Pressão Comercial e Intervenção Política Convergem nas Relações EUA-Brasil

Por Gimena Sánchez-Garzoli* e Lucas de Souza Martins**

Este artigo foi originalmente publicado no site da WOLA e gentilmente cedido pelos autores para reprodução no boletim informativo da Brazil Office Alliance.


A apenas 47 dias do primeiro turno das eleições brasileiras, as relações EUA-Brasil entraram em um período particularmente delicado. O que era inicialmente apresentado como uma disputa comercial tem convergido cada vez mais com a campanha presidencial brasileira de 2026, aumentando as preocupações sobre o envolvimento dos EUA na política interna. Desde que o governo Trump confirmou, em meados de julho, uma tarifa de 25% com base na Seção 301 sobre produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais, e uma tarifa adicional de 12,5% no final de julho, também com base na Seção 301, alegando trabalho forçado em muitas economias do mundo, o comércio, a diplomacia e a política eleitoral têm se tornado cada vez mais interligados.

Em 20 de julho, os EUA concederam residência permanente a Eduardo Bolsonaro após sua condenação por tentar persuadir autoridades americanas a sancionar o juiz Alexandre de Moraes, já que este foi o magistrado que condenou seu pai por conspiração para um golpe de Estado, visando se manter no poder após a derrota nas eleições de 2022. Embora a residência não impeça a extradição, a medida ressalta o envolvimento contínuo do governo Trump nas disputas legais e políticas da família Bolsonaro.

A dimensão eleitoral se acirrou no dia seguinte, quando o então candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, declarou a embaixadores estrangeiros que o sistema de votação eletrônica do Brasil era falho. Alguns diplomatas interpretaram as declarações como uma preparação para contestar os resultados das eleições de outubro, caso Lula seja reeleito. Observadores também traçaram paralelos com o encontro similar de Jair Bolsonaro com embaixadores em 2022, que contribuiu para sua destituição do cargo. Flávio defendeu as ações de seu pai como preocupações legítimas sobre a transparência eleitoral, o que levou diversas partes a cogitarem ações judiciais contra ele.

Flávio defendeu as ações de seu pai como preocupações legítimas sobre a transparência eleitoral, levando diversos partidos a considerarem medidas legais contra ele. As preocupações com o envolvimento direto dos EUA também se intensificaram após relatos de que os funcionários do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, solicitaram vistos para visitar Brasília de 27 a 30 de julho, com o objetivo de se encontrar com autoridades, líderes religiosos e Flávio Bolsonaro para discutir a integridade eleitoral e a liberdade de expressão.

Embora o Departamento de Estado tenha classificado a visita como rotineira, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil negou os vistos, alegando preocupações com o envolvimento dos EUA no processo eleitoral.

A visita frustrada também gerou críticas em Washington. Em 28 de julho, senadores democratas da Comissão de Relações Exteriores acusaram o governo Trump de promover teorias da conspiração sobre as eleições brasileiras, evidenciando preocupações com as ações do governo Trump.

A mídia brasileira também noticiou que o Consulado dos EUA em São Paulo realizou reuniões a portas fechadas com influenciadores digitais conservadores sobre liberdade de expressão e o ambiente digital. A falta de esclarecimentos sobre o propósito dessas reuniões e o papel dos participantes alimentou ainda mais o escrutínio do envolvimento político dos EUA no processo eleitoral brasileiro.

Em 29 de julho, o governo Trump renovou o estado de emergência nacional no Brasil por meio da Ordem Executiva 14323, reiterando as acusações contra o Supremo Tribunal Federal e seu tratamento a Jair Bolsonaro. Embora não tenha imposto novas medidas, a renovação preservou o arcabouço legal para futuras ações dos EUA.

A crise se intensificou em 4 de agosto, quando o Departamento de Estado revogou o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti — a primeira ação desse tipo em mais de dois séculos de relações entre EUA e Brasil. Um porta-voz do Departamento de Estado classificou a medida como uma ação recíproca relacionada à demora do Brasil em aprovar Daniel Perez como embaixador dos EUA no Brasil e afirmou que Viotti recuperaria seu visto assim que Brasília aprovasse Perez. O Brasil repudiou a decisão, considerando-a uma escalada deliberada, incompatível com uma relação historicamente baseada no respeito mútuo.

A opinião pública brasileira também pode estar se afastando de Washington. Uma pesquisa da PoderData de 24 de julho revelou que a maioria dos brasileiros é favorável a laços comerciais mais fortes com a China, atualmente o maior parceiro comercial do Brasil, enquanto 42% afirmaram que o apoio de Trump prejudicaria um candidato à presidência.

Argentina e China reagem aos acontecimentos. Na mesma semana, as tensões geopolíticas no Brasil se intensificaram. Em 25 de julho, Javier Milei participou da convenção do Partido Liberal em São Paulo, indicando Flávio Bolsonaro, e criticou Lula e o ministro Alexandre de Moraes, o que levou o Brasil a convocar seu embaixador em Buenos Aires.

 Dias depois, Lula conversou com o presidente chinês Xi Jinping, que manifestou apoio público à soberania brasileira e se opôs à interferência estrangeira. Somada às mudanças no comércio e na opinião pública, a pressão dos EUA pode estar acelerando a inclinação econômica e diplomática do Brasil em direção à China.

 Em conjunto, esses acontecimentos apontam para uma campanha eleitoral brasileira cada vez mais influenciada por atores estrangeiros, com os EUA se tornando um dos protagonistas das eleições de outubro. Isso ajuda a explicar a postura diplomática mais assertiva do Brasil e a forma como Pequim enquadra seus laços com o país, enfatizando a soberania e a oposição à interferência externa.


*Lucas de Souza Martins é professor de Política dos EUA e Assuntos Globais. Possui mestrado em História dos EUA pela Georgia State University e é doutorando na Temple University, especializando-se nas relações entre os EUA e a América Latina. Jornalista formado pela Universidade Mackenzie, atuou anteriormente como assessor de imprensa no Senado Federal e no Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), em Brasília. Ex-pesquisador visitante (research fellow) do Wilson Center e do Carter Center, atua ainda como consultor sobre o Brasil na Washington Office on Latin America (WOLA).

**Gimena Sanchez-Garzoli é diretora para a Região Andina na Washington Office on Latin America (WOLA), onde lidera as iniciativas relacionadas à Colômbia, ao Brasil e à Argentina. Há mais de 25 anos, ela trabalha em prol dos direitos humanos, da justiça social e da paz nas Américas. Possui mestrado pela Johns Hopkins SAIS e bacharelado pela Columbia University. Atualmente, é doutoranda na Bircham University.

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