Depois de outubro, novembro: por que as midterms importam ao Brasil

Por Gisele Agnelli* 


A pouco mais de um mês das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, talvez a pergunta mais importante não seja se Donald Trump perderá o controle do Congresso, mas o que acontecerá com sua presidência se isso ocorrer. Para o Brasil, a questão é particularmente relevante. Em seu segundo mandato, Trump não apenas expandiu os limites do poder Executivo americano; transformou comércio, sanções e política externa em instrumentos crescentemente personalistas de pressão. E o Brasil tornou-se um dos casos mais claros dessa transformação.

A deterioração política de Trump é hoje difícil de ignorar. A pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 21 de setembro colocou sua aprovação em apenas 32%, o menor índice de sua carreira política nessa série. O desgaste está profundamente associado ao custo de vida e à guerra com o Irã, que pressionou combustíveis e ampliou a percepção de insegurança econômica. No mesmo levantamento, os democratas abriram oito pontos de vantagem sobre os republicanos na preferência para as eleições legislativas.

Nos distritos onde a eleição efetivamente será decidida, a fotografia é igualmente preocupante para a Casa Branca. Pesquisa do Cook Political Report em 37 distritos competitivos mostra os democratas à frente por 49% a 47%. Esses mesmos distritos haviam dado a Trump, em média, cinco pontos de vantagem em 2024. Trata-se, portanto, de uma oscilação de sete pontos. Neles, apenas 42% aprovam o presidente e 58% o desaprovam.

Trump percebeu o risco e tenta transformar as midterms num plebiscito sobre si mesmo. Pediu aos americanos que votem como se seu próprio nome estivesse na urna e chegou a prometer um “Trump dividend” de US$ 5 mil a cada cidadão adulto caso os republicanos mantenham Câmara e Senado — promessa que custaria mais de US$ 1 trilhão e dependeria, na prática, do próprio Congresso.

A estratégia contém uma contradição. Quanto mais Trump presidencializa a eleição, mais obriga candidatos republicanos em disputas competitivas a decidir quanto do presidente desejam carregar consigo. Não há uma fuga uniforme de Trump — a publicidade republicana ainda o utiliza intensamente —, mas já aparecem candidatos buscando alguma distância em temas como guerra, custo de vida e imigração. É uma tensão clássica de eleições intermediárias: o presidente quer nacionalizar a disputa; o parlamentar vulnerável precisa localizá-la.

A Câmara é hoje o principal campo de risco para os republicanos. O Senado é estruturalmente mais difícil. Os republicanos têm 53 cadeiras contra um bloco de 47 democratas e independentes alinhados ao partido. Como o vice-presidente JD Vance desempata um Senado dividido em 50 a 50, os democratas precisam chegar a 51 — ganho líquido de quatro cadeiras. O mapa tornou-se mais competitivo, mas continua exigindo uma sequência difícil de vitórias.

Isso importa porque uma derrota republicana não produziria necessariamente um Trump menos ativo. Poderia produzir exatamente o contrário: um Trump legislativamente mais fraco e executivamente mais agressivo.

Se os democratas conquistarem apenas a Câmara, desaparece a possibilidade de uma grande agenda legislativa republicana aprovada apenas com votos do partido. Mas algo talvez mais importante muda de mãos: as presidências das comissões. Com elas vêm investigações, intimações, audiências, acesso a documentos e poder orçamentário. Uma Câmara democrata não conseguiria simplesmente desfazer todas as decisões de Trump, mas poderia elevar enormemente seu custo institucional.

Se os democratas também conquistarem o Senado, surgiria outro freio: nomeações. Juízes federais, integrantes do gabinete e centenas de cargos dependem do advice and consent do Senado. Uma eventual vaga na Suprema Corte transformaria esse poder em questão histórica.

Ainda assim, seria um erro imaginar Trump paralisado. Comércio, imigração, regulação, sanções e política externa oferecem ao Executivo americano instrumentos construídos por décadas de delegação legislativa. O resultado provável seria uma Presidência mais dependente de executive orders, poderes previamente delegados e litigância — isto é, uma transferência ainda maior do conflito político do Congresso para os tribunais. 

