O Brasil como sede de uma importante conferência LGBTQIA+
Por Victor De Wolf*
A América Latina sofre, há décadas, com oscilações políticas que vez ou outra trazem ao nosso continente o flerte com as ditaduras e com os governos opressores. A comunidade LGBTQIA+, como parte de um grupo de minorias políticas, ainda é uma das mais perseguidas. Neste contexto, os Estados Unidos da América se mantêm com forte influência na região e, após a eleição de Donald Trump e o fortalecimento de seu discurso de ódio, a perseguição política à nossa comunidade se agravou.
Como exemplos dessas oscilações, podemos citar a Argentina, onde um presidente declaradamente antidireitos LGBTQIA+ tenta eliminar todas as ações governamentais e legislações que fizeram desse país vizinho uma referência em nossa região. Em El Salvador, após uma década de governos progressistas, Nayib Bukele promove um dos governos mais antidireitos humanos da região e coloca a população LGBTQIA+ como adversária da sociedade. Em 2025, o governo salvadorenho aprovou novas legislações que ampliaram seu poder e aumentaram a opressão sobre quem pensa de forma diferente. Processo parecido já havia sido observado no Brasil, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tentou eliminar da vida cotidiana do país toda forma de diversidade, e buscou se perpetuar no poder com um fracassado golpe de Estado. Os três casos citados demonstram uma mesma forma de operação política da direita neofacista na região e um alinhamento ideológico desses governantes.
O fortalecimento dos movimentos sociais é uma das formas de superar esses momentos de tormento, porque a sociedade civil organizada desempenha papel fundamental na construção da democracia, sendo capaz de dialogar com parcela importante da população. É a sociedade civil organizada quem consegue também pensar estratégias coletivas e efetivas, por meio de soluções compartilhadas. No caso do movimento LGBTQIA+, a ILGA World (associação internacional LGBTQIA+) existe desde 1978. Essa é a entidade mais representativa nessa área, que se subdivide em seis entidades regionais: América Latina e Caribe, América do Norte, Ásia, Europa, Oceania e Pan África).
Em dezembro de 2025, a ILGALAC (América Latina e Caribe), realizaria sua 10a Conferência Regional, em São Salvador, na capital de El Salvador. Com a piora da situação no país, provocada pelo governo Bukele, o Conselho da entidade decidiu pela suspensão do evento e pela transferência de local. Um grande debate foi realizado para buscar a melhor solução e decidiu-se por realizar no Brasil em 2026. Desta forma, a próxima Conferência Regional será na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, em maio de 2026, tendo como comitê organizador a ABGLT (Associação Brasileira LGBTQIA+) e o Coletivo LGBTQIA+ do MST (Movimento dos Sem Terras).
A ABGLT, a maior e mais antiga rede LGBTQIA+ do país, constrói o diálogo e a integração com movimentos sociais brasileiros, e na região da América Latina e Caribe. A ILGA e a ABGLT caminham juntas há muito tempo. Em 1995, ano da fundação da ABGLT, ocorreu no Rio de Janeiro a Conferência Mundial da ILGA, que marcou também a realização da 1a Parada do Orgulho do país em Copacabana. Já em 2010, a ABGLT realizou a V Conferência Regional da ILGALAC na cidade de Curitiba. Embora não estivesse nos planos realizar outra conferência no Brasil neste momento, é importante entender a relevância desta decisão. Por um lado, há a questão da solidariedade aos ativistas, em especial à direção da ILGALAC e a organização local de El Salvador, que não puderam realizar o evento, por motivos alheios à sua vontade. Por outro lado, temos a questão política local, uma vez que o Brasil terá eleições este ano e novamente a pauta LGBTQIA+ estará no centro da polarização política do país. Embora o terceiro governo Lula ainda não seja o governo dos nossos sonhos, especialmente em setores nos quais que tivemos grandes retrocessos para a nossa população (como a Educação, Cultura e Segurança Pública), há que se entender que uma derrota do projeto que pretende o retorno de um governo fascista, antidireitos humanos e antimultilateralismo, influencia diretamente o futuro da nossa região.
A ILGALAC desempenha um papel fundamental nesse cenário político, cabendo ao conjunto dos ativistas presentes a 10a Conferência organizar a atuação dos movimentos pelo próximo período, fortalecendo as organizações locais, criando estratégias de sobrevivência e enfrentamento e atuando cotidianamente no fortalecimento da democracia e do multilateralismo. Também será um momento importante para a região, pois antecede a próxima Conferência Mundial da ILGA, a ser realizada na Argentina, em 2027. Esta Conferência Regional, portanto, terá um papel fundamental para a democracia e fortalecimento das lutas regionais.
Se fechamos o ano de 2025 no Brasil de forma intensa, com a realização da 4a Conferência Nacional dos Direitos da População LGBTQIA+ (que não era realizada há 11 anos), 2026 não será diferente. Que as ruas de Niterói acolham a diversidade e ajudem o movimento LGBTQIA+ da América Latina a superar esse momento difícil, para que possamos viver em um mundo cada vez mais diverso, com mais respeito e mais direitos.
*Victor De Wolf é mestre pelo Programa Cultura e Territorialidade da Universidade Federal Fluminense (UFF), Presidente da ABGLT, representante do Brasil na ILGALAC e conselheiro Consultivo da WBO.