A desconfiança como estratégia de manipulação das eleições

Por Marie Santini*


A história das democracias é indissociável de tensões e questionamentos permanentes. Porém, vivemos uma profunda crise de confiança nas instituições democráticas no Ocidente. O que há de novo não são os questionamentos em si, mas quem os organiza e por que motivos, transformando a desconfiança na democracia e no processo eleitoral em um instrumento político deliberado de aniquilação do dissenso.

Esse fenômeno está ligado à crescente polarização afetiva do público norte-americano e foi importado pela extrema direita brasileira, que segue a mesma cartilha. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, a desconfiança no sistema eleitoral já não é sintoma, mas uma estratégia para ganhar a disputa nas urnas – ou fora delas.

A vigilância das instituições democráticas foi historicamente exercida pela imprensa e pelos meios de comunicação de massa que não conseguiam engajar o cidadão comum ou estimular sua participação política de forma contínua. Foram as redes sociais que transformaram a política em um produto de consumo compulsivo, convertendo a comunicação política em um terreno de guerra de narrativas que explora a lógica da campanha permanente. Influenciadores, algoritmos e diferentes comunidades online fazem da política um espetáculo ininterrupto, guiado pela produção de tração, reação, engajamento e receita. 

Isso desloca o próprio fundamento da confiança política. Até o surgimento das redes, era a legitimidade e a confiança que conferiam poder moral às instituições. Hoje essa lógica se inverteu: é a posição política e os valores morais que definem em que e quem se confia. Os algoritmos de recomendação operam nessa inversão, ajudando a construir comunidades de crença e "câmaras de eco", cuja lógica é baseada em desacreditar ativamente vozes divergentes, tornando seus membros dependentes de fontes aprovadas pelo próprio grupo e blindados contra qualquer evidência contrária.

Os números sobre a percepção da integridade eleitoral mostram essa organização da desconfiança de forma objetiva. No Brasil, a confiança nas urnas eletrônicas caiu de 82% em 2022 (quando Bolsonaro era o incumbente) para cerca de 53% em 2026, com Lula no poder. O desmoronamento da confiança nas urnas se concentra entre os eleitores derrotados: hoje apenas 22% dos eleitores de Bolsonaro confiam no sistema eleitoral, contra 75% dos de Lula. Nos Estados Unidos, o mais revelador é o dado de reversibilidade: a confiança republicana saltou de 24% para 64% nas semanas seguintes à vitória de Trump. O mesmo padrão aparece na percepção de legitimidade do resultado entre os republicanos, medida pelo Bright Line Watch: passou de 27% em 2020 a 97% em 2024. Entre os democratas, a confiança no sistema eleitoral moveu-se em sentido inverso, de 97% para 83%. A queda de confiança dos democratas foi moderada, enquanto a recuperação de confiança dos republicanos foi quase total, confirmando que a legitimidade percebida da direita e da extrema-direita segue muito mais de perto quem venceu do que qualquer critério técnico sobre o processo eleitoral em si.

Esse padrão revela a função dupla da organização da desconfiança: aumentar a abstenção eleitoral e, simultaneamente, preparar o terreno para uma eventual contestação de resultado desfavorável. Ou seja, a confiança dos republicanos no sistema eleitoral só retorna quando o resultado reforça a preferência dos seus eleitores partidários. 

Um exemplo concreto dessa campanha permanente contra o sistema eleitoral no Brasil foi estudado pelo NetLab UFRJ. Desde a eleição de 2018, Jair Bolsonaro articulou de forma contínua teorias conspiratórias sobre a vulnerabilidade das urnas eletrônicas, alimentando um fluxo de desinformação que se intensificava nas vésperas do pleito. Durante a campanha eleitoral de 2022 identificamos picos de mensagens sobre suposta fraude eleitoral em grupos de WhatsApp e Telegram concentrados em datas estratégicas (por exemplo, às vésperas do primeiro turno e no dia 7 de setembro) com textos idênticos replicados em massa e com indícios de disparo coordenado, e não de indignação espontânea. Investigações da Polícia Federal revelaram posteriormente que essa arquitetura de descrédito, amplificada por influenciadores bolsonaristas de grande audiência, também sustentou preparativos golpistas que culminaram nos atos de 8 de janeiro de 2023.

Esse é exatamente o mecanismo da câmara de eco: a desconfiança não é um efeito colateral da informação e do pensamento crítico, mas uma estrutura de manipulação construída para excluir todo contraditório. São campanhas que operam com a ajuda de algoritmos que amplificam vozes internas a grupos online, aumentando artificialmente a sensação de escala e consenso.

Esses são os riscos que o Brasil carrega nas eleições de 2026. Quando a desconfiança é organizada por um grupo político, alimentada por campanhas permanentes e potencializada por algoritmos de recomendação, deixa de ser um efeito da vida democrática para se tornar uma tecnologia política: passa a embasar a definição de quem merece ser acreditado e quem deve ser sistematicamente suspeitado, e ao final, quem deve ter seu poder ampliado, e quem deve ser destruído ou aniquilado. 

Fontes dos dados de confiança nas urnas eletrônicas:

  • Brasil: Datafolha (confiança de 82% em 2022) e Genial/Quaest, fevereiro de 2026 (confiança de 53%, com o recorte por candidato em 2022).

  • Estados Unidos: Gallup (série histórica de confiança na contagem nacional dos votos e gap partidário de 56 pontos em 2024); Bright Line Watch (percepção de legitimidade do resultado eleitoral, 2020 vs. 2024, por partido); AP-NORC (variação da confiança republicana de 24% para 64% após a eleição de 2024).


*Marie Santini é professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fundadora e diretora do Netlab (Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais da UFRJ.

 

 

 

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