Tarifas e urnas: a nova fase da pressão americana sobre o Brasil

Por Filipe Mendonça*


Na terça-feira, 4 de agosto, o governo Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. Duas semanas antes, entraram em vigor tarifas que, somadas, chegam a 37,5% sobre parte das exportações brasileiras. Na mesma semana, o Brasil negou visto a dois funcionários do Departamento de Estado que viriam ao país questionar as urnas eletrônicas. Tudo indica que a relação bilateral entrou numa fase sem precedentes, em que Washington intervém de forma direta e simultânea no comércio e na eleição brasileira.

As tarifas

Na questão do comércio, vale uma rápida contextualização. Em abril de 2025, o chamado Liberation Day consolidou o unilateralismo agressivo do trumpismo 2.0, com a IEEPA, a lei de poderes econômicos de emergência, como via principal e o Brasil entre os alvos preferenciais, taxado bem acima da média global. A aposta funcionou até chegar aos tribunais. Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte tornou ilegal o uso de poderes de emergência para impor tarifas discricionárias. A partir daí, o governo passou a se apoiar em instrumentos com autorização explícita do Congresso, como a Seção 122 (tarifas temporárias de até 15% para corrigir desequilíbrios no balanço de pagamentos), a Seção 232 (segurança nacional) e a Seção 301 (práticas comerciais desleais).

Diferentemente da IEEPA, esses mecanismos têm blindagem jurídica muito maior porque decorrem de delegação legislativa expressa, não de poderes de emergência discricionários. Blindagem maior, porém, não significa imunidade. Em 3 de agosto, 25 estados americanos, quase todos governados por democratas, entraram com ação no Tribunal de Comércio Internacional contra a rodada tarifária de 10% e 12,5% aplicada a 60 parceiros comerciais, sustentando que o combate ao trabalho forçado virou "pretexto" para um esquema tarifário ilegal. A reversão judicial das tarifas contra o Brasil segue improvável, mas o processo confirma que o custo político doméstico da estratégia cresce.

O Brasil é um dos casos mais emblemáticos dessa reconfiguração. A investigação de Seção 301 aberta em julho de 2025 já nasceu mais política do que comercial. A determinação final fixou tarifa de 25%, em vigor desde 22 de julho. Dois dias depois, entrou em vigor uma segunda tarifa, de 12,5%, resultado da investigação sobre trabalho forçado que alcançou 60 economias. Para a maior parte dos produtos atingidos, as duas cobranças se acumulam. Na prática, os produtos brasileiros agora se dividem em cinco situações: isentos, taxados em 12,5%, em 25%, em 37,5% ou, no caso do aço e do alumínio, em 50% pela Seção 232.

A Seção 301 sempre funcionou como canal para transformar queixas empresariais americanas em pressão unilateral, como o Brasil aprendeu nos contenciosos da informática (1985), das patentes farmacêuticas (1987) e do imposto sobre serviços digitais (2021). Desta vez, os papéis se inverteram. Foram os lobbies americanos que atuaram como força moderadora, arrancando isenções que alcançaram cerca de 44% das exportações brasileiras, incluindo ferro-gusa, café, petróleo e minério de ferro. Foram poupados justamente os produtos de que a economia americana não pode abrir mão sem pressionar sua própria inflação.

O impacto já é mensurável. A Amcham Brasil estimou em US$ 11 bilhões as vendas afetadas pela tarifa de 25% e em US$ 12,5 bilhões as alcançadas pela segunda rodada, das quais 85% acumulam as duas cobranças. Desde o primeiro tarifaço, em agosto de 2025, o Brasil deixou de exportar cerca de US$ 5 bilhões aos Estados Unidos. Por outro lado, mesmo com esta retração, o superávit comercial brasileiro chegou a US$ 50,8 bilhões entre janeiro e julho, alta de 9,4% sobre 2025, sinal de que a diversificação de mercados iniciada no ano passado amortece o golpe.

As urnas

A Seção 301 se tornou variável interna da eleição brasileira. Nas audiências públicas de julho, Flávio Bolsonaro abandonou o tom de sua carta original, que sugeria apenas a suspensão das taxas, para pedir o fim do tarifaço e defender inclusive o Pix. Dias depois, o secretário de Estado Marco Rubio culpou Lula pelo desfecho, afirmando que o presidente "colocou seu ego à frente" dos interesses do país. Lula respondeu sugerindo que Rubio montasse um comitê para apoiar a campanha de Flávio Bolsonaro.

