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24 Jul 2026| Nº. 214

Editorial

A disputa em torno da integridade das eleições brasileiras voltou ao centro da agenda internacional. As declarações do senador Flávio Bolsonaro, que questionou novamente o sistema de urnas eletrônicas e defendeu maior pressão internacional sobre as instituições brasileiras, ocorreram na mesma semana em que uma ampla missão da sociedade civil brasileira esteve em Washington para defender a integridade do processo eleitoral, a autonomia das instituições democráticas e o princípio da não interferência estrangeira nas eleições nacionais.

Esses dois movimentos ilustram estratégias distintas de internacionalização da política brasileira. De um lado, lideranças da oposição buscam sensibilizar atores políticos norte-americanos para críticas dirigidas ao sistema eleitoral e ao funcionamento das instituições brasileiras. De outro, organizações da sociedade civil procuram fortalecer o reconhecimento internacional da legitimidade das instituições democráticas do país e defender que eventuais divergências políticas sejam resolvidas exclusivamente por meio dos mecanismos previstos pela Constituição brasileira.

O contraste evidencia uma transformação importante da disputa política nacional. A relação entre Brasil e Estados Unidos deixou de envolver apenas temas tradicionais de comércio, segurança ou política externa e passou a incorporar debates sobre democracia, soberania, eleições e Estado de Direito. O cenário internacional tornou-se um espaço adicional de disputa por legitimidade política.

Ao mesmo tempo, o retorno das críticas ao sistema eleitoral demonstra que a confiança nas instituições continuará sendo um dos principais temas da eleição presidencial de 2026. A experiência das últimas eleições indica que a disputa não se limitará à competição entre candidaturas, mas também envolverá narrativas sobre a credibilidade do processo eleitoral e das instituições responsáveis por garanti-lo.

Mais do que buscar apoio externo para projetos políticos distintos, os diferentes atores passaram a disputar, também no cenário internacional, a narrativa sobre a qualidade da democracia brasileira e sobre a legitimidade de suas instituições. São estratégias com legitimidades bem diferentes e o artigo que segue logo abaixo neste boletim aprofunda esse tema. 

 

Destaques

  • Candidaturas. A semana está marcada pelo lançamento oficial das candidaturas à Presidência da República no Brasil. Os dois principais concorrentes são Lula, que busca a reeleição para um quarto mandato, e Flávio Bolsonaro, que busca herdar o espólio do pai, o ex-presidente Jair, que está preso por tentativa frustrada de golpe de Estado. Lula tem uma aliança sólida à esquerda, que deve lhe garantir o maior tempo de propagando eleitoral de rádio e TV. Flávio, embora tenha boas intenções de voto nas pesquisas, ainda é questionado pela própria ultradireita. Dois partidos políticos importante nesse setor, o PP e o União Brasil, se recusam a fazer aliança com ele, o que lhe tira tempo na televisão e acesso a palanques regionais importantes. No campo conservador, o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é o único que aparece à frente de Lula nas simulações de 2º turno.

  • Pesquisas eleitorais. Institutos de pesquisa vivem momento de tensão com a Justiça Eleitoral por causa da tentativa do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, de impor novas regras para o setor. Marques foi indicado para o Supremo Tribunal Federal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e assumiu cargo rotativo à frente do TSE justamente no período da eleição presidencial. Ele chegou a proibir a publicação de uma pesquisa desfavorável a Flavio Bolsonaro. Depois, propôs criar um ranking dos institutos com base em seus erros e acertos. Os institutos argumentaram que não preveem o futuro, só fazem um retrato do momento. Por fim, Marques quer obrigar agora os institutos a publicarem informações detalhadas sobre quais cidades e bairros pretendem abordar em suas pesquisas.       

  • Corrupção. O escândalo do Banco Master continua produzindo notícias negativas à esquerda e à direita. O campo do presidente Lula teve de lidar esta semana com os avanços da investigação da Polícia Federal sobre o envolvimento do senador Jacques Wagner, do PT da Bahia, com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro. Wagner, que era braço direito de Lula no Congresso, foi intimado a depor sobre transações envolvendo imóveis e terrenos, além de uma grande soma de dinheiro vivo encontrada na casa dele. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tenta explicar o fato de que sua empresa emitiu notas fiscais de prestação de serviços para firmas ligadas a Vorcaro e ao Master. Do lado de Flávio, pesa ainda a publicação de conversas nas quais ele jura amizade a Vorcaro. O banqueiro repassou milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Suspeitasse que esse dinheiro tenha financiado o lobby da família Bolsonaro junto ao governo Trump, nos EUA.