A Suprema Corte já demonstrou que essa margem não é infinita. Em fevereiro, no caso Learning Resources v. Trump, decidiu que a International Emergency Economic Powers Act não autorizava o presidente a criar tarifas. A decisão foi um lembrete constitucional importante: mesmo numa Presidência poderosa, delegação não significa poder ilimitado.

É precisamente aqui que as midterms americanas encontram a eleição brasileira.

Uma eventual vitória democrata em novembro não significaria automaticamente o fim do tarifaço contra o Brasil. O efeito mais importante seria outro: reduzir a capacidade de Trump de conduzir a relação bilateral praticamente sem contraditório político em Washington.

No caso brasileiro, comércio e política doméstica já se sobrepuseram de maneira excepcionalmente explícita. Em 2025, a própria Casa Branca vinculou tarifas extraordinárias impostas ao Brasil ao tratamento de Jair Bolsonaro, às decisões de instituições brasileiras e à capacidade do país de realizar uma eleição presidencial que Washington considerasse livre e justa. Em julho deste ano, a USTR acrescentou uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros após concluir sua investigação sob a Section 301, envolvendo comércio digital e meios de pagamento, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento.

A revelação recente de uma proposta americana entregue ao Brasil em outubro de 2025 torna essa intersecção ainda mais evidente. Entre 21 pontos colocados sobre a mesa estavam compras de aeronaves Boeing, minerais críticos e o compromisso de que o Brasil realizaria eleições “livres e justas” em 2026 sem restringir arbitrariamente a participação de “dissidentes políticos”. Jair Bolsonaro não era nominalmente mencionado. Mas o simples fato de condições político-eleitorais aparecerem dentro de uma negociação comercial demonstra o quanto a fronteira entre comércio e pressão política havia se tornado porosa.

Há, contudo, uma assimetria temporal fundamental. O primeiro turno brasileiro acontece em 4 de outubro; e o segundo turno, em 25 de outubro. As midterms americanas serão realizadas apenas em 3 de novembro, e o novo Congresso assume em 3 de janeiro de 2027. Portanto, qualquer reação imediata da administração Trump ao resultado brasileiro ocorrerá ainda sob o atual Congresso republicano.

Somente depois disso uma eventual maioria democrata começaria a modificar o ambiente bilateral.

Uma Câmara democrata poderia transformar a política para o Brasil em objeto de oversight: convocar autoridades do Departamento de Estado, Tesouro e USTR; exigir documentos; investigar a utilização de instrumentos comerciais para objetivos políticos; e empregar o processo orçamentário para impor limites. Com as duas Casas, os democratas poderiam tentar revisar as próprias delegações de poder comercial concedidas ao Executivo — inclusive impondo novas condições ao uso da Section 301.

Mesmo assim, não seria simples. Trump poderia vetar legislação restritiva, e derrubar um veto presidencial exige dois terços de cada Casa. E existem competências que permaneceriam fundamentalmente presidenciais. A Suprema Corte estabeleceu, em Zivotofsky v. Kerry, que o reconhecimento formal de governos estrangeiros pertence exclusivamente ao presidente. Um Congresso hostil pode restringir recursos, comércio e instrumentos de política externa; não pode simplesmente substituir o presidente no reconhecimento diplomático de outro governo.

Existe ainda outra transformação acontecendo dentro do Partido Democrata. É tentador descrevê-la como uma guinada para o socialismo democrático, impulsionada pela ascensão de Zohran Mamdani em Nova York, Alexandria Ocasio-Cortez e, agora, Abdul El-Sayed em Michigan. Mas essa leitura simplifica excessivamente uma coalizão muito mais complexa.

Pesquisa recente do Pew mostra que 39% dos democratas e independentes alinhados ao partido se consideram mais liberais que o próprio Partido Democrata; quase a mesma proporção, 36%, se considera mais conservadora. A insatisfação, portanto, ocorre nos dois sentidos.

A tipologia política do Pew é ainda mais reveladora. Os “Leftward Progressives” representam apenas 7% dos americanos. Já o grupo chamado “Order and Opportunity Left” — economicamente mais liberal, mas mais moderado em diversas questões sociais, de imigração e segurança — representa 18% do país.

Mamdani demonstrou que existe enorme energia política numa esquerda econômica centrada em affordability: aluguel, transporte, creches e custo de vida. El-Sayed talvez seja um teste nacionalmente mais importante porque sua insurgência ocorreu em Michigan — Estado industrial, competitivo e decisivo — e não em um enclave progressista das costas.

