Às vésperas das eleições, membros do Congresso dos EUA cobram respostas sobre atuação norte-americana no Brasil 


Carta enviada a Marco Rubio questiona medidas diplomáticas, econômicas e políticas e pergunta se o governo dos Estados Unidos respeitará o processo eleitoral brasileiro e reconhecerá o resultado certificado das eleições de 2026. 



Brasil Office, 24 de setembro — A dez dias do primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para 4 de outubro, membros do Congresso dos Estados Unidos enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando explicações sobre a política adotada pelo governo norte-americano em relação ao Brasil e perguntando se Washington se comprometerá a respeitar o processo eleitoral de 2026 e reconhecer seu resultado oficialmente certificado.

A carta, assinada por 31 parlamentarios e liderada pela deputada democrata Delia Ramirez (Illinois), abre expressando “grave preocupação” com o que seus signatários descrevem como um esforço coordenado da Administração norte-americana capaz de ameaçar a relação estratégica entre os dois países e de “minar a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental” às vésperas da eleição presidencial brasileira. 

O documento surge em meio a uma mobilização que organizações da sociedade civil vêm construindo há meses em defesa da democracia brasileira, com apoio da Alliance Brazil Office e o Center for Economic and Policy Researcher (CEPR), e que incluiu, em julho, uma agenda política e institucional em Washington. 

Ao reconstruir a deterioração recente das relações entre os dois países, o documento remonta a 2025 e reúne diferentes episódios que, na avaliação de seus autores, demonstram uma escalada de pressão sobre instituições brasileiras. Entre eles estão a imposição de tarifas e sanções no contexto do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, no Supremo Tribunal Federal, e medidas comerciais adotadas posteriormente pelos Estados Unidos. A carta também menciona a nomeação de Darren Beattie para atuar em temas relacionados ao Brasil no Departamento de Estado e relaciona declarações e iniciativas recentes do governo norte-americano às preocupações sobre o processo político brasileiro.

O documento dedica atenção particular a acontecimentos ocorridos já durante o atual ciclo eleitoral. Os parlamentares citam a reunião entre o presidente Donald Trump e o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e registram que, após o encontro, o Departamento de Estado classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A carta relata preocupações manifestadas no Brasil sobre os possíveis efeitos dessa decisão e a insere em um quadro mais amplo de tensão entre os dois países.

Outro episódio destacado é a tentativa de viagem ao Brasil de dois integrantes do Departamento de Estado ligados à área de democracia e direitos humanos. Segundo a carta, a delegação pretendia levantar questionamentos sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro; após a negativa de entrada no país, a Administração norte-americana revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington. Para os signatários, a sequência desses acontecimentos amplia a preocupação com possíveis formas de pressão sobre o Brasil nas semanas que antecedem a eleição.

Das eleições de 2022 ao cenário de 2026

A carta também estabelece um contraste explícito com a postura adotada pelos Estados Unidos durante as eleições brasileiras de 2022. O documento recorda que, naquele momento, autoridades e parlamentares norte-americanos manifestaram apoio público ao respeito ao resultado das urnas e que Washington reconheceu rapidamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Também menciona o apoio internacional às instituições brasileiras após os ataques de 8 de janeiro de 2023.

Para os autores, o cenário atual representa uma mudança. Eles afirmam que ações diplomáticas, econômicas e políticas adotadas pela atual Administração podem enfraquecer instituições democráticas, afetar a confiança no processo eleitoral brasileiro e produzir danos duradouros à relação entre Brasil e Estados Unidos. O documento também situa essas preocupações em um contexto regional mais amplo e recorda o histórico da participação norte-americana no golpe militar de 1964 e do posterior apoio à ditadura brasileira.

É a partir desse diagnóstico que os parlamentares apresentam uma série de pedidos formais de esclarecimento ao Departamento de Estado. Eles solicitam informações sobre os critérios utilizados para sanções relacionadas ao Brasil, incluindo a aplicação da Lei Global Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes; a justificativa para a classificação de PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras; a coordenação da política norte-americana de democracia e direitos humanos para a região; e a decisão de revogar o visto do embaixador brasileiro nos Estados Unidos.

Mas as duas perguntas finais concentram diretamente a atenção sobre as eleições de outubro.

“O governo se comprometerá a respeitar o processo eleitoral brasileiro?”, perguntam os signatários, em tradução do documento.

Na sequência, perguntam se a Administração norte-americana se comprometerá a “reconhecer o resultado certificado das eleições democráticas brasileiras de 2026” e a manter relações diplomáticas regulares com qualquer candidato legitimamente escolhido pelo eleitorado brasileiro.

Os congressistas pedem respostas substantivas do Departamento de Estado até 1º de outubro, quatro dias antes do primeiro turno das eleições brasileiras.

Uma agenda da sociedade civil que antecede a carta

Os temas apresentados agora formalmente ao Departamento de Estado vêm sendo discutidos há meses por organizações da sociedade civil brasileira em diálogo com instituições e interlocutores nos Estados Unidos.

Em julho, representantes de 15 organizações da sociedade civil brasileira estiveram em Washington e Nova York para reuniões com parlamentares norte-americanos e suas assessorias, diplomatas, representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA), acadêmicos, sindicalistas, jornalistas e organizações locais. Na ocasião, o grupo defendeu a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, pediu que os Estados Unidos se abstivessem de interferir na disputa eleitoral e solicitou que autoridades norte-americanas reconhecessem o vencedor da eleição presidencial brasileira, “seja ele quem for”, depois da conclusão da apuração.

Essa articulação vem sendo desenvolvida com apoio de organizações da sociedade civil, com apoio da Alliance Brazil Office (WBO) junto com o Center for Economic and Policy Researcher (CEPR) e o Washington Office on Latin America (WOLA), em diálogo com diferentes atores políticos e institucionais nos Estados Unidos.

A carta enviada agora ao secretário de Estado retoma, no âmbito do próprio Congresso norte-americano, questões centrais que já vinham sendo apresentadas nesse diálogo: o respeito à soberania brasileira, à integridade do processo eleitoral e à decisão soberana das brasileiras e dos brasileiros nas urnas.

A Alliance Brazil Office (WBO) disponibiliza a íntegra da carta à imprensa.

Carta na íntegra: 

Lista de Organizações e movimentos sociais da comitiva EUA 2026:

Articulação dos Povos Indígenas – APIB, Comissão Arns, CUT – Central Única dos Trabalhadores, Direitos Já, GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, Instituto Futuro, Instituto Marielle Franco, Instituto Vladimir Herzog, IP.rec – Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife, LAPIN – Laboratório de Políticas Públicas e Internet, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST, Odara – Instituto da Mulher Negra e Plataforma CIPÓ.

Organizações locais apoiadoras:

4H5H MEDIA, Amazon Watch, BRASA – Brazilian Studies Association, CEPR – Center for Economic and Policy Research, Defend Democracy in Brazil Committee - New York (DDB-NY), Anistia Internacional USA, Fundación Avina, Fundação Heinrich Böll, Instituto Libera, USNDB – US Network for Democracy in Brazil, WOLA – Washington Office on Latin America e Brazilian Women’s Group.

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