Eleição brasileira resulta em concentração de poder e alinhamento com os EUA

Por Paulo Abrão* e James N. Green**


O primeiro turno da eleição presidencial de 2026 no Brasil indica tendência a uma rara e perigosa concentração de poder nas mãos de um único setor político: a extrema direita e seus aliados. 

O PL (Partido Liberal), maior expoente desse setor, terminou essa primeira etapa da disputa presidencial como favorito – Flávio Bolsonaro conquistou 47,03% dos votos, enquanto o presidente Lula ficou em segundo lugar, com 45,16%.

Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro, quando um desses dois tabus será quebrado: nunca um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu reverter essa desvantagem no segundo turno, mas também nunca um candidato presidencial à reeleição pelo PT (Partido dos Trabalhadores), partido de Lula, perdeu uma disputa, pois Dilma Rousseff se reelegeu em 2014 e o próprio Lula já tinha se reeleito em 2006.

A questão envolvendo a Presidência segue, portanto, em aberto. Mas outras duas verdades já estão cravadas e são bem conhecidas. A primeira delas é a hegemonia conquistada pela extrema direita e por seus aliados no Congresso Nacional.

Na Câmara dos Deputados, o PL (Partido Liberal), da família Bolsonaro, ganhou 23 cadeiras e chegou a um total de 121, em uma casa legislativa composta por 513 membros. Somando os assentos ocupados pelos aliados do PP (Partido Progressista), do União e do Republicanos, esse número chega a 249.

No Senado, o PL também se tornou o maior partido, depois de somar no último domingo 13 assentos aos 15 que já possuía anteriormente. A legenda tem agora, sozinha, 28 das 81 cadeiras que compõem à casa. Somando os senadores de partidos aliados, esse número chega a pelo menos 45.

O que os dados mostram, portanto, é o controle majoritário do Poder Legislativo e uma grande chance de controle do cargo máximo do Poder Executivo do país. Mas não é só isso: o próximo presidente brasileiro terá o direito de indicar pelo menos quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal, órgão máximo do Poder Judiciário, que é composto por 11 membros. Dois dos membros atuais – Kássio Nunes Marques e André Mendonça – já foram indicados por Jair Bolsonaro, quando o ex-presidente ainda estava no poder. Os outros quatro podem vir a ser indicados por Flávio Bolsonaro, caso ele vença no segundo turno.

Tal como está hoje, a situação se encaminha para um cenário no qual os contrapesos da República podem se tornar tão raquíticos diante da hegemonia da extrema direita e seus aliados que eles mal serão sentidos. A oposição no Congresso será minoritária, enquanto o Judiciário estará entregue a uma nova leva de juízes, dóceis ao governismo, e com possibilidade crescente de que esse controle seja coroado finalmente com a volta de um membro da família Bolsonaro à Presidência da República.

Tudo isso ocorre dentro das regras democráticas. O setor extremista que, em 2023, fracassou na tentativa de um golpe de Estado, desta vez vence dentro das regras. Mas é possível que essa vitória limpa conduza a um governo com um poder concentrado, que certamente fará uso de sua hegemonia para tentar tirar da cadeia e anistiar os golpistas – um gesto que não apenas representaria um enorme retrocesso institucional, mas também um risco redobrado de que o Brasil reviva a insegurança e a instabilidade provocada por um grupo de civis e militares que já foram declarados fora da lei.

Por fim, cabe registrar que tudo isso ocorre em sintonia com o atual governo dos Estados Unidos, no qual um líder igualmente autoritário joga pesado para que o Brasil siga o destino da maioria dos seus vizinhos latino-americanos e emplaque também um governo alinhado.

Para a sociedade civil organizada, a imprensa e a academia, os próximos quatro anos serão não apenas de vigilância e de combatividade política redobrada, mas também de preocupação com a garantia de respeito ao próprio espaço vital, que é comumente ameaçado pela extrema direita onde quer que ela conquiste uma hegemonia tão grande, apoiada por um ator externo tão poderoso.


*Paulo Abrão é o Diretor Executivo do WBO (Washington Brazil Office). Foi Secretário Nacional de Justiça do Brasil. Também atuou como Secretário Executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos e como Diretor do Instituto de Direitos Humanos do Mercosul. Foi pesquisador visitante no Instituto Watson de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade Brown.

*James N. Green é professor emérito de História e Cultura Brasileira na Universidade Brown, autor ou coeditor de doze livros sobre o Brasil e presidente do Conselho Diretor do WBO (Washington Brazil Office).

 
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