A aposta de Washington, porém, vem produzindo o efeito contrário. Análises de redes sociais apontam influência direta dos Estados Unidos na disputa, majoritariamente em prejuízo de Flávio. Trump aparece em 40% das menções ao pré-candidato, que perdeu 2,3 pontos percentuais em menções positivas. Na Quaest de julho, 51% dos eleitores concordam com a versão de Lula de que Flávio pediu o tarifaço. Nada disso decide a eleição, mas o padrão é claro: quanto mais Trump intervém, pior para o candidato que se apresenta como seu aliado.

A segunda frente é mais grave. Em 21 de julho, Flávio reuniu diplomatas de cerca de 40 países e repetiu acusações feitas pelo seu pai contra as urnas eletrônicas já desmentidas pelo TSE. Na mesma semana, o Washington Post revelou que o Departamento de Estado planejava enviar dois funcionários ao Brasil para questionar a lisura do sistema eleitoral. O governo brasileiro negou os vistos. A revogação do visto da embaixadora Viotti, dias depois, foi lida no Planalto como resposta em tom eleitoral. Vale lembrar que em março, na CPAC, Flávio havia apresentado a eleição brasileira como batalha existencial da direita americana, com os minerais críticos brasileiros, sobretudo as terras raras, como prêmio.

O resultado é uma profecia que se auto cumpre. Quanto mais Washington intervém, por tarifas ou por dúvidas plantadas sobre as urnas, pior o desempenho do candidato que Washington gostaria de eleger. E quanto pior o desempenho de Flávio, maior o incentivo para contestar antecipadamente a legitimidade do processo, preparando a narrativa de fraude para o dia seguinte de uma derrota. É o roteiro de 8 de janeiro reescrito com sotaque americano.

O que o Brasil pode (e não pode) fazer

A resposta brasileira até aqui repete, com atualizações, o repertório que funcionou em 2025.  No plano doméstico, a Medida Provisória 1379 destinou R$ 18,5 bilhões em crédito subsidiado à terceira rodada do Plano Brasil Soberano, cobrindo capital de giro, investimento, adaptação de produtos e, ponto decisivo, prospecção de novos mercados. No plano multilateral, o Brasil formalizou pedido de consultas na OMC contra as duas tarifas. Com o Órgão de Apelação paralisado, o recurso é visto como simbólico, mas cumpre função dupla, marcando posição jurídica e construindo o dossiê de ilegalidade que pode ser mobilizado em outros foros.

Note-se o que o Brasil não fez: não acionou a Lei de Reciprocidade econômica. A prudência não é fraqueza neste caso. Os próprios setores atingidos pediram ao governo que não retaliasse, argumentando que a reciprocidade tarifária apenas tiraria o Brasil da mesa de negociação. A experiência recente ensina que retaliar não convence Trump de nada. Nessa arquitetura, a lei cumpre seu papel justamente enquanto não é usada. Seu valor está na credibilidade de barganha que empresta à diplomacia.

O espaço mais promissor de autonomia está mesmo na diversificação. Desde 2025, as empresas brasileiras aprenderam a buscar novos mercados, e o superávit recorde deste ano mostra que a lição foi absorvida. A diversificação pode deixar um legado positivo para o Brasil, desde que feita de forma ampla para evitar novas dependências, que passe pelo acordo Mercosul-União Europeia, pela integração regional possível e pela exigência de contrapartidas tecnológicas a qualquer parceiro, inclusive a China.

Tarifas e urnas seguirão entrelaçadas até outubro, com novas rodadas de pressão a cada gesto de desalinhamento de Brasília. Para o campo democrático brasileiro, a lição agora é tripla. É preciso negociar sem ilusões sobre a natureza política da pressão, sustentar a diversificação que já amortece o golpe comercial e blindar a eleição de outubro contra a profecia autocumprida da fraude. O Brasil já sobreviveu à Seção 301 três vezes. A diferença é que agora o alvo não é um setor da economia. É a posição do país na ordem internacional e a integridade da sua democracia.


*Filipe Mendonça é professor da Universidade Federal de Uberlândia (IERI/UFU), Fellow Researcher na Academy of International Affairs NRW (Bonn) e Honorary Research Fellow na City St George's, University of London. É também pesquisador associado do INCT-INEU.

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