Trump 2.0: Crise Definitiva ou Oportunidade de Reconstrução da Democracia

Por Rafael R. Ioris*


O sistema político norte-americano tem apresentado forte traços de disfuncionalidade ao longo dos últimos anos. Antes amplamente respeitadas, eleições majoritárias têm se tornado foco de disputa e desconfiança. O legislativo nacional enfrenta recorrentes paralisias decisórias, resultando muitas vezes na paralisação dos serviços públicos também. O ocupante do Executivo, por sua vez, é cada vez mais acusado de governar somente para o seu eleitorado cativo, e decisões judiciais são cada vez mais vistas como expressões abertas de posições políticas particulares.

De maneira mais ampla, a sociedade em geral se encontra cada dia mais polarizada por linhas ideológicas quase estanques, onde um lado parece não mais reconhecer a legitimidade de posições contrárias. E diante de um cenário tão complexo, o retorno à Presidência de uma figura tão clivante como Donald Trump tem sido entendido, em geral, como um fator de agravamento de um quadro já desanimador para o funcionamento – talvez até para a própria sobrevivência – das instituições e mesmo da própria cultura democrática nos EUA.

Considerando o que o governo dele tem feito ao longo do primeiro ano deste segundo mandato, há certamente fortes motivos para preocupação. Afinal, de maneira clara e coordenada, desde seu início, o novo governo Trump intensificou uma retórica altamente polarizadora, onde a oposição é tratada como inimiga interna e as agências governamentais são aparelhadas por apaniguados estritamente alinhados, ao passo em que burocratas profissionais são perseguidos e demitidos.

No mesmo sentido, as estruturas de poder são controladas de forma a garantir benesses fiscais e reformas legislativas que favorecem quase exclusivamente políticos aliados e grandes financiadores, enquanto setores marginalizados são atacados moralmente e tem suspensos seus programas de ajuda oferecidos pelo Estado. Por fim, o anti-intelectualismo torna-se moeda corrente, e pautas governamentais não alinhadas – como ciência, educação, meio ambiente e inclusão racial e de gênero – são rechaçadas, e programas ou fundos a associados a essas pautas são cancelados.

Nesse contexto – de um estreitamento crescente do horizonte e mesmo do encurtamento da lógica democrática –, a figura do imigrante, especialmente o de origem latina, reflete de maneira clara a centralização de poder e o clima de perseguição política e ideológica crescentes no país. Mas se a vilipendiação do imigrante transfronteiriço foi um tema de campanha de grande eficácia para Trump já em 2016, hoje a deportação em massa assumiu uma relevância ainda maior, onde a polícia migratória (ICE) tem passado a agir de maneira mais coordenada nas ruas de todo o país.

E se ainda há apoio por um controle maior das fronteiras e mesmo pela deportação do imigrante não documentado, a maneira de atuação da ICE – em geral truculenta, muitas vezes ilegal e, até o momento, com quase total impunidade – poderá talvez fazer com que o que tem sido até aqui um dos carros-chefe do atual governo se converta na oportunidade que faltava para organizar uma resistência mais coordenada ao processo de concentração de poder e culto de personalidade em curso. Afinal, se desde o início do atual governo, forças democráticas de todo tipo têm tido grande dificuldade para encontrar um eixo estruturante capaz de aglutinar suas diversas vozes, os trágicos eventos dos últimos dias em Minnesota parecem ter o potencial de reverter esse quadro.

De maneira concreta, as injustificáveis mortes, nas mãos de agentes da ICE – de Renee Good e de Alex Pettri, duas pessoas brancas de classe média, na mesma cidade e no intervalo de duas semanas –, apresentam de forma clara e concreta a gravidade que faltava para mobilizar até mesmo eleitores ainda reticentes ao tema da arbitrariedade policial recorrentemente infligida sobre grupos sociais menos favorecidos. Isso é reforçado pelo fato de que ambas mortes foram filmadas por inúmeros telefones celulares para todos dispostos a ver a verdade dos fatos.

Tragicamente, para além da dor já causada por essas e outras mortes, assim como pelas recorrentes violações dos direitos de imigrantes e mesmo de cidadãos americanos, nada indica que similares eventos não voltarão a ocorrer, especialmente em meio ao que, se espera, possa ser um amplo movimento de defesa dos direitos humanos e civis no país. Certamente não será tarefa fácil, e não funcionará se depender somente das lideranças institucionais da oposição.

O governo parece estar sentindo a pressão, começando mesmo a atenuar um pouco sua agressividade. Mas mudanças duradouras terão que envolver, de forma ampla e continuada, amplos setores sociais, especialmente na base mais atacada e sofrida do país. Caso isso, de fato, aconteça, poderemos enfim dizer que a volta de Trump terá significado não só a autocratização definitiva do sistema político norte-americano, mas talvez a reconstrução, talvez mesmo o aprofundamento, da sua democracia.


*Rafael R. Ioris é professor da Universidade de Denver e Pesquisador Associado ao WBO


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