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31 Jul 2026| Nº. 215

Editorial

Com o avanço das convenções nacionais, a eleição presidencial brasileira entra em uma nova etapa. O foco da disputa desloca-se gradualmente da definição das candidaturas para a consolidação das alianças estaduais, onde será decidida boa parte da capacidade de mobilização política dos principais concorrentes.

As decisões tomadas pelos partidos ao longo dos últimos dias mostram que o cenário eleitoral permanece fragmentado. MDB, União Brasil, PP e outras legendas têm adotado estratégias flexíveis no plano nacional, concedendo maior autonomia às suas lideranças estaduais para compor alianças conforme a realidade política de cada estado. O resultado é um mapa eleitoral cada vez mais descentralizado, no qual as disputas locais passam a exercer influência crescente sobre a dinâmica presidencial.

As primeiras pesquisas divulgadas após a abertura oficial das convenções reforçam essa percepção. Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, o governador Tarcísio de Freitas mantém vantagem confortável na disputa, enquanto a corrida presidencial apresenta um cenário mais competitivo entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, levantamentos recentes em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará e outros estados revelam configurações bastante distintas, indicando que dificilmente haverá uma dinâmica eleitoral uniforme em todo o território nacional.

Esse processo também produz efeitos sobre as próprias candidaturas presidenciais. As dificuldades enfrentadas por Flávio Bolsonaro para consolidar alianças em estados estratégicos, as movimentações de lideranças como Ronaldo Caiado para ampliar seu espaço no campo da direita e a opção de partidos de centro por posições de neutralidade ou maior flexibilidade demonstram que a disputa nacional dependerá, cada vez mais, da capacidade de coordenação das coalizões estaduais. Ao mesmo tempo, o governo busca preservar sua vantagem em importantes redutos eleitorais, consciente de que pequenas oscilações em estados decisivos, como Minas Gerais e Bahia, poderão alterar significativamente o resultado nacional.

A campanha presidencial de 2026 começa, assim, a assumir uma característica histórica da política brasileira: a Presidência da República é disputada nacionalmente, mas construída estado por estado. Mais do que uma única corrida presidencial, o país assiste à formação simultânea de diversos tabuleiros regionais, cujas alianças, candidaturas e dinâmicas próprias tendem a definir o equilíbrio político que emergirá das urnas em outubro.

 

Destaques

  • Diplomacia 1. Brasil e Argentina chegaram ao ponto mais baixo em seus mais de 200 anos de relações bilaterais esta semana, depois que o presidente Javier Milei ter chamado o presidente Lula de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca”. As declarações foram feitas em discurso nas convenções partidárias que confirmaram a escolha de Flávio Bolsonaro como candidato do PL à Presidência. Em resposta, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília a dar explicações e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires.

  • Diplomacia 2. O Ministério das Relações Exteriores do Paraguai chamou o embaixador do Brasil em Assunção para prestar esclarecimentos sobre uma declaração feita pelo presidente Lula esta semana a respeito da guerra entre os dois países, em 1864. Lula citou a Guerra do Paraguai de passagem, para exemplificar como, no passado, problemas entre países acabaram se degringolando em guerras duradouras. O tema é sensível em Assunção, que trata o conflito como o fato negativo mais marcante de sua história, atribuindo ao Brasil todo o ônus pela guerra. Assim como a Argentina, o Paraguai também é governado por uma direita que busca ampliar sua prevalência, assumindo os governos da região.

  • Eleições 1. O Brasil negou visto a dois funcionários americanos que seriam enviados por Donald Trump para fomentar desconfiança no sistema brasileiro de urnas eletrônicas. Em seguida, democratas que fazem parte do Comitê de Relações Exteriores do Senado americano publicaram mensagem na rede social X, acusando o próprio governo de “propagar teorias conspiratórias” sobre as eleições brasileiras. O país também negou autorização para que uma ONG espanhola credenciasse observadores próprios. A organização é ligada à extrema direita internacional. Ambos fatos demonstram como as missões de observação se tornarão um dos pontos focais da disputa deste ano.

