Direitos Indígenas no Brasil: povos diversos, proteção incompleta
Por Dora Nassif*
No Brasil, há uma desinformação recorrente de que a Constituição de 1988 teria criado os direitos dos povos indígenas. Isso não é verdade. Esses direitos não nasceram ali, eles já existiam muito antes. A Constituição não criou esses direitos, apenas os reconheceu.
Isso acontece porque os povos indígenas são povos originários. Em termos simples, isso significa que sua relação com o território não depende de autorização do Estado. Eles já estavam ali antes da formação do próprio Estado brasileiro. Muitas dessas terras foram tomadas ao longo da história. O que a lei faz, portanto, é reconhecer um direito anterior, não o conceder.
Esse reconhecimento não existe apenas no direito brasileiro. Ele também aparece em instrumentos internacionais de direitos humanos, que afirmam a obrigação dos Estados de proteger os povos indígenas, seus territórios e seus modos de vida. Ainda assim, tal como ocorre com a própria Constituição, esses instrumentos, apesar de avanços importantes, inclusive no âmbito do Judiciário, se mostram insuficientes para garantir, na prática, a pluralidade e a autonomia desses povos.
Mas existe uma diferença importante entre reconhecer um direito e garanti-lo na prática.
Hoje, um dos maiores problemas enfrentados pelos povos indígenas no Brasil não é a ausência total de normas que reconheçam seus direitos. Esse reconhecimento existe, ainda que parcialmente. O problema é que ele convive com tentativas constantes de restrição e, principalmente, com a falta de efetividade. A demarcação de terras, que deveria assegurar a sobrevivência física e cultural desses povos, muitas vezes não acontece. E, quando acontece, não vem acompanhada de proteção efetiva.
Na prática, isso significa que comunidades seguem expostas à violência, à invasão de seus territórios e à degradação ambiental, mesmo quando há decisões judiciais ou reconhecimento formal de seus direitos. Em muitos casos, empresas responsáveis por danos ambientais não são responsabilizadas de forma proporcional à gravidade dos impactos causados. O rompimento da barragem de Mariana, operada pela Samarco, controlada pela Vale e pela BHP, que contaminou o Rio Doce, é um exemplo emblemático desse desequilíbrio.
Nos últimos anos, esse cenário se agravou com o debate em torno de uma tese chamada marco temporal. De forma simplificada, essa ideia sustenta que os povos indígenas só teriam direito às terras que estivessem ocupando em 1988, ano da promulgação da Constituição.
O problema é que essa tese ignora um fato básico: muitos povos foram expulsos de seus territórios ao longo da história, especialmente durante a ditadura militar e outros períodos de violência. Exigir que estivessem fisicamente presentes em 1988 é, na prática, legitimar essas expulsões.
Mesmo após decisões importantes do Supremo Tribunal Federal sobre o tema, o debate segue no Congresso Nacional, que tenta avançar medidas que podem restringir ainda mais esses direitos.
Mas falar de direitos indígenas não é apenas falar de normas ou decisões judiciais. É falar de pessoas, histórias e realidades muito diferentes entre si.
Não existe o povo indígena como uma realidade única. O Brasil abriga centenas de povos, com culturas, línguas e formas de organização distintas. Há, sim, lutas em comum, especialmente pela terra, pelo meio ambiente e pela sobrevivência, mas cada povo enfrenta violências específicas, em contextos distintos.
Além disso, a própria forma de resistência também muda ao longo do tempo. Diferentes gerações de povos originários resistiram de maneiras diversas, de acordo com as circunstâncias históricas que enfrentaram. Em 1500, a resistência assumia uma forma. Durante a ditadura militar, outra. Hoje, em um mundo digital e tecnológico, ela se expressa de novas maneiras.
Isso não significa que uma forma de resistência seja mais legítima que outra. Todas foram respostas necessárias aos desafios de seu tempo. A resistência acompanha as mudanças do mundo, das ameaças e das formas de violência, e é justamente essa capacidade de se transformar sem deixar de existir que sustenta a continuidade desses povos.
Para alguns, essa violência se manifesta por meio de deslocamentos forçados. O povo Tuxá, por exemplo, foi retirado de seu território tradicional com a construção da barragem de Itaparica, no rio São Francisco, sendo obrigado a se deslocar diante da inundação de suas terras. Não se tratou de uma escolha, mas de uma imposição que comprometeu profundamente sua forma de vida.
Para outros, a violência vem na forma de desastres ambientais. O povo Krenak teve seu rio, o Watu, o Rio Doce, Minas Gerais, contaminado pelo rompimento da barragem de Mariana. Não se trata apenas de poluição. Trata-se da morte de um rio que é sagrado, que organiza a vida, a memória e a espiritualidade daquele povo. Como diz Ailton Krenak, o rio não é um recurso, é um parente, é um avô.
Em outros casos, a violência é direta e brutal. Comunidades Pataxó têm sido alvo de ataques armados, incêndios criminosos e expulsões forçadas. Não são episódios isolados, mas práticas reiteradas que revelam uma dinâmica de perseguição e tentativa de extermínio contra quem insiste em permanecer em seu próprio território. Esses exemplos mostram que não se trata de um problema pontual. Trata-se de uma falha estrutural.
Ao mesmo tempo, os povos indígenas oferecem perspectivas fundamentais sobre outras formas de se relacionar com a terra, o tempo e a própria ideia de desenvolvimento. Como lembra Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo, talvez seja justamente a lógica dominante, que separa humanidade e natureza, que nos trouxe até a crise atual.
Há, inclusive, evidências de que a própria Floresta Amazônica não é apenas um espaço natural, mas também resultado de séculos de manejo indígena. Isso revela uma capacidade não apenas de sobrevivência, mas de construção de sistemas complexos, sustentáveis e profundamente integrados à vida. Em outras palavras, os povos indígenas não apenas habitam a floresta, eles ajudaram a moldá-la e seguem sendo, em grande medida, responsáveis por manter os ecossistemas que ainda sustentam a vida no planeta.
Talvez o maior erro seja tratar os direitos indígenas como uma questão do passado, ou como um tema restrito a um grupo homogêneo que sequer existe. Na verdade, eles dizem respeito ao presente e ao futuro de toda a sociedade.
O Brasil teve avanços no reconhecimento desses direitos, mas ainda há um longo caminho a percorrer. O desafio, agora, é fazer com que se tornem realidade.
*Dora Nassif é advogada, mestra em Direitos Humanos e doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide em Sevilla.