade de Denver e pesquisador associado do WBO.

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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