  • Eleições 2. O ministro Alexandre de Moraes pediu explicações a Jair Bolsonaro sobre o uso de uma mensagem criada por Inteligência Artificial na qual o ex-presidente aparece endossando a campanha do filho, Flávio Bolsonaro. O vídeo foi exibido publicamente na cerimônia de lançamento da candidatura, em São Paulo. Jair está proibido de publicar mensagens na internet por si mesmo e por terceiros. A violação dessa proibição pode leva-lo de volta à cadeia, em regime fechado. Por isso, ele negou que tivesse conhecimento do vídeo. Com isso, a campanha de Flávio passou a ser questionada pelo uso de deepfake, que é proibida pela Justiça Eleitoral, seja em matérias de crítica a opositores, seja em materiais a favor da própria campanha. O assunto deve ser analisado pela Justiça Eleitoral.

  • Endividamento. No Brasil, 28,5% da renda das famílias esteve comprometida com dívidas atrasadas a pagar no mês maio. Esse é o maior patamar da série histórica do indicador, coletado pelo Banco Central desde março de 2011. O endividamento e a inadimplência atingem 49,8% da população brasileira. Para mitigar esse problema, o governo vem reeditando programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola. Mais de R$ 22 bilhões já foram alocados ao programa até 23 de julho.

  • Investigação. O filho do presidente Lula tornou-se alvo de um pedido de abertura de inquérito feito pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal. O empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, teria se envolvido em crimes de corrupção e tráfico de influência em um caso ligado à comercialização de cannabis medicinal, no contexto de programas ligados ao Ministério da Saúde. O filho do presidente já vinha lidando com desgaste político provocado pela revelação de que ele teve despesas pagas por um pivô do escândalo de desvios de fundos da Previdência Social. O caso no Ministério da Saúde agrega ainda mais problemas para Lula, que está às portas do início de sua campanha à reeleição.

 

Notícias da Aliança e das organizações parceiras

Meios digitais. O Democracia em Xeque colocou no ar a edição 17 de seu relatório sobre as “narrativas políticas semanais em ambientes digitais e seus impactos para a integridade democrática no Brasil”. A publicação é uma referência importante para quem quer acompanhar a dinâmica da disputa política em curso no Brasil, no ambiente digital, e pode ser acessada nesse link.  

Cerrado e Caatinga. Um estudo publicado na revista Science Advances revelou que grandes aldeias pré-coloniais do Cerrado, com até 2 mil habitantes, eram sustentadas por sistemas agrícolas diversificados baseados no cultivo do milho. Liderada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e parceria de instituições brasileiras e internacionais, a pesquisa analisou restos humanos de 37 sítios arqueológicos e identificou práticas de policultura, irrigação e rotação de cultivos adaptadas ao bioma. Os resultados contestam a ideia de que essas populações dependiam principalmente da caça e da coleta ou de monoculturas e reforçam o elevado grau de conhecimento agrícola dos povos que habitavam o Cerrado antes da colonização. O estudo também amplia o reconhecimento de que a conservação do bioma está ligada à valorização dos conhecimentos tradicionais e dos modos históricos de manejo da terra. 

CIDH. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) divulgou a programação do seu 196º Período de Sessões, que será realizado presencialmente entre 3 e 7 de agosto, em Washington, com 30 audiências públicas sobre temas prioritários para a região. O Brasil será objeto de duas audiências temáticas: “Impactos das comunidades terapêuticas nos direitos humanos” e “Desigualdades estruturais no acesso à justiça”. A agenda também inclui audiências regionais sobre justiça ambiental, infraestrutura digital e prestação de contas de plataformas, instituições nacionais de direitos humanos e direitos de mulheres, meninas e pessoas LGBTIQ+, temas estratégicos para organizações da sociedade civil que atuam na defesa e promoção internacional em direitos humanos. 

 

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Artigo

Suas Excelências, os fatos, na crise do tarifaço

Por  Mauro Vieira*

Não se espera a unanimidade em regimes democráticos. Mas, diante do novo ataque tarifário dos Estados Unidos contra o Brasil, e suas confessadas motivações políticas desde a carta original do presidente Donald Trump, de julho de 2025, que continha claras ameaças à soberania e à democracia brasileiras e anunciava a abertura da investigação pela seção 301, recém-concluída, não cabem ambiguidades nem falsas equivalências.

