Vozes do Cerrado e organismos internacionais se encontram em diálogo sobre direitos e justiça climática

28 de maio de 2026

  • Durante três dias de atividades, lideranças e organizações do Cerrado compartilharam experiências, desafios e estratégias de resistência em diálogo com representantes nacionais e internacionais ligados aos direitos humanos e à justiça climática.

O Cerrado segue sendo sacrificado pela expansão das commodities voltadas ao comércio internacional. Em 2025, o bioma concentrou 55% de toda a área desmatada no Brasil, segundo dados do RAD2025. Diante desse cenário, lideranças comunitárias, pesquisadores e tomadores de decisão se reuniram no encontro “Cerrado no Mundo: Territórios, Direitos e Vozes em Incidência Global”, com o objetivo de internacionalizar o debate sobre a destruição do bioma e denunciar ao mundo os impactos socioambientais desse modelo de exploração.

Os diálogos abordaram temas como justiça climática, desertificação, direitos territoriais, proteção dos conhecimentos tradicionais associados e o direito à consulta e ao consentimento livre, prévio e informado diante de empreendimentos e políticas que impactam os territórios. Entre os presentes no encontro, de 21 a 23 de maio em Uberlândia (MG), estavam povos e comunidades tradicionais e de matriz africana do Cerrado e mecanismos internacionais de direitos humanos.

As lideranças compartilharam relatos sobre contaminação por agrotóxicos e metais pesados, racismo ambiental e religioso, violência territorial, impactos de ferrovias, hidrovias, mineração e expansão de commodities, além da perda de línguas, práticas culturais e formas tradicionais de relação com o Cerrado.

Para Samara Santos de Oliveira, da Rede Retalho e do MOVEN (Movimento Estudantil Negro da UFV-CRP), o evento permitiu dar visibilidade às múltiplas crises enfrentadas pelo Cerrado, ao mesmo tempo em que destacou as estratégias de resistência desenvolvidas pelas próprias comunidades. “Mesmo diante de um cenário tão desafiador, diferentes comunidades conseguem desenvolver estratégias próprias de resistência e adaptação”, afirmou.

Esta e outras falas evidenciaram a necessidade de fortalecer o reconhecimento do Cerrado não apenas como um bioma estratégico para o equilíbrio climático, mas como um território diretamente relacionado à garantia de direitos humanos fundamentais.

As organizações também afirmaram que transformar denúncias dispersas em informação estruturada é parte fundamental para ampliar a presença do Cerrado nos mecanismos internacionais de direitos humanos e fortalecer estratégias coletivas de incidência.

Agora, a expectativa é que o encontro ajude a ampliar a visibilidade internacional de denúncias historicamente fragmentadas ou invisibilizadas nos debates globais sobre clima, desenvolvimento e direitos humanos, fortalecendo o intercâmbio direto entre comunidades e mecanismos internacionais de proteção.

Raissa Felippe de Tumba Inzo A'na Nzambi Junsara,  Associação Vida Inteira, destacou a importância de que povos e comunidades tradicionais sejam escutados e protagonizem os debates sobre os impactos da destruição do Cerrado. “Esse protagonismo em relação aos impactos da destruição do Cerrado sobre a gente tem que ser falado pela gente”, ressaltou.

Carolina Martini, da AMEDI (Ambiente e Educação Interativa), uma das entidades organizadoras, destacou que os debates reuniram comunidades, pesquisadores e representantes de organismos internacionais em torno de temas fundamentais para o futuro do bioma. Segundo ela, “olhar para o Cerrado brasileiro é também olhar para o mundo”.

O encontro representa um passo na construção de estratégias coletivas para ampliar a incidência política, social e internacional sobre o Cerrado. Como afirmou João Bosco, da Rede GTA,  “defender o Cerrado é defender a soberania alimentar, a justiça climática, os direitos territoriais e o futuro das próximas gerações”.

Relator especial da REDESCA/CIDH, Javier Palummo participou como parte de uma visita acadêmica e promocional ao país onde desenvolveu a relação entre direitos humanos, justiça climática, proteção territorial, povos e comunidades tradicionais, democracia ambiental e modelos de desenvolvimento na América Latina e no Caribe.

No primeiro dia do encontro, Diego Soares, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Gustavo Malacco, da Angá – Conservação do Cerrado, e Hiparidi Top’Tiro, da MOPIC e coordenador da Rede Cerrado, debateram os territórios, os conhecimentos tradicionais associados e os desafios enfrentados pelo bioma.

A programação também contou com a participação de Alexandre Pires, diretor de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente (MMA), e de Denise Dora, enviada especial da COP30 para Direitos Humanos e Transição Justa, que discutiram a presença do Cerrado nas agendas globais sobre clima, direitos humanos e justiça socioambiental.

No segundo dia, Rodrigo Deodato, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Fábio Martins, da Rede Cerrado, e a deputada federal Dandara Tonantzin dialogaram sobre direitos territoriais, incidência internacional e o direito ao consentimento livre, prévio e informado dos povos e comunidades tradicionais.

Martins, destacou a importância dos protocolos comunitários autônomos para garantir a autodeterminação dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado diante de ameaças aos seus territórios. O debate também reforçou o direito das comunidades de decidir sobre ações que impactam seus modos de vida, incluindo o direito ao veto, além da importância da Convenção 169 da OIT na proteção dos direitos coletivos e territoriais.

O encontro foi encerrado com visitas à Aldeia Multiétnica Kauã Poty e ao Ponto de Cultura Moçambique Estrela Guia, destacando a diversidade cultural, espiritual e ancestral que marca a resistência dos povos do Cerrado.


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