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08 Mai 2026| Nº. 204

Editorial

A visita do presidente Lula a Donald Trump, em Washington, nesta quinta-feira, repercutiu positivamente no Brasil. Ela ocorre em um momento particularmente delicado da política internacional e da própria democracia brasileira. O presidente brasileiro busca reposicionar o país em meio às novas disputas geopolíticas, às pressões comerciais e à crescente fragmentação da ordem internacional. Ao mesmo tempo em que Lula procura reafirmar o papel estratégico do Brasil em temas como democracia, energia (especialmente minerais críticos), tarifas comerciais e segurança, o encontro também produz inevitáveis repercussões internas, sobretudo diante da polarização política brasileira e da influência que o trumpismo segue exercendo sobre setores da extrema direita no país. Após a reunião, o presidente Trump utilizou suas plataformas sociais para se referir a Lula como “um presidente muito dinâmico” e afirmou que “o encontro ocorreu muito bem”, anunciando ainda que “novos encontros serão programados nos próximos meses, se necessário”.

No plano doméstico, a operação deflagrada pela Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, no âmbito das investigações de corrupção relacionadas ao Caso Banco Master, adiciona um novo elemento de instabilidade ao cenário pré-eleitoral de 2026. Ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro e um dos principais articuladores do campo conservador no Congresso, Ciro vinha sendo apontado como possível candidato a vice-presidente em uma chapa liderada por Flávio Bolsonaro. O avanço das investigações amplia a pressão sobre setores da oposição e reacende o debate sobre os limites entre poder político, financiamento eleitoral, influência econômica e responsabilização institucional no Brasil contemporâneo.

Os acontecimentos desta semana reforçam como política doméstica e relações internacionais estão hoje profundamente interligadas no Brasil. Em paralelo às disputas eleitorais antecipadas, seguem em aberto debates decisivos sobre governabilidade, fortalecimento institucional, segurança pública, direitos humanos e proteção ambiental. O país se aproxima das eleições presidenciais de 2026 sob crescente atenção internacional, não apenas pelo peso de sua economia e de seus recursos estratégicos, mas também pelo impacto que os rumos da democracia brasileira poderão produzir sobre toda a região.

 

Destaques

  • Golpistas. O Supremo Tribunal Federal deve começar a analisar em breve as mudanças propostas pelo Congresso Nacional na lei que trata das penas impostas aos participantes na tentativa frustrada de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. O chamado Projeto de Lei da Dosimetria foi impulsionado por parlamentares de oposição para aliviar as penas impostas aos golpistas. Lula vetou o Projeto, mas o Congresso derrubou o veto. A tendência agora é que o Supremo evite um confronto aberto com os parlamentares, reconhecendo o direito que eles têm de legislar sobre tempo de cumprimento de penas previstas em leis. O PT, partido de Lula, questiona a constitucionalidade da medida.

  • Governabilidade. Lula está tentando reconstruir a relação com o presidente do Senado, David Alcolumbre, depois do desgaste provocado pelo veto à indicação de Jorge Messias para um vaga no Supremo Tribunal Federal. Alcolumbre trabalhou para vetar o indicado de Lula, provocando um desgaste considerável à imagem do presidente em ano eleitoral. Esta semana, Lula mandou dois ministros, o da Defesa e o das Relações Institucionais, se encontrarem com Alcolumbre, no que a imprensa noticia como sendo o bastidor de um movimento de reaproximação. 

  • Crime organizado. O Brasil relembrou esta semana o aniversário de 20 anos da maior onda de ataques realizados pela facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) no estado de São Paulo. À época, mais de 560 pessoas foram mortas em ações coordenadas pelo grupo que teve origem nos anos 1990 e, desde então, expandiu suas ações para dentro dos presídios e para setores importantes da economia nacional. Hoje, o PCC está no centro das discussões entre o Brasil e os EUA, por causa da decisão do governo Trump de classificar o grupo, juntamente com o CV (Comando Vermelho), como organizações terroristas internacionais.   

  • Petróleo. Estados brasileiros estão brigando pela distribuição dos royalties da exploração do petróleo. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal, que deve decidir sobre a validade de uma norma aprovada pelo Congresso em 2012 que diminuiu o valor repassado aos estados produtores, redistribuindo valores também aos estados não produtores. Em ano eleitoral, o debate ganha importância, com políticos tentando levar os méritos por aumentar o orçamento de seus estados e municípios.

