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Washington Brazil Office

14 Fev 2025| Nº. 154

Editorial

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou na quinta um novo conjunto de tarifas sobre o etanol brasileiro, visando uma taxa de importação de 18% em retaliação às tarifas de exportação mais altas que o Brasil impõe ao etanol dos EUA. Isso faz parte da estratégia mais ampla do novo presidente americano de impor o que ele chama de tarifas “justas e recíprocas”, projetadas para igualar as tarifas que outros países impõem sobre produtos dos EUA. A nova medida foi anunciada após a taxação de importação de aço e alumínio brasileiros. Embora as tarifas sejam aplicadas gradualmente, Trump expressou disposição de negociar com os países se eles estiverem dispostos a reduzir suas próprias tarifas. Este anúncio levantou preocupações no Brasil, que esperava evitar tais tarifas devido ao seu superávit comercial com os Estados Unidos. Em resposta, o ministro das Finanças, Fernando Haddad, afirmou que “não há muitos motivos para temer”, pois a balança comercial favorece os EUA, que importa mais do Brasil do que exporta. Ele acrescentou que o governo brasileiro está revisando as tarifas e acredita que há espaço para negociação e possíveis ajustes. Por fim, Haddad enfatizou a importância de garantir a reciprocidade nas relações comerciais com os EUA.

Na mesma quinta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com os recém-eleitos lideres da Câmara dos Deputados e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, na Granja do Torto. A reunião, que não estava na agenda oficial do presidente, incluiu discussões sobre a provável reorganização do gabinete de Lula. As conversas também abordaram preocupações de membros do Congresso sobre tensões com o Executivo, particularmente em relação ao impasse sobre emendas orçamentárias, que estão sob o escrutínio ferrenho do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino.

Esta também foi uma semana em que os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro renovaram suas esperanças de impunidade, com a visita ao Brasil do relator para liberdade de expressão na CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos). Durante a visita, Pedro Vaca pediu um diálogo calmo e construtivo em resposta às demandas dos aliados de Bolsonaro, que estão pressionando por um escrutínio internacional do Judiciário brasileiro. A extrema direita argumenta que as responsabilizações pela insurreição de 8 de janeiro, em Brasília, constituem abusos autoritários. Bolsonaro e seus apoiadores continuam comprometidos em reverter sua inelegibilidade para que ele possa concorrer novamente em 2026. Essa estratégia envolve acumular pressão internacional sobre o governo brasileiro, um movimento que eles esperam que o governo Trump também abrace com força.

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Destaques

  • Morte de JK. A Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, órgão independente, que mantém ligação técnica e administrativa com o Ministério dos Direitos Humanos, decidiu reabrir investigações sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitsckeh, ocorrida em 1976. JK, como era conhecido, morreu num acidente de carro, quando viajava ao Rio de Janeiro. Laudos oficiais falam de uma colisão frontal do carro de JK contra um caminhão que vinha na direção contrária. O choque teria sido provocado pelo abalroamento do carro, provocado por um ônibus de passageiros. Existe a suspeita, no entanto, de que o carro de JK tenha apresentado defeitos mecânicos, provocados por sabotagem. A Comissão havia sido extinta no mandato de Bolsonaro, mas foi recriada no governo Lula.

  • Civis e militares. O ministro da Defesa, José Mucio, disse nesta semana em entrevista a um programa de televisão chamado Roda Viva, que, quando ele assumiu o cargo, nomeado pelo presidente Lula, teve de telefonar para Jair Bolsonaro e pedir que ex-presidente convencesse os comandantes das Forças Armadas a recebê-lo. A declaração de Múcio causou espanto por revelar que um membro de uma área sensível do novo governo recorreu a um ex-presidente que, sabe-se com clareza agora, estava envolvido numa trama golpista. Além disso, mostrou o desprestígio do ministro e a resistência dos militares em submeter-se ao poder civil eleito naquele momento. Múcio anunciou recentemente que pretendia renunciar ao cargo, para dedicar-se à família, mas foi convencido por Lula a permanecer.

  • Combustíveis fósseis. O presidente Lula disse nesta semana que as ponderações ambientais que desaconselham as pesquisas sobre exploração de petróleo na Margem Equatorial, na Foz do Amazonas, são uma “lenga-lenga”. Ele criticou particularmente o Ibama, que é o órgão responsável pelo licenciamento ambiental: “parece um órgão que trabalha contra o governo.” As declarações, que vão na contramão dos compromissos de redução do uso de combustíveis fósseis, chocaram movimentos sociais e indígenas ligados à questão ambiental, sobretudo por terem sido feitas meses antes de o Brasil sediar a Cop30.

  • Inflação. A inflação desacelerou em janeiro, apontam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 0,16% em relação a dezembro, levemente abaixo da mediana da expectativa de economistas de mercado (0,17%). Esta é a menor marca para um mês de janeiro desde o início do Plano Real, em 1994.

