Bachelet na ONU
Por Vanessa Dolce de Faria*
Há pouco mais de 80 anos, durante as negociações da Carta das Nações Unidas, em São Francisco (EUA), uma brasileira – a única mulher na nossa delegação – destacou-se na defesa da inclusão da igualdade entre homens e mulheres, no documento que ficaria conhecido como a “Constituição do Mundo”.
A obstinação da Dra. Bertha Lutz resultou – com apoio das diplomatas Minerva Bernardino (República Dominicana), Isabel Pinto de Vidal (Uruguai) e Wu Yi-fang (China) – na inclusão da almejada igualdade no preâmbulo do documento, além da menção, no artigo 8º da Carta, do direito de que homens e mulheres sejam igualmente elegíveis para participarem em qualquer nível da organização. Aquela geração buscou refletir, no plano internacional, a batalha que se travava internamente em diferentes países, pelo reconhecimento de aspectos formais de igualdade que ainda não haviam sido atingidos, como o direito ao voto e à participação política.
Embora mais de oito décadas tenham transcorrido desde que essa vitória foi conquistada formalmente, o cenário de participação real de mulheres em espaços de poder, inclusive os multilaterais, ainda está muito longe de qualquer igualdade ou paridade. Esse é, sem dúvida, um desafio do nosso tempo: que as mulheres ocupem espaços de poder.
Não é mais aceitável que mais de metade da população ainda esteja excluída da tomada de decisões. Trata-se, de fato, de uma questão de justiça.
Além desse aspecto – num momento de tantas crises e conflitos internacionais, inclusive do sistema multilateral de regras e mecanismos criados para fazer frente a elas –, trata-se também de buscar agregar, finalmente, as perspectivas e as vozes até o presente silenciadas e secundarizadas.
No caso específico das Organização das Nações Unidas (ONU), nunca houve uma mulher secretária-geral, o mais alto cargo da organização. A organização foi, até o momento, chefiada por nove homens. No discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU em 2024, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, apontou essa ausência, situando-a entre os fatores que precisam ser reformados dentro da instituição
Já há alguns anos, vozes vêm somando-se nesse sentido. A campanha por uma mulher secretária-geral da ONU, com o título de “Madam Secretary-General”, lançada por uma plataforma de mulheres que já concorreram ao cargo, ganhou relevância e gerou conscientização.
O Brasil também entende que é chegada a hora. Em 2 de fevereiro, lançamos, juntamente com os governos do Chile e do México, a candidatura de Michelle Bachelet ao posto de secretária-geral da ONU.
Duas vezes presidenta da República do Chile; ministra de estado da Saúde e da Defesa de seu país; diretora-executiva da ONU Mulheres; alta comissária da ONU para Direitos Humanos – por onde passou, Bachelet sempre manteve o compromisso com a promoção da igualdade de gênero. O currículo dela transborda experiência e profundo conhecimento dos temas centrais reunidos até hoje como pilares da ONU: paz e segurança, desenvolvimento sustentável, direitos humanos.
O fato de ter sido chefe de Estado duas vezes lhe brinda trânsito entre presidentes e lideranças globais; trajetória confirmada pelos cargos internacionais que ocupou e que lhe proporcionaram intimidade com os desafios cotidianos do poder. Se não bastassem todas as qualidades objetivas, não será pouco poder contar também com aquelas de caráter pessoal, como a simpatia e a simplicidade, reconhecíveis em seu sorriso aberto, trato fácil e carinho com todas as pessoas.
Outro aspecto relevante em jogo é o fato de a ONU não ser chefiada por alguém da América Latina desde que o peruano Javier Pérez de Cuéllar deixou o cargo, há 35 anos. É esperado que a região volte finalmente a ocupar a posição.
Muito tem sido falado a respeito do anacronismo do Conselho de Segurança da ONU, ainda restrito a apenas cinco membros permanentes com direito de veto (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido), refletindo uma fotografia anacrônica da realidade geopolítica, que desconsidera a América Latina e a África. Uma mulher latino-americana à frente da organização representa também um sinal de esperança, de aposta na renovação.
Por fim, mas não menos importante, cabe uma palavra sobre a importância de se projetar a liderança de uma mulher neste momento de imensos desafios globais. Nenhuma mulher será capaz de sanar tantos problemas ou resolver todas as crises. Mas os desafios do multilateralismo apontam para a necessidade de renovação e inclusão, e com Bachelet estaremos dando um passo histórico nesse sentido.
*Vanessa Dolce de Faria é embaixadora brasileira e Alta Representante para Temas de Gênero do Itamaraty.