 

Notícias das organizações da Aliança Brazil Office

Lula-Trump. Em artigo inédito e exclusivo, Paulo Abrão, diretor-executivo do WBO, analisa os aspectos políticos, econômicos, eleitorais e securitários que rodeiam o encontro entre os presidentes Lula e Trump, em Washington. Para ele, a reunião tem como pano de fundo o fato inegável de que o Brasil ocupa uma posição relevante e incontornável na política internacional, como uma potência do Sul Global estratégica em temas de meio ambiente, direitos humanos, democracia e recursos naturais. Leia aqui.

Cerrado e Caatinga. O território Kalunga, na Chapada dos Veadeiros (GO), entra em um marco histórico com o início do tombamento pelo IPHAN como patrimônio cultural do Brasil. O reconhecimento envolve cerca de 8 mil pessoas em 39 comunidades, o maior quilombo do país, e busca proteger território, modos de vida, saberes ancestrais e a memória do Cerrado. Além disso, o território está em uma das áreas mais sensíveis do bioma, sob forte pressão do agronegócio, do turismo intensivo e da grilagem de terras. Nesse cenário, a proteção do Kalunga também se afirma como estratégia de conservação ambiental e de defesa dos direitos dos povos e comunidades tradicionais (PCTs), fundamentais para a preservação da biodiversidade do Cerrado. Embora represente avanço no reconhecimento cultural e territorial, a titulação definitiva das terras ainda não foi concluída, mantendo uma dívida histórica do Estado brasileiro.

Belo Monte. Organizações da sociedade civil que atuam na defesa de direitos humanos e socioambientais publicaram esta semana uma carta aberta chamada Belo Monte: dez anos de operação, mais de uma década de danos sem reparação. O documento apresenta um balanço crítico dos dez anos desde o início das operações da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, e aponta a persistência de violações sem reparação adequada. O documento é assinado por Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (AIDA); Conselho Indigenista Missionário (CIMI); Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB); Diocese de Altamira; Justiça Global; Movimento Xingu Vivo Para Sempre; Observatório dos Povos Indígenas Isolados (OPI); e Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH). Leia mais. 

Mulher negra. A rejeição do nome de Jorge Messias, que havia sido indicado por Lula para uma vaga no Supremo, abriu espaço para que o presidente atenda à demanda da sociedade civil pela indicação de uma mulher negra para o posto. Um dos grupos que estão na vanguarda desse movimento é o Mulheres Negras Decidem, que argumenta que a indicação de uma mulher negra para o posto “não é gesto simbólico. É resposta política. É a justiça que o Brasil precisa. É a possibilidade real de redefinir o futuro”. Leia mais.

 

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Artigo

As implicações do encontro Lula-Trump na política doméstica brasileira em ano eleitoral

Por Guilherme Casarões*

Em plena corrida presidencial e na esteira de amargas derrotas na relação com o Congresso, o presidente Lula reservou alguns dias em sua agenda de presidente e pré-candidato à reeleição para reunir-se com Donald Trump em Washington, na quinta-feira, dia 7 de maio.

Ao contrário das inúmeras agendas internacionais cumpridas por Lula ao longo do mandato, o encontro com Trump é menos sobre relações internacionais e mais sobre o quadro eleitoral que vem se desenhando nos últimos meses.

À primeira vista, trata-se de algo inusitado. Por décadas, uma máxima dominou a análise das eleições brasileiras: política externa não dá voto. De fato, pautas geopolíticas ou comerciais raramente entusiasmam o eleitorado mais amplo. Porém, algo começou a mudar já nas eleições de 2018, quando Jair Bolsonaro, apresentando-se como antipetista e antissistema, passou a mobilizar referências estrangeiras como motes de campanha.

“Se o PT ganhar, o Brasil vai virar a Venezuela” foi uma ideia potente, apesar de absolutamente falaciosa, que buscava associar a esquerda brasileira ao autoritarismo venezuelano, àquela época já responsável por uma crise humanitária, econômica e política do outro lado da fronteira.

O bolsonarismo não parou por aí. Prometeu aos eleitores evangélicos e judeus a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Mais que isso, o movimento construiu sua identidade a partir de uma associação existencial com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, então em seu primeiro mandato.