 

Notícias das organizações e dos movimentos sociais

Questão migratória. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos divulgou nesta semana uma nota na qual “expressa sua preocupação pelas políticas e medidas migratórias e de asilo adotadas recentemente por meio de ordens executivas nos Estados Unidos”. A instituição se diz preocupada com “o impacto nos direitos humanos das pessoas na mobilidade humana” e insta o governo Trump a “priorizar os direitos humanos em suas políticas e práticas migratórias e de asilo”. A nota da Comissão coincide com posição defendida pelo WBO em pronunciamento público e num abaixo assinado dirigido às autoridades do Brasil e dos EUA.

Governos progressistas. O INP (Instituto Novos Paradigmas) promove no dia 27 de fevereiro um debate chamado “O papel dos governos progressistas: A experiência de frente ampla e progressismo no Uruguai e a integração na América do Sul”, com a participação de Paulo Abrão, diretor-executivo do WBO, além de Tarso Genro, Pedro Abramovay, José Dirceu e muitos outros convidados. Mais informações no link.

Políticas para a Aids. Os cortes orçamentários americanos vão impactar negativamente diversos programas brasileiros dirigidos à questão da Aids, de acordo com nota divulgada pela Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), pelo GTPI (Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual) e pela Anaids (Articulação Nacional de Luta contra a Aids). Leio comunicado no link.

RPU em Genebra. Fernanda Lapa, co-fundadora do IDDH (Instituto de Desenvolvimento de Direitos Humanos), foi eleita membro do Conselho-Executivo da RPU Info na Suíça. A sigla RPU em português e UPR em inglês se refere à Revisão Periódica Universal, um processo periódico de análise e debate a respeito das questões de direitos humanos nos países membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Em nota, o IDDH disse que a atuação de Fernanda Lapa “será fundamental para aumentar a efetividade do mecanismo da RPU, promovendo maior participação social e inclusão nos processos de revisão”. Clique no link para mais informações. 

Nova newsletter. O Instituto Sou da Paz lançou nesta semana uma nova newsletter para informar os leitores sobre os últimos acontecimentos no campo da segurança pública no Brasil e a atuação da organização. A primeira edição destaca artigo escrito por Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, no site Poder 360, no qual ela fala das expectativas e desejos em relação à segurança pública em 2025. Clique no link para ler o artigo.    

Nova filiada. O Instituto Lavoro tornou-se nesta semana a 74ª organização filiada ao WBO. A novidade deve ampliar e fortalecer o alcance e a efetividade das ações internacionais do instituto que foi fundado desenvolver e difundir estudos científicos relacionados a temas das relações de trabalho em um contexto transdisciplinar. Clique no link para conhecer mais sobre o trabalho do Lavoro.

 

Artigo

De Washington a Belém: Diplomacia Parlamentar em Defesa do Clima, da Democracia e do Multilateralismo

Por Maiara Folly*


Entre os dias 4 e 6 de dezembro de 2024, uma comitiva de parlamentares brasileiros progressistas esteve em Washington para uma série de reuniões estratégicas com congressistas estadunidenses e outros atores-chave, incluindo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o Departamento de Estado, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Cepal (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

O objetivo? Reforçar o compromisso entre Brasil e Estados Unidos na defesa da democracia, na promoção da ação climática e no desenvolvimento sustentável, em contraponto aos retrocessos nessas áreas, intensificados com a eleição de Donald Trump.

A iniciativa, liderada pela Plataforma CIPÓ, pelo WBO (Washington Brazil Office) e pela SRI (Secretaria de Relações Institucionais) da Presidência da República, contou com o apoio da Fundação Heinrich Böll e do ICS (Instituto Clima e Sociedade). Essa missão fez parte de um esforço mais amplo para fortalecer a diplomacia parlamentar como um instrumento de cooperação internacional no enfrentamento de desafios globais, incluindo a crise climática e as ameaças à democracia e ao multilateralismo.

A viagem ocorreu em um contexto desafiador. Os resultados decepcionantes da COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão, aliados ao crescimento de governos que se opõem à cooperação internacional em prol da sustentabilidade —evidenciado por ações como o abandono do Acordo de Paris —comprometem a capacidade global de avançar em transições verdes justas e de conter o aquecimento do planeta dentro do limite de 1,5ºC.

Paralelamente, o avanço de discursos antidemocráticos e a crescente articulação de atores de extrema-direita — exemplificada pela mobilização expressiva de parlamentares brasileiros ao redor da posse de Donald Trump — evidenciam a necessidade urgente de intensificar os canais de diálogo e a cooperação entre Brasil e EUA, especialmente entre atores-chave comprometidos com a defesa da democracia, dos direitos humanos e da preservação do meio ambiente.

