Por Paulo Abrão* e James N. Green**
A eleição presidencial de 2026 no Brasil acabou; os riscos à democracia, ainda não. Se, por um lado, a vitória de Lula nas urnas afasta a extrema direita do poder presidencial por pelo menos quatro anos, por outro é forçoso reconhecer que esse setor político radical continua empenhado em desestabilizar as instituições e em ameaçar a democracia, seja a partir dos espaços de poder conquistados, como no Senado, seja por meio de manobras ilegais, como no caso da fuga de Flávio Bolsonaro para Miami, de onde devem partir as próximas ações hostis contra o novo governo eleito.
A vitória de Lula é incontestável. Ela foi referendada, em primeiro lugar, pelo Tribunal Superior Eleitoral, cujo presidente é um ministro da Suprema Corte que foi indicado ao cargo por ninguém mais, ninguém menos, que Jair Bolsonaro. Kássio Nunes Marques deveria ser um juiz acima de qualquer suspeita para os bolsonaristas. E é nessa qualidade que ele atestou o resultado da votação. Outro ministro do Supremo Tribunal Federal indicado por Jair Bolsonaro, que também tem assento no TSE, e tampouco apresentou qualquer reparo ao resultado legítimo das urnas, é André Mendonça. Não há, portanto, questionamentos legais à vitória de Lula, nem mesmo de parte de juízes associados ao bolsonarismo.
Outro dado relevante é o fato de que nenhum dos observadores nacionais e internacionais presentes no pleito apresentaram qualquer questionamento substancial sobre a lisura da disputa. Por fim, o PL (Partido Liberal), legenda à qual pertence Flávio Bolsonaro, emitiu nota reconhecendo a derrota, o que fez com que o próprio candidato da extrema direita terminasse por reconhecer a lisura do resultado.
Tudo isso deveria bastar para que o Brasil seguisse adiante, curando as feridas provocadas pela tentativa frustrada de golpe de Estado que ocorreu após as eleições presidenciais passadas (2022), quando um Jair Bolsonaro derrotado decidiu se envolver num complô que previa a tomada da sede dos Três Poderes e até mesmo o assassinato de líderes políticos e de juízes, como reconheceram alguns comandantes militares, hoje todos presos.
Mas não foi o que se seguiu: após a vitória de Lula, no último domingo à noite, e depois de todas as evidências de que se tratou de uma vitória limpa, a extrema direita passou a se engajar ao longo da semana em uma renovada campanha golpista; articulada não mais de dentro de palácios e quartéis brasileiros, mas do exterior. Mais especificamente, dos Estados Unidos, onde passaram a se agrupar os membros mais radicais da extrema direita brasileira.
Sob os auspícios de Donald Trump e de Marco Rubio, os Estados Unidos estão investindo no respaldo a questionamentos infundados sobre a vitória de Lula. A posição norte-americana destoa da de dezenas de outros países – incluindo os vizinhos latino-americanos, além das potências europeias – que naturalmente saudaram Lula por sua vitória legítima, logo após a divulgação dos resultados.
Essa opção da Casa Branca pela instabilidade não chega a ser surpreendente. Ela parte, afinal, de um governo que levanta dúvidas infundadas sobre seu próprio processo eleitoral, e que investe, nos Estados Unidos, nas mesmas estratégias de desestabilização da democracia que pretende exportar para o Brasil.
É importante neste momento que o Congresso americano faça o devido enfrentamento a essas estratégias de desestabilização da democracia no Brasil. Papel semelhante deve ser exercido também pelos acadêmicos, sindicalistas, comunicadores e ativistas comprometidos com a defesa da democracia no mundo todo. O assédio da extrema direita é internacionalmente articulado. A contenção a esse setor também deve ser.
*Paulo Abrão é o Diretor Executivo do WBO (Washington Brazil Office). Foi Secretário Nacional de Justiça do Brasil. Também atuou como Secretário Executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos e como Diretor do Instituto de Direitos Humanos do Mercosul. Foi pesquisador visitante no Instituto Watson de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade Brown.
**James N. Green é professor emérito de História e Cultura Brasileira na Universidade Brown, autor ou coeditor de doze livros sobre o Brasil e presidente do Conselho Diretor do WBO (Washington Brazil Office).