Mas essa esquerda ainda não controla a estrutura nacional democrata. Hakeem Jeffries lidera o partido na Câmara; Chuck Schumer, no Senado. O problema histórico dos democratas continua sendo transformar maiorias esmagadoras em Nova York, Boston ou Los Angeles numa coalizão capaz de vencer o Midwest, o Sun Belt, cidades médias, subúrbios e eleitores de classe trabalhadora.

Por isso, o fenômeno talvez seja menos uma “guinada à esquerda” do que uma disputa sobre a natureza da reconstrução democrata depois de Biden e, sobretudo, depois de Trump.

Para o Brasil, essa reorganização interna do campo democrata também tem uma dimensão diplomática. Em 21 de setembro, em Nova York, Lula se reuniu separadamente com Zohran Mamdani e Bernie Sanders. Com Mamdani, a conversa passou por democracia, extremismo, desinformação e custo de vida; com Sanders, chegou explicitamente às midterms americanas e à eleição brasileira, e o senador defendeu a autodeterminação do Brasil. Esses encontros não devem ser lidos como uma aposta brasileira numa vitória democrata, muito menos como substituto da interlocução institucional com a Casa Branca. Seu significado é mais sofisticado: diante de uma relação bilateral excessivamente concentrada na Presidência americana, interessa ao Brasil reconstruir canais também com o Congresso, governos locais e correntes políticas que podem ganhar influência depois de novembro. Diplomacia madura não escolhe antecipadamente o vencedor de uma eleição estrangeira; diversifica interlocutores para que uma relação de Estado não fique refém de uma única administração ou de um único campo partidário. 

A influência da nova esquerda pode ser muito maior que seu peso numérico. Ela não precisa controlar o partido para modificar sua linguagem. Já deslocou a discussão para custo de vida, saúde, concentração econômica, poder corporativo, sindicatos e financiamento eleitoral. O desafio é combinar essa energia antiestablishment com uma linguagem política capaz de formar uma maioria nacional.

É também por isso que as eleições de novembro são maiores do que uma simples disputa por cadeiras no Congresso.

Trump passou boa parte do segundo mandato expandindo uma Presidência altamente centralizada. Se perder uma ou ambas as Casas, os Estados Unidos entrarão numa experiência diferente: a tentativa de reconstruir, em pleno trumpismo, os mecanismos de checks and balances que a polarização partidária enfraqueceu.

Para o Brasil, essa mudança pode ser tão importante quanto qualquer redução tarifária. Hoje, Brasília negocia essencialmente com uma Presidência forte apoiada por um Congresso republicano. A partir de janeiro, poderá estar negociando também com comissões democratas, investigações legislativas e um Congresso disposto a questionar como comércio, tecnologia, minerais estratégicos, sanções e política doméstica brasileira foram colocados dentro da mesma arquitetura de pressão.

As eleições brasileiras terminarão antes que os americanos votem. Mas as consequências das duas eleições se encontrarão em Washington a partir de janeiro.

A questão, portanto, não é apenas se as midterms conseguirão “parar Trump”. É se elas serão capazes de devolver à política americana algo que se tornou progressivamente escasso durante seu segundo mandato: contrapeso institucional. 

E, para o Brasil, isso significaria algo igualmente importante: recolocar a relação bilateral dentro de uma estrutura em que pressão econômica, política externa e soberania deixem de depender quase exclusivamente da vontade de um único presidente.


*Gisele Agnelli é cientista política e socióloga, formada pela PUC-SP, e atua entre o Brasil e os Estados Unidos. É autora do livro Autocracy Made in the USA, no qual analisa o impacto do trumpismo na democracia liberal. Colunista do Congresso em Foco e comentarista convidada da CBN São Paulo, ela realiza pesquisas sobre erosão democrática, autoritarismo contemporâneo e as relações entre Brasil e EUA. Ex-participante do programa Hoosier Women Forward, fundou o movimento #VoteNelas e o Brasileiras na Florida Book Club. Integra redes transnacionais dedicadas à pesquisa e à defesa da democracia, com foco em direitos civis, governança e instituições. Produz análises sobre democracia, política internacional e Estado de Direito, com ênfase nos desafios contemporâneos.

 
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