ArtigoAs relações entre Brasil e EUA, de alianças pragmáticas a alinhamentos programáticos Por Pedro Abramovay* Se alguém transcrever os debates entre Lula e Bolsonaro e entre Biden e Trump, traduzi-los para a mesma língua, e apagar a autoria das frases, será difícil, em muitos momentos, distinguir quando é Lula ou Biden e quando é Trump ou Bolsonaro que estão falando. A defesa das armas como solução para enfrentar o crime, taxar os super-ricos, o compromisso com a questão climática, o ataque ao processo eleitoral, a necessidade de uma política industrial verde, o negacionismo climático, o ataque às vacinas e medidas de lockdown na pandemia. Essas questões aparecem nos debates tanto no Brasil quanto nos EUA. E sabemos exatamente quem defende cada um desses pontos nos dois casos. Claro que talvez salte aos olhos, em primeiro lugar, uma questão de estilo. Comentários absolutamente chocantes, que pretendem exalar uma sinceridade que os diferencia do pântano da política (mesmo emergindo justamente de lá), fazem parte do estilo tanto de Trump quanto de Bolsonaro. O ataque às mulheres (seguem aqui duas lista de declarações ofensivas às mulheres feitas por Bolsonaro e Trump) como forma de reforçar, por meio da masculinidade tóxica, a imagem de homem forte que ambos cultivam também. Por parte de Biden e Lula, o estilo também pode os aproximar. Políticos mais velhos, experientes, que procuram colocar em linguagem simples os temas que importam às pessoas. A proximidade com os trabalhadores, e esse esforço de após anos tentando representar uma mudança na política, terem que jogar o papel de guardiões da estabilidade e da normalidade. A proximidade de estilos entre presidentes do Brasil e dos EUA pode não ser novidade. Mesmo que Bill Clinton tenha assumido logo depois de Fernando Collor, são famosas as fotos tanto de um quanto outro fazendo cooper de camiseta. E os discursos inspiradores de Obama e Lula reconectaram, em momentos próximos, seus cidadãos com a política. Mas é natural que presidentes possam representar o espírito do tempo. Assim, não há nada de muito espantoso que estilos ou formas de comunicação sejam parecidos nos EUA ou no Brasil. O que impressiona no momento atual – e que defenderei aqui, é algo absolutamente único na história contemporânea de Brasil e EUA – é o enorme alinhamento programático entre democratas e a centro-esquerda brasileira e Republicanos e a extrema-direta bolsonarista. A relação entre Brasil e Estados Unidos sempre foi amplamente marcada pelo pragmatismo. O que defendo, neste artigo, é que estamos saindo da possibilidade de alianças pragmáticas para alianças programáticas. E isso pode ter consequências profundas – com riscos e oportunidades- para a relação dos países. O pragmatismo, natural, na relação entre EUA e Brasil, nunca foi espelhado em um verdadeiro alinhamento do cenário político dos dois países. Ou seja, essa ideia de que os dois polos da política americana fossem tão similares aos dois polos da política brasileira, como vemos hoje, não ocorreu em momentos anteriores dessa relação. Ao menos, desde o século passado. Quando Getúlio, após alguns anos de hesitação, se alinha claramente com os EUA de Roosevelt (a célebre foto dos dois líderes em Natal em 1943 marca esse momento) apesar de algumas semelhanças entre o New Deal e desenvolvimentismo varguista, a aliança que aparecia ali era claramente pragmática, vinculada à Guerra e o que os EUA poderiam oferecer ao Brasil para se juntar ao aliados. Nem Vargas ou Roosevelt queriam governar seus países da mesma forma e, muito menos, as oposições a cada um deles tinham qualquer semelhança entre si. O pragmatismo da relação, sem qualquer paralelismo programático entre os polos da política, certamente se arrasta aos paralelos com Truman, Eisenhower e Dutra, Getúlio e Juscelino Kubitscheck. Aliás, os grandes americanófilos do período no Brasil eram os quase sempre opositores da UDN. A divergência programática talvez atinja o seu pico ao longo dos anos 1960, mesmo com pressões e agitações similares vindas da sociedade civil. O que era bom para os EUA (democracia, ampliação dos direitos civis e a “guerra contra a pobreza”) claramente não se refletia na política dos EUA para o Brasil. E é sob a presidência democrata (que levava adiante as pautas citadas) que os EUA, hoje sabemos, apoiam de maneira decisiva o Golpe Militar em 1964 que derruba o presidente João Goulart, certamente mais afinado com esses sentimentos do que os golpistas que o retiraram do poder com apoio americano. Durante todo o período da ditadura militar, a aliança pragmática segue e aí, mais claramente do que nunca sem qualquer interesse de alinhamento programático. Muito pouco do que os generais queriam para o Brasil poderia ser pensado como um programa de governo nos EUA. Leia a continuação do artigo no site do WBO.
|