As implicações do encontro Lula-Trump na política doméstica brasileira em ano eleitoral
Por Guilherme Casarões*
Em plena corrida presidencial e na esteira de amargas derrotas na relação com o Congresso, o presidente Lula reservou alguns dias em sua agenda de presidente e pré-candidato à reeleição para reunir-se com Donald Trump em Washington, na quinta-feira, dia 7 de maio.
Ao contrário das inúmeras agendas internacionais cumpridas por Lula ao longo do mandato, o encontro com Trump é menos sobre relações internacionais e mais sobre o quadro eleitoral que vem se desenhando nos últimos meses.
À primeira vista, trata-se de algo inusitado. Por décadas, uma máxima dominou a análise das eleições brasileiras: política externa não dá voto. De fato, pautas geopolíticas ou comerciais raramente entusiasmam o eleitorado mais amplo. Porém, algo começou a mudar já nas eleições de 2018, quando Jair Bolsonaro, apresentando-se como antipetista e antissistema, passou a mobilizar referências estrangeiras como motes de campanha.
“Se o PT ganhar, o Brasil vai virar a Venezuela” foi uma ideia potente, apesar de absolutamente falaciosa, que buscava associar a esquerda brasileira ao autoritarismo venezuelano, àquela época já responsável por uma crise humanitária, econômica e política do outro lado da fronteira.
O bolsonarismo não parou por aí. Prometeu aos eleitores evangélicos e judeus a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Mais que isso, o movimento construiu sua identidade a partir de uma associação existencial com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, então em seu primeiro mandato.
Arvorando-se ser o “Trump dos trópicos”, Bolsonaro prometeu uma guinada política radical caso fosse eleito. E se não conseguiu em seus quatro anos de mandato, não foi por falta de esforço, mas por um misto de incompetência generalizada e resistência social e institucional.
Oito anos mais tarde, a história se repete. Jair Bolsonaro está inelegível e preso, mas seu filho primogênito, Flávio, está em plena campanha pelo mundo. Em poucos meses, visitou El Salvador, Israel, Bahrein, França e foi pelo menos três vezes aos Estados Unidos – destinos óbvios para quem abertamente busca consolidar uma ampla aliança transnacional de extrema-direita.
Em uma das passagens pelos EUA, o senador participou da tradicional CPAC (Conservative Political Action Conference), um dos principais eventos ligados ao movimento trumpista. Na ocasião, prometeu, se eleito, reeditar o governo de seu pai, seja nas pautas conservadoras, seja na submissão aos interesses norte-americanos.
O mote da pré-campanha de Flávio é muito simples: somente um Bolsonaro poderá cooperar com a Casa Branca de Donald Trump – e somente a cooperação com os Estados Unidos poderá gerar prosperidade ao Brasil no longo prazo.
A viagem de Lula a Washington colocaria em prova essa narrativa. Por um lado, havia uma declarada “química” entre Trump e o petista desde o encontro de ambos na ONU, em setembro do ano passado. Por outro lado, as tensões bilaterais estavam longe de ser inteiramente superadas: mesmo depois de os EUA terem retrocedido nas tarifas e nas sanções a autoridades brasileiras, permanecem desencontros ligados a temas comerciais, financeiros e de segurança.
Ao reunir-se com Trump por três horas, a portas fechadas, Lula desmontou a narrativa bolsonarista – pelo menos por ora. A ausência da imprensa, a pedido da delegação brasileira, permitiu que a conversa fosse conduzida sem os riscos de um constrangimento público ou de sinalizações equivocadas.
O resultado, relatado por Trump em uma postagem em sua rede social e discutido longamente por Lula e seus ministros numa coletiva de imprensa posterior, foi positivo. Brasil e EUA não chegaram a nenhum acordo concreto, mas sinalizaram o desejo mútuo de mais cooperação e de encaminhamento dos contenciosos pela via diplomática.
Ficou claro que a política externa de Lula – que já havia provado sua resiliência ao longo do ano passado, no contexto dos inúmeros ataques da Casa Branca contra a economia e a democracia brasileiras – é capaz de proporcionar uma relação construtiva com a administração Trump.
Também ficou patente que a estratégia global de Lula, pragmática e universalista, não impede que o Brasil mantenha parcerias simultâneas com os Estados Unidos, com a China, com os BRICS e com a União Europeia.
Mas o resultado mais importante diz respeito ao cenário eleitoral, que hoje mostra um virtual empate entre Lula e seu principal rival. Além de neutralizar a narrativa da política externa bolsonarista, o encontro em Washington toca em questões domésticas centrais para a corrida presidencial.
Ao reafirmar a importância do comércio bilateral e o repúdio às tarifas, Lula e sua equipe sinalizaram a setores relevantes do agronegócio e do empresariado que dependem do mercado norte-americano.
Ao estimular a cooperação bilateral no combate ao crime organizado, o governo brasileiro demonstra estar sintonizado com a agenda de segurança pública, tratada pelos eleitores como prioridade absoluta – e frequentemente projetada pelo bolsonarismo como se fosse tema exclusivo da direita.
Ao propor a abertura o mercado brasileiro para mais investimentos norte-americanos, inclusive no campo dos minerais críticos, Lula demonstra que é possível cooperar em temas estratégicos sem abrir mão da soberania.
Embora um encontro dessa natureza dificilmente seja suficiente para mudar os ventos das eleições de outubro, Lula deu um passo importante. Num contexto político em que política interna e externa se confundem, a demonstração de pragmatismo diplomático anda lado a lado com a capacidade do governo em lidar com difíceis agendas domésticas.
Ao eleitor de centro, que ainda terá alguns meses para avaliar as candidaturas presidenciais, fica a mensagem: a defesa da soberania compensa – e é mais eficiente, sob qualquer perspectiva, que juras de submissão ideológica a interesses estrangeiros.
*Guilherme Casarões é professor Associado de Estudos Brasileiros da Florida International University. Coordenador do Observatório da Extrema Direita (OED) e fellow do WBO