A Guerra no Irã e a Diplomacia como Bullying
Por Michel Gherman* e Ligia Bahia**
Na semana que passou a Associação de Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro organizou, no Campus da Praia Vermelha, uma conferência com o ministro e assessor especial da Presidência da República, o experiente diplomata Celso Amorim. Começamos esse pequeno artigo comentando essa conferência menos pelo seu conteúdo que pela dimensão simbólica que ela representa.
O convite ao ministro foi feito ainda nos últimos meses de 2025. À época não sabíamos qual seria o tema central do evento. Pensávamos em discutir sobre Venezuela, ainda antes do sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro, ou sobre o genocídio em Gaza, meses depois da assinatura do frágil cessar-fogo entre Israel e o Hamas, com a criação do tal Conselho de Paz pensado por Trump. Também imaginávamos poder falar sobre a interminável guerra na Europa, entre Ucrânia e Rússia.
O que não podíamos imaginar quando pensamos o evento, em fins de 2025, era que em março de 2026 estaríamos presenciando uma guerra regional, a invasão do Irã e a percepção de que poderíamos estar diante de um conflito de grande monta em termos mundiais.
É verdade que não imaginamos que chegaríamos a isso, mas olhando de forma retroativa, não ter considerado esse desenvolvimento foi um equívoco. As condições para a degeneração das relações internacionais estavam dadas, os sinais eram claros. Nós que teimávamos em não as enxergar.
A periclitante situação internacional, a recente invasão do Irã e a deterioração do ambiente internacional acabaram por levar um grande público para o Salão Dourado no Palácio Universitário da UFRJ.
Preocupados e tensos, estudantes e professores se mostravam ansiosos por escutar as perspectivas de Amorim sobre o novo conflito que recém começava.
O experiente diplomata parecia estar ciente da gravidade do momento e decidiu começar a palestra com duas afirmações sobre as quais gostaríamos de conferir a devida relevância nesse pequeno artigo: “a guerra com o Irã não será um passeio” e há um trágico ineditismo no fato de potências estrangeiras terem executado o líder de um país invadido ainda no início do conflito.
Com relação à primeira afirmação de Amorim, parece haver poucas dúvidas sobre sua veracidade.
A violência dos bombardeios de Israel e dos Estados Unidos ao Irã tem originado respostas duras e dolorosas para os invasores. Ademais, o governo iraniano tem investido na expansão territorial e econômica do conflito, o que estabelece o horizonte de uma guerra regional e produz potencial para uma guerra de proporções ainda maiores.
Em termos territoriais, o regime dos aiatolás tem produzido bombardeios a Israel, mas também tem lançado bombas em bases americanas em países do Golfo. Essa decisão estratégica é explosiva. Ela pode efetivamente mover o eixo do conflito para outras regiões, exigindo que outras potências mundiais se envolvam na guerra.
Em termos econômicos, o horizonte também parece de grande gravidade. Entre ameaças e tentativas, o Irã tem apontado a possibilidade concreta de fechar o Estreito de Ormuz, o que levaria ao colapso de cerca de 20% da comercialização do petróleo mundial e produziria uma nova crise do petróleo o que levaria a uma crise inflacionária internacional.
Nesse contexto, efetivamente Celso Amorim tem razão, a guerra com o Irã, iniciada com os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos, tem tudo para não ser um passeio, principalmente na ausência de um projeto estratégico viável que possa apontar para seu fim.
Trump e Netanyahu falam em fim do regime, fim das armas iranianas, mas não apontam condições para alcançar esses objetivos.
Com relação ao ineditismo do assassinato do líder de um país invadido nos primeiros dias do conflito, também concordarmos com Amorim: isso nunca tinha ocorrido antes, e´ algo que mostra a derrota da diplomacia e da política, além de apontar para o investimento em uma era onde a barbárie e a violência serão parte constitutiva das relações internacionais.
Um imperialismo de características pornográficas. A morte do líder vem como expressão de uma gramática do horror. Ainda no início da guerra se assassina Khamenei, esperando rendição. Enquanto ela não vem, continuam a execução de outros líderes no país invadido.
Acontece, entretanto, que há por trás dessa decisão extrema um processo mais longo.
O assassinato do aiatolá Khamenei e da elite dirigente do Irã é uma etapa, talvez mais explícita, na nova fase desse imperialismo pornográfico inaugurado por Donald Trump.