Arvorando-se ser o “Trump dos trópicos”, Bolsonaro prometeu uma guinada política radical caso fosse eleito. E se não conseguiu em seus quatro anos de mandato, não foi por falta de esforço, mas por um misto de incompetência generalizada e resistência social e institucional.

Oito anos mais tarde, a história se repete. Jair Bolsonaro está inelegível e preso, mas seu filho primogênito, Flávio, está em plena campanha pelo mundo. Em poucos meses, visitou El Salvador, Israel, Bahrein, França e foi pelo menos três vezes aos Estados Unidos – destinos óbvios para quem abertamente busca consolidar uma ampla aliança transnacional de extrema-direita.

Em uma das passagens pelos EUA, o senador participou da tradicional CPAC (Conservative Political Action Conference), um dos principais eventos ligados ao movimento trumpista. Na ocasião, prometeu, se eleito, reeditar o governo de seu pai, seja nas pautas conservadoras, seja na submissão aos interesses norte-americanos.

O mote da pré-campanha de Flávio é muito simples: somente um Bolsonaro poderá cooperar com a Casa Branca de Donald Trump – e somente a cooperação com os Estados Unidos poderá gerar prosperidade ao Brasil no longo prazo.

A viagem de Lula a Washington colocaria em prova essa narrativa. Por um lado, havia uma declarada “química” entre Trump e o petista desde o encontro de ambos na ONU, em setembro do ano passado. Por outro lado, as tensões bilaterais estavam longe de ser inteiramente superadas: mesmo depois de os EUA terem retrocedido nas tarifas e nas sanções a autoridades brasileiras, permanecem desencontros ligados a temas comerciais, financeiros e de segurança.

Ao reunir-se com Trump por três horas, a portas fechadas, Lula desmontou a narrativa bolsonarista – pelo menos por ora. A ausência da imprensa, a pedido da delegação brasileira, permitiu que a conversa fosse conduzida sem os riscos de um constrangimento público ou de sinalizações equivocadas.

O resultado, relatado por Trump em uma postagem em sua rede social e discutido longamente por Lula e seus ministros numa coletiva de imprensa posterior, foi positivo. Brasil e EUA não chegaram a nenhum acordo concreto, mas sinalizaram o desejo mútuo de mais cooperação e de encaminhamento dos contenciosos pela via diplomática.

Ficou claro que a política externa de Lula – que já havia provado sua resiliência ao longo do ano passado, no contexto dos inúmeros ataques da Casa Branca contra a economia e a democracia brasileiras – é capaz de proporcionar uma relação construtiva com a administração Trump.

Também ficou patente que a estratégia global de Lula, pragmática e universalista, não impede que o Brasil mantenha parcerias simultâneas com os Estados Unidos, com a China, com os BRICS e com a União Europeia.

Mas o resultado mais importante diz respeito ao cenário eleitoral, que hoje mostra um virtual empate entre Lula e seu principal rival. Além de neutralizar a narrativa da política externa bolsonarista, o encontro em Washington toca em questões domésticas centrais para a corrida presidencial.

Ao reafirmar a importância do comércio bilateral e o repúdio às tarifas, Lula e sua equipe sinalizaram a setores relevantes do agronegócio e do empresariado que dependem do mercado norte-americano.

Ao estimular a cooperação bilateral no combate ao crime organizado, o governo brasileiro demonstra estar sintonizado com a agenda de segurança pública, tratada pelos eleitores como prioridade absoluta – e frequentemente projetada pelo bolsonarismo como se fosse tema exclusivo da direita.

Ao propor a abertura o mercado brasileiro para mais investimentos norte-americanos, inclusive no campo dos minerais críticos, Lula demonstra que é possível cooperar em temas estratégicos sem abrir mão da soberania.

Embora um encontro dessa natureza dificilmente seja suficiente para mudar os ventos das eleições de outubro, Lula deu um passo importante. Num contexto político em que política interna e externa se confundem, a demonstração de pragmatismo diplomático anda lado a lado com a capacidade do governo em lidar com difíceis agendas domésticas.

Ao eleitor de centro, que ainda terá alguns meses para avaliar as candidaturas presidenciais, fica a mensagem: a defesa da soberania compensa – e é mais eficiente, sob qualquer perspectiva, que juras de submissão ideológica a interesses estrangeiros.

 

*Guilherme Casarões é professor Associado de Estudos Brasileiros da Florida International University. Coordenador do Observatório da Extrema Direita (OED) e fellow do WBO

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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