No primeiro mandato de Donald Trump, além do Congresso, a mobilização de atores subnacionais —incluindo governadores e prefeitos de estados com grande influência econômica e política, como a Califórnia e Chicago — desempenhou um papel relevante na promoção de esforços para alinhar setores econômicos a uma economia de baixo carbono. Esses atores também foram fundamentais para preservar algumas políticas de proteção aos direitos humanos e de acolhimento a migrantes, constantemente ameaçadas pela administração federal.

No Brasil, uma articulação semelhante foi observada durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), resultando na criação e no fortalecimento de alianças estratégicas, como o Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal e o Consórcio Brasil Verde, atualmente liderado pelo governo do Estado do Espírito Santo. Além disso, organizações como a Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente (ABEMA) ganharam protagonismo, consolidando-se como atores-chave na coordenação de políticas ambientais e climáticas em nível subnacional.

Nos Estados Unidos, o governo Trump 2.0 impõe desafios ainda maiores, com repercussões tanto internas quanto globais. Nos primeiros dias após sua posse, em 20 de janeiro de 2025, sua administração emitiu dezenas de decretos executivos com medidas drásticas, incluindo a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e da Organização Mundial da Saúde (OMS), além da suspensão abrupta de grande parte da assistência internacional norte-americana. Essas ações impactam diretamente iniciativas voltadas para o alívio a desastres, auxílio a refugiados, programas de saúde e combate à pobreza.

Embora algumas dessas medidas tenham sido bloqueadas, ao menos temporariamente, por tribunais — muitas delas em decorrência de ações legais movidas por parlamentares democratas —, a conjuntura reforça a necessidade de redobrar a articulação entre forças progressistas. Afinal, esses desafios não se restringem aos Estados Unidos. A extrema-direita continua se fortalecendo em países como Brasil e Argentina, além de expandir sua influência na Europa e em outras democracias ao redor do mundo.

Diante desse cenário, a missão parlamentar buscou fomentar articulações estratégicas e iniciar um diálogo para fazer da COP30 um palco de mobilização do campo democrático internacional. Líderes políticos de destaque nos Estados Unidos, como o senador Bernie Sanders, foram convidados pelos parlamentares brasileiros — Arlindo Chinaglia (PT-SP), Célia Xakriabá (PSOL-MG), Dandara (PT-MG) e Túlio Gadelha (Rede-PE) — para comparecer a Belém durante a Conferência da ONU sobre o clima.

Além disso, a missão dialogou com interlocutores norte-americanos sobre propostas concretas com potencial para serem lançadas na COP30, incluindo:

  • Encontro Global de Bancadas Negras nos Parlamentos, para fortalecer a coordenação de políticas voltadas ao enfrentamento dos impactos desproporcionais das mudanças climáticas sobre populações negras e outros grupos historicamente marginalizados.

  • Projetos para garantir a reciclagem de resíduos sólidos gerados durante a COP30, diferenciando a edição de Belém das anteriores, que foram marcadas por uma pegada de carbono considerável.

  • Encontros globais de savanas, como o Cerrado brasileiro, um bioma crucial para o equilíbrio hídrico e climático, mas que ainda recebe pouca atenção internacional e sofre com desmatamento e degradação acelerada em diferentes partes do mundo.

 

Os fracos resultados das últimas edições das COPs têm levantado dúvidas sobre a capacidade do sistema multilateral de enfrentar o desafio existencial imposto pelas mudanças climáticas. Em um ambiente de crescente desconfiança entre o Norte e o Sul Global, a obtenção de resultados concretos, na velocidade e ambição que a crise climática exige, demandará grande habilidade diplomática por parte da presidência brasileira da COP30.

Nesse contexto, a diplomacia parlamentar pode desempenhar um papel importante ao permitir que parlamentares atuem de forma coordenada para incentivar negociadores de seus respectivos países a assumirem compromissos mais ambiciosos do que os observados em anos anteriores.

A missão em Washington representou um passo estratégico nesse processo, abrindo caminho para que os Estados Unidos, uma potência global, estejam representados na COP30 não apenas por meio de seu Executivo — que atualmente rejeita a agenda climática —, mas também por meio de seu Parlamento e de outros atores comprometidos com a sustentabilidade.

O sucesso desse esforço dependerá, ainda, da liderança de outros países. As nações desenvolvidas precisarão demonstrar compromisso com a provisão do financiamento climático, enquanto os países em desenvolvimento terão o desafio de se coordenar como um grupo negociador coeso e construtivo. Transformar a COP30 em um marco da relevância do multilateralismo e de sua capacidade de adaptação a uma ordem global multipolar será fundamental para garantir a sobrevida do regime climático global.
Além disso, reforçará, de maneira concreta, que a cooperação internacional — incluindo a diplomacia parlamentar — é um instrumento indispensável para uma resposta justa, eficaz e sustentável à crise climática.

*Maiara Folly, diretora-executiva e cofundadora da Plataforma CIPÓ

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições do WBO ou dos editores do boletim

 
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