Interferências internacionais nas eleições de 2026: o que esperar
Por Pedro Telles*
Líderes autoritários ao redor do mundo desenvolveram nos últimos anos um repertório sofisticado de interferências em processos políticos e eleitorais de outros países. Tudo indica que esse repertório será usado no Brasil este ano, e precisamos entender como esse ele funciona para nos preparar para o que pode vir.
A partir de uma extensa análise de casos observados em diversas partes do mundo, elaborei um mapeamento de riscos que compartilho aqui.
O foco está em intervenções vindo dos EUA porque o envolvimento de Trump e seus aliados parece muito mais provável do que o de outros atores internacionais no Brasil em 2026, algo que discuto em mais detalhes adiante. Mas o manual que Trump segue bebe diretamente da fonte de figuras como Putin, Orbán e Xi Jinping.
O manual de Trump
Trump redefiniu a política externa americana com uma abordagem fortemente ideológica e transacional, mesclando o avanço de agendas da extrema-direita com a busca por ganhos políticos e econômicos pessoais. Faz uso constante de endossos, ferramentas econômicas, ameaças militares e pressão institucional para influenciar outros países. É um ator por vezes difícil de prever, mas cujas interferências seguem um padrão que permite o desenho de cenários.
Ao analisar como Trump e outros líderes autoritários operam, é possível categorizar suas interferências em oito tipos:
Endosso a ideias, propostas, políticas e práticas de aliados
Em 2016, Trump celebrou o Brexit como uma “grande vitória” do povo inglês para o povo retomar o controle de seu país
Em 2017, reconheceu Jerusalém como capital de Israel, oferecendo vitória diplomática histórica a Netanyahu em momento político crítico
Em 2026, saiu em apoio a políticas anti-imigração de Orbán na Hungria, às vésperas de eleições em que o húngaro está fragilizado
Oposição a ideias, propostas, políticas e práticas de antagonistas
Em 2017, Trump criticou duramente Angela Merkel por suas políticas pró-imigração
Desde 2020, vem conduzindo campanha agressiva contra a Corte Penal Internacional, incluindo ordens executivas com sanções financeiras a juízes, para interromper investigações sobre condutas dos EUA e aliados
Em 2025, ameaçou deixar acordos comerciais com o México expirarem para pressionar o governo de Claudia Sheinbaum a mudar de postura em questões de migração e segurança
Endosso a políticos e partidos aliados
Em 2019, Trump endossou publicamente Boris Johnson na corrida para Primeiro-Ministro britânico, com sucesso
Em 2025, criticou duramente o sistema de justiça francês pela condenação que tirou Marine Le Pen da corrida eleitoral
Em 2026, endossou publicamente Sanae Takaichi na corrida para Primeira-Ministra do Japão, com sucesso
Oposição a políticos e partidos antagonistas
Em 2019, Trump reconheceu Guaidó como presidente interino da Venezuela e convocou aliados a fazer o mesmo, em oposição a Maduro
Também em 2019, pressionou Zelenskyy a investigar Biden e seu filho em troca de seguir adiante com um apoio militar já aprovado pelo Congresso americano, em um interessante caso no qual fez uso de uma interferência internacional para atacar um adversário doméstico
Apoio financeiro a políticos e partidos aliados
Em 2025, Trump passou a pagar Bukele para deportar prisioneiros para El Salvador
Também em 2025, ofereceu apoio financeiro para estabilização do peso argentino vinculado explicitamente à vitória de Milei nas eleições de meio de mandato
Ameaças e ataques financeiros a políticos e partidos antagonistas
Em 2025, Trump impôs sanções contra ministros do STF no Brasil como retaliação por investigações contra Bolsonaro
Também 2025, aplicou altas tarifas contra México e Canadá com o objetivo explícito de forçar mudanças em leis domésticas e desestabilizar governos progressistas
Ainda em 2025, penalizou a Índia com altas tarifas pela compra de petróleo russo e pela autonomia estratégica de Modi
Ameaças e ataques militares a políticos e partidos antagonistas
Em 2026, Trump conduziu incursão militar direta na Venezuela para captura e extradição de Maduro, culminação de uma campanha de pressão máxima e embargo econômico total, com o objetivo de se apropriar do petróleo venezuelado e garantir alinhamento do governo do país com os EUA
Desde a incursão na Venezuela, vem ameaçando explicitamente incursão militar nos mesmos moldes contra outros países da região, como Cuba e Colômbia
Mobilização de parceiros para apoio a aliados
Em 2026, empresas de tecnologia alinhadas a Trump forneceram suporte ao Reform UK na Inglaterra para modernizar sua captação de recursos, inclusive via criptomoedas.