O Brasil vem sendo atacado há mais de um ano, e o governo tem sabido defender o interesse nacional com diplomacia e pragmatismo, mas também com firmeza e clareza. E clareza é do que o país mais necessita diante do desafio histórico à soberania brasileira que se tenta impor, de fora para dentro, com ameaças, tarifas e bravatas.

A linha do tempo da atual ofensiva contra o Brasil não deixa margem a nenhuma dúvida quanto aos brasileiros que trabalharam contra o interesse nacional para obter a impunidade daqueles que fracassaram em uma tentativa de golpe de Estado. Esses brasileiros, liderados pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, continuam a trabalhar pela ingerência externa no Brasil. Como diria Ulysses Guimarães, se impõe aqui Sua Excelência, o fato. Não é questão de opinião a autoria dessas ameaças e do tarifaço, até porque seus autores a reivindicaram à época, em postagens e entrevistas.

Diante dos múltiplos desafios do último ano, o que mais o governo brasileiro tem feito é negociar. Essa disposição do Brasil é amplamente demonstrada pelos mais de 30 contatos e reuniões mantidos com Washington sobre tarifas, em especial ao longo da investigação da seção 301. Como o tarifaço original foi julgado ilegal pela Suprema Corte, o recurso à seção 301 da lei de comércio dos Estados Unidos, de 1974, foi a alternativa encontrada por Washington para manter ações unilaterais não somente contra o Brasil, mas também contra seus principais parceiros comerciais no mundo, como mostra a nova tarifa de 12,5% anunciada ontem.

No caso do Brasil, o primeiro atingido pelas sanções da 301, em nenhum momento a parte americana indicou abertura para uma negociação equilibrada, incluindo os casos mais gritantes de ingerência e de falsa argumentação, como o Pix e o desmatamento. O que se chegou a propor ao Brasil era uma espécie de rendição, que incluiria a abertura integral, e exclusiva aos Estados Unidos, de setores industriais brasileiros inteiros, sem qualquer contrapartida em matéria de abertura comercial. O setor privado brasileiro nunca aceitou uma capitulação nesses termos em qualquer negociação externa no passado, e jamais a aceitaria agora. O caso do etanol é emblemático: enquanto os Estados Unidos exigiam redução tarifária expressiva, não admitiam sequer discutir suas elevadas tarifas aplicadas ao açúcar brasileiro, superiores a 80%. Essa atitude americana segue um padrão, já observado com outros países recentemente, marcado por ameaças e ações unilaterais.

Qualquer concessão unilateral e exclusiva a um determinado país é ilegal, à luz dos compromissos internacionais do Brasil na Organização Mundial do Comércio, e fatalmente seria também contestada na Justiça brasileira pelos setores afetados. Nos termos propostos pelos Estados Unidos, que tentamos reverter até o final, não se tratava de uma negociação, e sim da tentativa de imposição da lei do mais forte. E novamente com viés político, como ficou claro na agressiva postagem do secretário de Estado americano, na qual se arvorou o direito de dizer que ele sabe o que é melhor para os brasileiros e ainda atacou gratuitamente o presidente de um país amigo.

Continuamos dispostos a negociar, mas não seremos intimidados por novas ameaças e falsas alegações. Para que haja diálogo e resultados, cabe sempre lembrar, dependemos da disposição da outra parte em negociar. A diplomacia brasileira é conhecida pelo profissionalismo, e já teve êxito na ampliação das exceções ao tarifaço original. Vamos continuar a trabalhar na busca de soluções para uma crise cujos autores são brasileiros que operam abertamente contra o país e que desfrutam de proteção e apoio político de setores da extrema direita internacional. Diante dos prejuízos causados, não cabe omitir-se em relação aos promotores dessa ingerência. Afinal, o Brasil e os brasileiros estão pagando caro por essa irresponsabilidade.

 

Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil. Este artigo foi publicado originalmente na edição de jornal O Globo de 24 de julho de 2026, e gentilmente cedido pelo autor para ser reproduzido no boletim da Aliança Brazil Office.

 

Os artigos externos expressam a opinião de seus autores e não necessariamente refletem posições da ABO ou dos editores do boletim

 
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