  • Tarifaço. O governo Lula anunciou que vai destinar R$ 18,5 bilhões para ajudar os setores da econômica afetados pela taxação de 25% imposta pelos Estados Unidos ao Brasil. Estima-se que as medidas adotadas por Trump prejudiquem 18% do total de exportações brasileiras ao mercado norte-americano. A manutenção dessa ajuda, batizada de programa Brasil Soberano, tende a pressionar ainda mais o já sobrecarregado orçamento público. O cenário pode piorar ainda mais, caso Trump cumpra a ameaça de impor ainda mais 12,5% de impostos aos produtos brasileiros, sob a justificativa de punir o desmatamento e o uso de mão de obra análoga à escravidão. A política de taxação é associada, no entanto, ao lobby que a família Bolsonaro faz há meses nos Estados Unidos, para que Trump castigue o Brasil. A ideia dele era que a opinião pública se virasse contra Lula. Mas, na prática, essa estratégia arriscada acabou dando a Lula a primazia da defesa da soberania brasileira.

 

Notícias da Aliança e das organizações parceiras

Comitiva 1. Uma comitiva formada por representantes de 15 organizações da sociedade civil brasileira realizou entre os dias 20 de 24 de julho uma intensa agenda de encontros com diplomatas de diversos países, além de senadores e deputados americanos e suas equipes de assessoria parlamentar, sindicalistas, jornalistas, acadêmicos e líderes da sociedade civil local, em Washington e Nova York, para expressar seu ponto de vista sobre temas como democracia, soberania e regulação das big tech.

Comitiva 2. O grupo manteve encontros com diplomatas da Embaixada do Brasil em Washington, com representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. No Congresso, as reuniões aconteceram com os deputados democratas Mark Pocan, Joaquin Castro, Chuy García e Jonathan Jackson e com as assessorias parlamentares dos deputados democratas Jim McGovern, Sydney Kamlager-Dove, Tim Kaine e Peter Welsh, além de representantes republicanos. A agenda com sociedade civil local incluiu reuniões com representantes da AFL-CIO e a realização de um evento público, na Heinrich Böll Foundation, sobre o impacto dos data centers no meio ambiente e das redes sociais na democracia, e outro, a respeito dos efeitos da polarização política no Brasil e o papel da sociedade civil nas eleições. Saiba mais sobre a comitiva.

Segurança Pública. O Fórum Brasileiro de Segurança publicou esta semana seu anuário, que mostra queda de 8,4% nas mortes violentas intencionais, alcançando o menor nível da série histórica iniciada em 2012. Por outro lado, o estudo detectou aumento do feminicídio e da letalidade policial. Estelionato e golpes digitais se consolidaram como o principal crime patrimonial do Brasil, com mais de 2,2 milhões de casos registrados e um crescimento de quase 430% desde 2018. Saiba mais.

Povos indígenas. Lideranças indígenas se reuniram em Brasília esta semana para cobrar do presidente Lula a criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade, uma iniciativa que busca investigar as violações cometidas pelo Estado contra os povos originários e avançar na reparação histórica. O encontro marcou mais um passo na luta pelo reconhecimento da verdade, pela responsabilização e pela garantia de que essas violações não se repitam. Saiba mais.

 

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Artigo

Quando é legítimo e legal pedir apoio aos Estados Unidos e ao mundo

Por  Paulo Abrão*

O lobby que a ultradireita brasileira vem realizando nos Estados Unidos, nos últimos meses, em favor da imposição de tarifas e de outras sanções contra o Brasil e contra autoridades brasileiras, com finalidade de obter benefícios político-eleitorais internos, é ilegal. Igualmente ilegal é conspirar internacionalmente contra o funcionamento regular das instituições democráticas do próprio país.

Sempre que essa ilegalidade é apontada, porém, os expoentes desse campo político recorrem a uma falsa equivalência para tentar justificar sua conduta. De forma deliberadamente enganosa, comparam o lobby que hoje promovem em Washington com as interlocuções públicas e transparentes estabelecidas, às vésperas das eleições presidenciais de 2022, entre representantes da sociedade civil brasileira e autoridades do governo Joe Biden, bem como com interlocutores europeus e latino-americanos. A intenção é evidente: diluir a gravidade de seus próprios atos fazendo parecer que ambas as iniciativas possuem a mesma natureza. Não possuem.

A ilegalidade da atuação internacional da extrema-direita brasileira está sintetizada na sentença proferida pelo Supremo Tribunal Federal em 16 de junho de 2026 que condenou os responsáveis  pelo crime de coação no curso de processo judicial justamente porque, segundo reconheceu o Tribunal, buscou mobilizar o governo norte-americano para adotar medidas econômicas e diplomáticas contra autoridades do Poder Judiciário brasileiro com o objetivo de constrangê-las e impedir o livre exercício de suas funções constitucionais.

Nada disso guarda qualquer semelhança com as interlocuções realizadas em 2022.

Naquele momento, diante do risco concreto de ruptura democrática, representantes da sociedade civil brasileira dialogaram com autoridades dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina para solicitar algo extremamente simples: que reafirmassem seu compromisso com a integridade do sistema eleitoral brasileiro e reconhecessem prontamente o resultado das eleições, qualquer que fosse o vencedor.

Jamais se pediu que governos estrangeiros adotassem sanções, interferissem no processo político interno ou praticassem qualquer medida de pressão ilegal contra autoridades brasileiras. O pedido limitava-se ao que constitui uma prática ordinária das relações internacionais entre democracias: reconhecer o resultado de eleições livres, transparentes e legítimas.

A própria simplicidade desse pedido revela a gravidade do momento vivido pelo Brasil. Havia fundadas razões para temer uma tentativa de ruptura institucional, receio que, infelizmente, revelou-se justificado pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 e pelas investigações e condenações posteriores de civis e militares envolvidos em planos destinados a impedir a posse do presidente legitimamente eleito.

A diferença entre as duas situações, portanto, não é apenas política; é jurídica e ética.

De um lado, busca-se enfraquecer instituições democráticas mediante pressões internacionais dirigidas contra autoridades nacionais, utilizando instrumentos econômicos e diplomáticos para interferir no funcionamento do Estado brasileiro. De outro, buscou-se fortalecer o Estado Democrático de Direito mediante o incentivo ao respeito às regras constitucionais e ao reconhecimento internacional de um processo eleitoral legítimo.

Em um caso, pretende-se instrumentalizar o poder internacional para constranger instituições democráticas. No outro, procura-se fortalecer a ordem jurídica internacional fundada na defesa da democracia, dos direitos humanos e do respeito ao resultado das eleições.

Essa distinção também decorre da profunda transformação ocorrida nas relações internacionais nas últimas décadas.

Durante muito tempo predominou a concepção segundo a qual apenas os Estados produziam o Direito Internacional, negociavam tratados e conduziam a diplomacia. A sociedade civil permanecia praticamente excluída desse espaço.

Essa realidade mudou profundamente.

Hoje, organizações da sociedade civil participam da negociação de tratados internacionais, apresentam casos perante tribunais internacionais, monitoram o cumprimento de convenções, influenciam políticas públicas globais, produzem indicadores utilizados pelas Nações Unidas, dialogam diretamente com bancos multilaterais de desenvolvimento, participam das Conferências do Clima, integram grupos de trabalho do G20 e desempenham papel decisivo na evolução do Direito Internacional contemporâneo.

A sociedade civil tornou-se um ator estrutural da governança global. Sua participação deixou de ser excepcional para tornar-se elemento indispensável da legitimidade, da implementação e do controle do Direito Internacional.

É exatamente nesse contexto que se insere a atuação da Aliança Brazil Office.

Há anos trabalhamos para construir e preservar canais permanentes de interlocução internacional, seja nos Estados Unidos, por meio do Washington Brazil Office, seja na Europa, por meio do Europa Brazil Office. Foi assim em 2022, quando organizamos missões da sociedade civil brasileira a Washington e Bruxelas para dialogar com autoridades, parlamentares e organizações internacionais sobre os riscos enfrentados pela democracia brasileira. E continua sendo assim nas diversas iniciativas que realizamos em defesa da democracia, dos direitos humanos, do meio ambiente, dos povos indígenas, dos sindicatos, dos povos e comunidades tradicionais, do movimento negro, das comunidades LGBTQIA+, da liberdade de expressão e da liberdade artística.

Em momentos históricos de maior tensão democrática, a sociedade civil tem não apenas o direito, mas a responsabilidade de fazer ouvir sua voz além das fronteiras nacionais. Foi assim em 2022 diante da ameaça interna à democracia brasileira. É assim novamente em 2026, quando pressões externas são mobilizadas para fragilizar as instituições do país. Em ambos os casos, a atuação internacional busca proteger, e não atacar, a ordem constitucional brasileira.

A interlocução internacional, seja com os Estados Unidos, seja com qualquer outro país, não pode ser criminalizada em si mesma. Tampouco constitui prerrogativa exclusiva de governos, diplomatas, empresários ou partidos políticos.

Em uma democracia, toda organização da sociedade civil tem o direito de construir pontes internacionais de diálogo e cooperação.

O critério que distingue a legitimidade da ilegalidade não é a existência dessas pontes, mas aquilo que por elas transita.

Quando o objetivo é fortalecer a democracia, proteger os direitos humanos e defender o Estado de Direito, a atuação internacional é não apenas legítima: ela constitui uma das expressões mais nobres da cidadania global contemporânea.

Quando, ao contrário, essas mesmas pontes são utilizadas para constranger instituições nacionais, promover sanções contra o próprio país ou buscar vantagens político-eleitorais mediante pressões estrangeiras, deixa-se o terreno da cooperação democrática para ingressar no campo da ilegalidade e da ilegitimidade.

 

*Paulo Abrão é o Diretor Executivo do WBO (Washington Brazil Office). Foi Secretário Nacional de Justiça do Brasil. Também atuou como Secretário Executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos e como Diretor do Instituto de Direitos Humanos do Mercosul. Foi pesquisador visitante no Instituto Watson de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade Brown.

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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