Também em 2026, criou o chamado Conselho da Paz, um novo espaço multilateral sob seu comando que reúne aliados e líderes coniventes de forma que rivaliza com o mandato da ONU
É importante notar que as interferências de Trump frequentemente geram consequências graves para os governos e políticos a quem ele se opõe, mas costumam dar errado em duas situações: quando apresentam uma forte ameaça à soberania do país (ex.: Trump ameaçou anexar o Canadá e isso alavacou o candidato anti-Trump lá, garantindo sua vitória), e quando geram impacto bem direto e relevante na população ou no setor privado (ex.: países onde Trump implementou tarifas notavelmente acima da média adotada para o resto do mundo, como o próprio Brasil). Essas são situações que permitem ao governante impactado se apresentar com facilidade como defensor do povo e do interesse nacional.
O que é mais provável no Brasil
A possibilidade de interferência nas eleições brasileiras não é mais hipotética — nos primeiros dias de março, tivemos quatro acontecimentos muito significativos:
Trump anunciou que classificará o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, abrindo caminho para uma possível intervenção militar
Trump enviará seu assessor Darren Beattie para se encontrar com Bolsonaro
Milei ofereceu asilo político a um brasileiro condenado pela tentativa de golpe em 2022
Kast convidou Flávio Bolsonaro para sua posse, o que levou Lula a cancelar seu comparecimento.
Tudo isso aconteceu logo depois que Trump reuniu Milei, Kast e outros na sua cúpula “Escudo das Américas”.
Olhando para o repertório descrito acima e para o que já está acontecendo, quatro tipos de interferência parecem ser os mais prováveis.
O primeiro é o endosso explícito e direto a candidatos da extrema-direita. Dado o histórico de Trump com Johnson, Takaichi, Le Pen, Milei e Orbán, e considerando que Jair Bolsonaro é um aliado de longa data, um endosso público a seu filho Flávio é um cenário bastante plausível. O envio de Darren Beattie para se encontrar com Bolsonaro já sinaliza essa direção.
O segundo é o apoio financeiro, provavelmente por meio de promessas de mudanças na cooperação econômica entre os dois países ou de doações mascaradas (dado que doações vindo de entidade ou governo estrangeiro são proibidas nas nossas eleições). O precedente argentino, onde o apoio financeiro foi vinculado explicitamente ao desempenho eleitoral de Milei, mostra que Trump não tem pudor de usar recursos econômicos como ferramenta eleitoral.
O terceiro são ameaças veladas de intervenção militar no caso de uma vitória de Lula, que parecem estar próximas. A classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas é, nesse sentido, um movimento de posicionamento: cria as condições para uma escalada futura, caso Trump considere conveniente. Não estamos falando necessariamente de uma intervenção militar direta, mas de um cenário em que ameaças implícitas passam a fazer parte do cálculo eleitoral — algo que não precisa se concretizar para ser efetivo.
O quarto é a mobilização de especialistas estrangeiros para apoio estratégico e operacional a aliados. Profissionais de campanha, consultores de comunicação digital e operadores políticos alinhados à rede internacional de Trump podem ser acionados para fortalecer candidaturas da extrema-direita brasileira, o que já vimos acontecer em outros países.
É importante notar que esses tipos de interferência provavelmente não virão apenas dos EUA, mas também de outros países da região. Milei e Kast já estão agindo: os acontecimentos da primeira semana de março mostram uma coordenação entre atores latinoamericanos alinhados a Trump que vai além de gestos simbólicos. Figuras como Musk e Steve Bannon também são atores relevantes nesse ecossistema, com histórico de atuação internacional.
