Somos uma sociedade sem memória?

Por Cristina Buarque de Hollanda e José Szwako*


Escuta-se por aí que o Brasil é um país sem memória. Essa versão circula em grupos e vozes progressistas de diversos matizes. Ela serve para explicar desde a dificuldade de punir os crimes da ditadura até o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff e a ascensão política de Jair Bolsonaro em 2018. Argumentamos que essa premissa é falsa. O Brasil não é um país sem memória: é um país cuja memória sobre a ditadura é disputada, internamente contraditória e politicamente repleta de consequências.

Desde os anos 1990, o Estado brasileiro, fustigado por movimentos da sociedade civil, construiu, passo a passo, um arcabouço institucional voltado ao reconhecimento dos crimes da ditadura. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instalada em 1995, foi o primeiro passo. Em meados dos anos 2000, a Comissão de Anistia assumiu enormes proporções políticas. Sob a presidência de Paulo Abrão, reorientou o sentido da reparação: em vez de um Estado magnânimo que perdoava subversivos, passou a encarnar um Estado que pedia perdão aos perseguidos e insinuava a necessidade de responsabilizar perseguidores. Cada avanço nessa direção era recebido com desconforto crescente pelas Forças Armadas, que desde os anos 1980 conviviam mal com as denúncias dos Grupos Tortura Nunca Mais e com o trabalho de familiares de mortos e desaparecidos políticos.

Os comandantes militares esbarraram no seu limite de tolerância institucional quando, em dezembro de 2009, o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos recomendou a criação de uma comissão da verdade para apurar crimes da ditadura. Junto com seu ministro da Defesa, Nelson Jobim, ameaçaram demissão coletiva numa das maiores crises do governo Lula. Pragmático e em fim de mandato, o presidente correu com os panos quentes: contornou o impasse com um novo decreto e ajustes no texto.

Coube a Dilma, em dezembro de 2012, criar a Comissão Nacional da Verdade e, com ela, “um fosso monumental entre as Forças Armadas e a Presidência da República”, como descreveu o general Sérgio Etchegoyen. Pela primeira vez, o Estado investigou crimes da ditadura e nomeou torturadores. Para os militares, era a gota d’água numa relação já frágil com um governo que, nas palavras do general, “afrontava valores e costumes caríssimos para nós militares”.

Foi a partir de 2013 que a contramemória militar deixou de ser assunto da caserna. Os protestos verde-e-amarelo que emergiram naquele ano e se intensificaram em 2014 e 2015 reivindicavam uma “ordem” imaginária perdida: moral, sexual e familiar. A celebração da ditadura deixou de ser monopólio de círculos radicais para se tornar peça central da autoimagem conservadora brasileira, nos partidos e na sociedade civil. Quando Jair Bolsonaro dedicou seu voto contra Dilma “à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”, “o terror” da presidente, inaugurou simbolicamente uma moralidade pública ancorada na celebração da ditadura. Ele não era um lobo solitário, e seu arroubo não foi improviso. Era a cristalização de uma antimemória longamente gestada, dentro e fora dos círculos militares.

No entanto, a institucionalização das políticas de memória fez mais do que ferir o brio militar e empurrar generais para o palanque antidemocrático. Essas políticas e a grita militar no seu entorno também deixaram marcas sobre como brasileiras e brasileiros imaginam o passado.

Pesquisa Datafolha de dezembro de 2014 mostra que 32% da população “não sabia” dizer se o legado autoritário no país era positivo ou negativo. Em 2019, os sem opinião caíram para apenas 12%. Entre os que tinham opinião formada, cerca de 60% enxergavam mais realizações negativas do que positivas dos militares no poder, ao passo que 30% lembravam ou imaginavam a ditadura de forma positiva. Esses dados não descrevem um país sem memória; descrevem um país com memória cindida e disputada.

Dado também intrigante é o (des)conhecimento sobre o AI-5. Em 2008, apenas 18% dos brasileiros já tinha ouvido falar dele. Não por acaso, após a Comissão Nacional da Verdade e as várias comissões da verdade que varreram o país, em 2019, 35% dos entrevistados declaravam conhecer o ato que radicalizou a ditadura. Uma duplicação nada trivial em tempos de inflexão paulatina do eleitorado rumo à direita e centro-direita. Era uma altura em que essas duas etiquetas, juntas, marcavam inéditos 40 pontos entre os respondentes.

Contudo, esses números e marcas não formam pacotes coerentes. No mesmo tecido social, a condenação majoritária da tortura convive com a nostalgia da “ordem” e do “desenvolvimento” atribuídos aos governos militares. Argumentamos que a reação dos militares às políticas de memória acumuladas desde a redemocratização foi uma das raízes do golpe de 2016. Mas não foi a única. Ao disputar institucionalmente o passado, essas políticas também reorganizaram os atores e forças que brigam por ele, convocando contramemórias que extrapolaram os quartéis e se tornaram combustível político de largo alcance. Assim, a memória celebratória da ditadura está longe de expressar uma forma de ignorância. Ela é, antes, produto político vertido em representações e imaginações de uma ordem perdida.


*Cristina Buarque de Hollanda e José Szwako são autores de Disputed Pasts: Forgetting and Rememebring the Dictatorship in Brazil (University of Texas Press, 2026). Cristina é professora da New York University Abu Dhabi e José é pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e do INCT-Participa. José é também co-Coordenador do Núcleo de Democracia e Ação Coletiva (NDAC-Cebrap), bolsista CNPq, da FAPERJ e do Prociência (UERJ).

 
Next
Next

Precisamos falar sobre a Red Pill, no Brasil e além