Quem vencerá no 1º turno da eleição brasileira?

A dois dias do primeiro turno, a pergunta mais importante pode ser formulada de forma direta: quem chega em melhores condições à votação deste domingo — que pode até decidir a eleição?

por Carlos Tibúrcio *

A resposta é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas isso não significa que a eleição já esteja decidida ou que Flávio Bolsonaro tenha deixado de representar ameaça real.

Lula chega melhor porque lidera a maioria das pesquisas, recuperou a iniciativa e avançou em parcelas estratégicas. Flávio chega pressionado, mas conserva uma base expressiva e permanece tecnicamente empatado com Lula num eventual segundo turno.

A Quaest desta semana mostrou Lula com 39% e Flávio com 34%. A Atlas/Bloomberg registrou 45,3% a 42,2%. A Palver encontrou os dois com 44%. Apesar das diferenças metodológicas, Lula tem maior probabilidade de terminar na frente e ampliou suas possibilidades de vencer no domingo. Mas a disputa continua aberta.

Durante boa parte da campanha, os dois permaneceram presos a um empate de vetos. Lula enfrenta o antipetismo e problemas ainda não resolvidos. Flávio carrega a rejeição ao bolsonarismo, a memória da pandemia, o confronto com as instituições e as suspeitas sobre o pedido de financiamento feito a Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro.

Durante meses, os dois mobilizaram mais medo do adversário do que esperança no próprio projeto. Nas últimas semanas, Lula começou a alterar essa dinâmica.

O governo reajustou em 15% o Bolsa Família, iniciou o processo de incluir medicamentos – canetas emagrecedoras – contra a obesidade no SUS e proibiu as apostas online, as Bets. São medidas diferentes, mas transmitem a mesma ideia: proteção das famílias.

Lula voltou a falar intensamente de renda, alimentação, saúde, dívida e segurança econômica. A Quaest registrou seu avanço entre mulheres, católicos, evangélicos, beneficiários do Bolsa Família e eleitores de baixa renda.

Não é possível determinar quanto cada medida acrescentou à intenção de voto. Mas há uma mudança: enquanto Flávio praticamente apenas reagia, Lula voltou a produzir acontecimentos e agendas novas.

A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida reforçou o movimento. Ela surgiu da informação falsa de que Flávio retiraria da santa o título de padroeira do Brasil. O candidato não fez essa afirmação, mas ampliou a crise ao acusar integrantes da CNBB de colaborar com seus adversários. Depois, tentou reconstruir pontes com a Igreja Católica. 

É nesse conjunto que se reforçam os sinais de uma possível onda Lula. A hipótese, levantada antes que o crescimento aparecesse com maior nitidez, baseava-se na redução dos indecisos, na concentração da eleição, na iniciativa do governo e na mobilização da militância.

Agora, algumas evidências aparecem nos levantamentos. Mas a onda ainda não está realmente comprovada. Lula precisará crescer ainda mais, absorver eleitores dos demais candidatos e transformar entusiasmo em votos.

Flávio continua competitivo. Lidera entre evangélicos, no Sul e em partes do Sudeste e pode receber, num eventual segundo turno, a maior parte dos votos conservadores. Há uma diferença entre chegar melhor ao primeiro turno e reunir as melhores condições para vencer toda a eleição.

Lula é favorito para terminar o primeiro turno na frente. Pode aproximar-se da vitória no domingo, mas ainda não possui votos para garanti-la. Se houver segundo turno, será uma nova eleição, disputada em outros termos.

A eleição também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Os senadores democratas dos Estados Unidos Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch enviaram carta a Marco Rubio advertindo o governo Trump contra interferências e pedindo o reconhecimento do resultado certificado das urnas.

A advertência não surge no vazio. Trump recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca e adotou medidas econômicas contra o Brasil. A soberania brasileira também estará em julgamento no domingo.

O prognóstico possível, a dois dias da eleição, é este: Lula deve terminar o primeiro turno na frente. A vitória imediata tornou-se uma possibilidade política, mas ainda não uma probabilidade demonstrada. A possível onda Lula terá até domingo para mostrar se ultrapassou o sentimento dos apoiadores e alcançou uma parcela mais ampla do eleitorado brasileiro.


*Carlos Tibúrcio é jornalista, editor do Fórum 21, diretor da Fatoflix, membro da Coordenação do Barão de Itararé e foi coordenador da Equipe de Discursos do presidente Lula e da presidenta Dilma, de 2003 a 2016.

 
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