Os padrões por trás das ações
Três padrões merecem atenção especial para antecipar cenários no Brasil.
O primeiro é a clara orientação transacional de Trump. Ele raramente apoia alguém apenas por alinhamento ideológico — o benefício político ou econômico para ele precisa ser evidente. Isso torna fundamental observar o que atores da extrema-direita brasileira oferecerão a ele, e também o que Lula pode oferecer como contrapeso.
O segundo é a escalada gradual da tensão e a preferência por ferramentas retóricas e econômicas. No contexto das eleições brasileiras, parece improvável (embora nunca impossível) que Trump recorra a ameaças militares diretas ou sanções mais graves contra atores específicos, a não ser que a tensão entre os dois países volte a subir por outras razões.
O terceiro é a ausência de respeito a convenções, normas e formalidades. Existe uma chance real de Trump não reconhecer a legitimidade do nosso processo eleitoral, seja de forma ativa (questionando o resultado) ou passiva (simplesmente ignorando o resultado e deixando que seus aliados o questionem).
E se Trump quiser ir além?
Putin, Orbán e Xi Jinping também têm um longo histórico de interferências internacionais, mas não tanto na América Latina. Além de usar o mesmo repertório de Trump, eles chegam a ir além.
As ferramentas que outros líderes autoritários usam, mas que ainda não vemos Trump usando, incluem:
A construção e uso sistemático de amplas redes de desinformação com perfis falsos, bots e sites de fake news
A restrição de exportações de recursos essenciais (ex.: petróleo, gás) como forma de coerção
Ataques cibernéticos para coleta e vazamento de informações ou desestabilização de serviços públicos
Investimentos de longo prazo em infraestrutura voltados a beneficiar aliados
É improvável vermos Trump usando essas ferramentas no Brasil em 2026, porque isso ainda não faz parte da forma como ele opera — mas não é impossível, e a tendência é que ele avance nessa direção com o passar do tempo.
Também parece improvável o envolvimento direto de figuras como Putin, Orbán e Xi Jinping nas nossas eleições de qualquer forma muito significativa.
O papel das Big Techs
As grandes empresas de tecnologia se alinharam politicamente a Trump, mas — com exceção do X e de Musk — não temos evidências de um histórico de envolvimento ativo delas em processos eleitorais no sentido de tomar medidas para favorecer diretamente algum candidato.
Isso não significa que elas não tenham impacto, muito pelo contrário. Contudo, seu impacto está associado a problemas que observamos também fora de contextos eleitorais: permissividade com desinformação, discurso de ódio, propaganda irregular e operações coordenadas de manipulação, além do viés algorítmico que favorece conteúdos extremistas.
É razoável esperar que essas empresas sejam mais permissivas em 2026 do que foram em ciclos eleitorais recentes, e mais resistentes a ordens judiciais e outras medidas voltadas a garantir a integridade eleitoral. No Brasil e no mundo, elas parecem menos dispostas a atuar de forma ética e dentro dos limites da lei. Isso exige maior firmeza, proatividade, criatividade e antecipação para monitorar sua atuação e cobrar diligência.
O que fazer com tudo isso
A articulação internacional da extrema-direita não é novidade, mas o nível de sofisticação, ousadia e o volume de recursos envolvidos estão em outro patamar desde o início do novo mandato de Trump. Precisamos parar de tratar interferências internacionais como algo que acontece em outros países e começar a nos preparar para o que pode acontecer aqui.
Isso passa por mapear os atores, entender suas ferramentas e padrões, mapear de perto seus movimentos, antecipar cenários e construir respostas — tanto no plano institucional quanto no da sociedade civil.
O campo democrático brasileiro tem experiência acumulada na defesa da integridade eleitoral, mas talvez estejamos diante de riscos sem precedentes. Precisamos nos preparar para estar à altura do desafio.
*Pedro Telles é diretor de programas do Democracy Hub (D-Hub), professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI) e senior fellow em Equidade Econômica e Social na London School of Economics and Political Science (LSE)