Como afirmou Celso Amorim em sua palestra, o tempo adquiriu uma aceleração inédita. Mas é importante nos lembrarmos que menos de uma semana antes do início dos bombardeios havia negociações ocorrendo no Golfo e na Europa. Representantes do Irã e dos Estados Unidos supostamente se esforçavam para chegar a um acordo que evitasse a guerra. Canais ligados ao governo de Oman, inclusive, se mostravam otimistas com as conversas.
As bombas, entretanto, começam a cair em Teerã ainda durante as conversações.
Temos aqui, pois, uma espécie de bullying à diplomacia.
Enquanto representantes de governos tentam chegar a um acordo, a guerra estoura. Isso produz efetivamente uma quebra de confiança completa em soluções negociadas. A guerra de impõe, assim, como solução. A diplomacia parece brincadeira de criança, brincadeira de mau gosto.
Isso levará, muito provavelmente, a uma corrida armamentista e no investimento de armas não convencionais também entre potencias médias.
O governo Trump tem tentado enfraquecer de todas as maneiras estruturas multilaterais de decisão internacional. No caso do bombardeio durante as conversações, temos a tentativa de se criar uma fase caracterizada pelo encerramento do sistema mundo como plataforma e o bullying a diplomacia.
A extrema direita internacional produz a percepção de que a diplomacia é para os fracos. A guerra é que não é coisa de perdedores, para usar as palavras de Donald Trump.
Mas é importante notar que o assassinato de Khamenei, o bombardeio ao Irã e a desconsideração das conversações são, por assim dizer, a última volta do parafuso. Antes disso, Donald Trump e seu governo já haviam mostrado as estratégias dessa nova fase da “diplomacia de bullying.”
Referíramo-nos aqui a dois casos: primeiramente ao genocídio em Gaza e em segundo lugar ao sequestro e prisão de Nicolas Maduro na Venezuela. Esses processos se iniciam com a “dessensibilização” dos cidadãos americanos diante do sofrimento dos adversários e com a desautorização e deslegitimação de seus líderes.
Em relação a Gaza, falas sobre expulsão de palestinos e construção de resorts mostravam a direção discursiva de Trump. Os habitantes daquela região, nessa perspectiva, não existem ou existem e não podem dar opinião.
O que prevalece é um discurso de segurança e de força. Sem diálogos com órgãos internacionais ou mesmo com o Congresso americano, os EUA aprofundam suas práticas imperialistas. Fome como arma de guerra, permissão de bombardeios a população civil e, finalmente, e permissão de destruição de um território inteiro em resposta ao massacre de 7 de Outubro.
A vitória total, sem política ou diplomacia. Apenas armas e destruição.
Não se deve imaginar, entretanto, que isso esteja restrito ao Oriente Médio. O que ocorreu na Venezuela tem as mesmas características. Desautorização das lideranças locais, desprezo pelas estruturas internacionais e violência contra lideranças locais. Maduro é sequestrado e condenado por supostos crimes, sendo preso em uma cadeia nos Estados Unidos.
Mais uma vez, bullying como política de intervenção, ignora-se a diplomacia e tem-se na invasão e na violência uma forma de impor interesses do imperialismo dos Estados Unidos.
É nesse contexto que a invasão ao Irã parece ser mais uma volta de um parafuso que menospreza qualquer tipo de direito ou de regras internacionais.
Seria pouco dizer que a guerra é ilegal. Trata-se de um ato de delinquência internacional. Sem consulta interna ou externa, sem objetivos ou programa definido. Como se as bombas falassem por si. Se o assassinato do líder no início do conflito é inédito, pode-se dizer que há características ali construídas nas últimas intervenções dos EUA, seja em Gaza ou na Venezuela.
A próxima peça desse dominó parece ser Cuba. Cortes de energia e a fome também ali parecem ser armas de guerra e de intervenção. Mas há mais do que isso: Irã, Venezuela e Gaza apontam que na nova fase do imperialismo dos EUA. A partir de agora não há mais pais a salvo. A justificativa para a intervenção se basta. Não há mais necessidade de consulta nacional ou internacional.
O imperialismo de bullying é o novo método na era Trump. Como não podia deixar de ser, aqui também o presidente dos EUA aposta na pornografia. Sem justificativas mais elaboradas ou verniz de legalidade, a invasão passa a ser explicada pelo império da vontade do líder.
*Michel Gherman é professor de Sociologia e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro
**Lígia Bahia é professora do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva e presidente da Associação de Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro