Precisamos falar sobre a Red Pill, no Brasil e além

Por Erica Capecchi*


Em março de 2026, um jovem de 18 anos foi preso no Rio de Janeiro acusado de envolvimento no caso brutal de estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, ocorrido no início daquele ano. Ele foi fotografado vestindo uma camiseta com a frase provocativa “não se arrependa de nada” (regret nothing) durante seu depoimento à polícia, o que gerou indignação pública em torno da disseminação da ideologia Red Pill entre jovens do sexo masculino no Brasil.

O lema remete ao influenciador digital anglo-americano Andrew Tate, que há anos promove opiniões extremamente misóginas em seus canais de redes sociais, onde conta com milhões de seguidores — muitos deles jovens. Outros influenciadores de destaque também disseminam ativamente esse tipo de cultura e de discurso de ódio na internet. No Brasil, por exemplo, personalidades como Thiago Schutz promovem e difundem ideias Red Pill a partir de seu perfil no YouTube, chamado justamente “Manual Red Pill”. O principal problema é que, enquanto políticos e a sociedade civil brasileira começam apenas agora a se debruçar mais a fundo sobre as preocupações levantadas pela ideologia Red Pill e pela radicalização, esse movimento online vem crescendo silenciosamente e atuando nos bastidores há anos, recrutando, instruindo e mobilizando jovens homens em escala global.

A comunidade Red Pill surgiu na internet no início dos anos 2000. No entanto, foi com a criação de um fórum de discussão na plataforma Reddit, em 2012, que ela se transformou em um movimento global capaz de reunir multidões de usuários homens que participam de debates movidos por ressentimento e ódio contra as mulheres. Hoje, o grupo é considerado uma subdivisão da “manosfera” — uma galáxia online que agrupa diversas comunidades focadas na defesa dos direitos dos homens e na reafirmação da dominância masculina em uma sociedade onde as mulheres são retratadas como manipuladoras oportunistas. O nome “Red Pill” (pílula vermelha) inspira-se no famoso filme cyberpunk Matrix (1999), que retrata um cenário distópico no qual um pequeno grupo de personagens luta contra uma ditadura tirânica liderada por máquinas que dominaram a humanidade após a revolução da internet e da tecnologia. A referência à “pílula” remete a uma cena em que um dos protagonistas, Morpheus, recruta o personagem principal e herói, Neo, oferecendo-lhe duas possibilidades: engolir a pílula azul e retornar ao mundo simulado e artificial em que viveu toda a sua vida; ou tomar a pílula vermelha e despertar para a realidade, onde tudo é explorado e controlado por máquinas. Ativistas do movimento Red Pill apropriaram-se da iconografia de Matrix e a adaptaram a uma teoria conspiratória segundo a qual as mulheres — e, especialmente, as feministas — estariam tramando para subverter a ordem social vigente, a fim de oprimir os homens e obter poder total sobre eles.

A combinação de misoginia, antifeminismo, autovitimização e mentalidade conspiratória, intrínseca à cultura Red Pill e à “manosfera”, guarda forte ressonância com a ideologia de extrema-direita. Pesquisadores, inclusive eu, têm demonstrado como essas comunidades conseguiram se conectar com a extrema-direita ao entrelaçar a desumanização e a objetificação das mulheres com o supremacismo racial e o discurso de substituição étnica no ambiente online. Ainda não está claro, contudo, se o fórum online Red Pill foi criado por ativistas de extrema-direita ou se simplesmente os atraiu de forma oportunista para o recrutamento de seguidores. De qualquer modo, seria limitante tratar o problema da violência misógina como uma questão predominantemente ligada ao movimento Red Pill e à extrema-direita.

Se, por um lado, é importante responsabilizar aqueles que disseminam e normalizam ativamente essa cultura de ódio, por outro, a hiperpolitização da violência de gênero pode desviar o foco das causas estruturais que estão na raiz desse fenômeno. Nesse contexto, a comunidade internacional deve cooperar para enfrentar o problema de forma abrangente, considerando que sua causa fundamental reside em sistemas estabelecidos de dominação patriarcal e desafiando as dinâmicas de poder que sustentam tais fenômenos.

No Brasil, o debate surgido em torno do movimento Red Pill oferece uma boa oportunidade para refletir sobre a violência misógina estrutural e generalizada que aflige o país. O Brasil já conta com regulamentações eficazes que demonstram o compromisso de enfrentar as causas e consequências dos abusos e da discriminação de gênero em todo o território nacional. Por exemplo, em 2011, a Lei Maria da Penha introduziu medidas importantes para combater a violência doméstica, incluindo a criação de varas especializadas e a aplicação de penas mais rigorosas para os agressores. Além disso, uma importante proposta de lei para a criminalização da misoginia foi aprovada pelo Senado em março de 2026 e aguarda, atualmente, a aprovação final da Câmara dos Deputados. A proposta, considerada uma medida pioneira na América Latina, enfrentou a oposição de alguns parlamentares preocupados com riscos de limitação da liberdade de expressão, especialmente entre os homens.

Por esse motivo, o deputado de extrema-direita Nikolas Ferreira classificou a proposta como uma “aberração”, e prometeu lutar contra sua aprovação final. Enquanto isso, mulheres em todo o Brasil — e no mundo — continuam sendo mortas pelo ódio e pela violência masculina. Uma média de seis mulheres por dia no Brasil, segundo dados recentes. Essa é a única aberração que deveria preocupar a todos nós.

A questão, então, é: o que pode ser feito para combater a cultura Red Pill dentro da luta mais ampla contra a misoginia e a violência contra as mulheres, tanto em nível nacional quanto internacional? O exemplo do Brasil pode inspirar a comunidade internacional a elaborar e implementar estratégias eficazes que transcendam as fronteiras nacionais? O que ainda falta, tanto no âmbito das políticas públicas quanto no cultural, que ainda não abordamos?

Infelizmente, não existe uma resposta única e definitiva para essas perguntas. Iniciativas como a Lei Maria da Penha e a criminalização da misoginia implementadas pelo Brasil são extremamente importantes nesse sentido. No entanto, elas precisam ser fortalecidas por meio de investimentos em reformas sociais que apoiem e protejam as mulheres na prática, bem como em programas socioeducativos abrangentes, voltados especialmente para os jovens. As comunidades nacional e internacional precisam reconhecer a violência misógina como um problema estrutural da sociedade e trabalhar de forma coesa em prol de uma mudança cultural que liberte mulheres e meninas do ódio e da violência baseados em gênero.

Hoje, mais do que nunca, é necessário questionar coletivamente as razões pelas quais figuras como Andrew Tate conseguem inspirar e mobilizar milhões de jovens homens no ambiente online. Ao mesmo tempo, é nossa responsabilidade — tanto como indivíduos quanto como sociedade — exigir com firmeza a responsabilização dos agressores e de todos aqueles que são cúmplices ao legitimar a cultura e as práticas misóginas no discurso público, seja online ou offline.


*Erica Capecchi é pesquisadora honorária na Escola de Línguas Modernas da Universidade de Bristol. Sua pesquisa analisa como movimentos de extrema-direita utilizam mídias digitais, cultura visual e propaganda online para influenciar o debate público e os processos democráticos em diferentes contextos nacionais. Inicialmente focado na Itália, seu trabalho agora examina dinâmicas transnacionais entre a Europa e o Brasil, contribuindo para discussões mais amplas sobre democracia, comunicação política e a circulação global de narrativas extremistas.

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